23.11.10

Moçambicanto III


Vem da polpa dos teus lábios
o sussurro amargo da lua cheia
sura doce em noite de cio
embebedados
Sei do corpo e do matope
a geografia da tua idade

Sei-te vegetal e fria
na geografia do canto

Gulamo Khan


22.11.10

Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te


Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te
sem R, sem risco ao meio da morte.
Quero-te assim, querente, quente e forte
ode que a circunstância obriga a mote.

Quatorze versos no papel e dou-te
exangue e medido ramo. O corte
já deixou de sangrar. Pinhos do norte!
Que ricas tábuas de caixão, pra bote!

No mundo em pedaços repartida
ficou-me a mim e ao luis vaz a vida,
galinha gorda rebolante ao espeto.

Me, mi, Mimi, migo... Ó amiga, as migas
ainda são um bom prato, e até com ligas
de duquesa se faz tanto soneto.

Grabato Dias

21.11.10

A lua



A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite.


Fernando Couto

Laurentina desagravada



Termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz turbada,
já de si mesmo etc. … bom!

estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.

O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.

e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado

Grabato Dias

Xitimela

para Alexandre Langa

neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.

Gulamo Khan

Moçambicanto II



Havia a árvore
um embondeiro
uma azagaia enferrujando na terra
um murmúrio de casuarinas
namorando o mar

a palavra eram anos
micaias na frotne da angústia
silvo astral decapitado
corpo de mulher tatuado

Gulamo Khan


Para os meus alunos


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Victor Matos e Sá

Aurora


Que sol amadurece, lento,
a sombra doce dos teus seios?
Que branco vento transborda,
deslumbrado de acordar,
nessa área paz de frutos
redondos e naturais?

Em nenhum lugar as fontes são
mais sagradas e reais.

Victor Matos e Sá

Devo-te



Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos!

Vítor Matos e Sá

Marcha fúnebre



Quis imitar as cigarras
E cantar à vida um Hino claro.

Um jovem macilento
que lia o meu poema
esmagou-o com um tractor.

Não.
Vou passar a inventar.

Para começar,
ouçam a fábula fabulosa
daquele milionário fabulosamente rico
que dava todo o dinheiro em esmolas.

Ruy Guerra

20.11.10

Raiz de labareda flameja



Raiz de labareda flameja
e crepita em sua cor e chama —
a flor de acácia rubra te copia,
ó meu amor do instante do cio
solto e aberto.
E o delido rendado da folhagem
imita as frescas carícias dos teus dedos.

Fernando Couto

Cidade



De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manha quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militancia política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manha quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do res-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sed de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

19.11.10

Arremessos




A despeito de questiúnculas, e a despropósito das overdoses do
born in, sempre e sempre o futuro, nossa fúria cosmopolita
mas agora falemos de ortodoxias.
De facto, mais do que a vermelha e a clássica
são estes bolsares viscerais, mangungu d'ontem maningue chatos.
Para os ruminantes, barrete e folhoso são o vai-vem obvio-
implícito, basta o ruminar e bolsar sobre.
Exaustos de exaurir cifrões, estão os dias
que nos transportam es-cru-GULOSA-mente (m) (por via erudita).
No ponto a mesma música: os fúnebres encontros
para chorarmos um entre comuns: os irmãos foram-se de largada.
É verdade que o que somos tem sempre segmentos do que fomos..
Será verdade, também, que o xibalo e a palhota sirvam
para nos nacionalizarem, só porque se u$a?
Ou seremos nós, há caso, mero cidadãos do ocaso?
Mas por criar, sobram-nos os mesmos filhos
que vamos sendo dos nossos pais.
É verdade irrefutável que, se a historia está a ser mal escrita,
a minha geração dar-se-á ao desplante de reescreve-la,
me ti cu lo sa mente(m)!

Manuel Meigos Filimone

Amor


Meu poema infinito
Tu escreves-me tão bem
esse amor todo nos teus dedos
escrevives-me exactamente
como me sonhei


Tânia Tomé

18.11.10

Sento-me na carlinga


Sento-me na carlinga e fecho os olhos
cheira a velho este antonov
na penumbra

o roncar possante
desta ave de aço
as negras mãos refulgindo

dos primeiros moçambicanos
a domar uma ave de aço

Gulamo Khan

16.11.10

O rumor da água na tua voz



O rumor da água na tua voz
e um fio de música no teu andar.
Indecisa a pele entre o bronze e o cobre
e a terra da tua boca ainda a calcinar.

Fernando Couto

13.11.10

A nossa (in)consciência



Vejo a madrugada resvalando-se
num abismo de tenebrosa cólera, fértil
o olhar da prostituta sufoca o grito
do recém-nascido, transformando-o num coágulo de sangue que
fenece pelos esgotos ignotos
das ruas da nossa consciência...
Se a nossa consciência
não fosse esta exímia parturiente da maldade,
que sentido faria a benevolência?

Eusébio Sanjane

12.11.10

A arma do poeta



Eu nunca
Fui soldado
Nunca usei
Farda
Mas usei
A arma do poeta
A arma do verso

Eles disparam
Balas

Eu "disparo"
Versos

Não carrego
No gatilho
Mas empunho
A pena!

Delmar Maia Gonçalves

11.11.10

Laurentina djambular cafezinho das dez



Tivera eu a certeza
que o deus, que parte e reparte,
se fica co’a melhor parte
em cima de sua mesa…

e faria uma loucura
qualquer coisa de bonito
que dignificasse o aflito
da minha medianura!

Grabato Dias

7.11.10

O poeta



O que resta
Ao poeta
Senão viver
Inconformado
E não vergado
Embora
Em voz silenciada
Ninguém consegur
Calar a voz do verbo.


Delmar Maia Gonçalves