21.2.11

Necrologia Laurentina



Só netos eram quarenta
sonetos pr’aí uns vinte
bolotos plantou alguns
o patriarca aos oitenta
sabe que bateu no vinte
e é homem como nenhum.

Tem o pelinho na venta
(digo-o sem nenhum acinte…)
E é filiado na un.

Grabato Dias

1.2.11

Elegia amarga para Benjamim Moloise



As poeiras negras do Soweto
que botas calcam este corpo
as esporas a medo rasgam a terra

(1980)

Gulamo Khan

30.1.11

Laurentina xipamanensis ronga maxilar



Acontecem coisas indizíveis cada minuto.
Onde estava deus que não veio ver
o momento em que pariste o amanhecer
num riso enxuto?

E onde estava o dianho e onde estava S. João
O que é que a virgem estava a mirar?
Onde tinha o profeta a atenção
que não saiu antes a anunciar?

Raios parta a corte deste céu vão
anjos e tudo
Assim perderam a ocasião
de eternizar a emoção
do teu rir súbito e enxuto.

Grabato Dias

20.1.11

O medo e a esperança


Tranquilo e devagar entro na aldeia
de mão ao alto aberta em sinal de paz
Desertas e contudo palpitantes
se encontram ainda as palhotas

No único rosto presente é visível
o medo está atento procurando antecipar-se
nos meandros da incómoda adivinha

Falo e sorrio e entreteço pontes de caniço
e não sei estendê-las até à outra margem:
fechado e atento o rosto em frente do meu
entremeia um rio sem vau e sem barcos
de águas opacas e demasiado largo

Procuro na memória de distantes avós
autênticos e críveis sinais de paz
e ao fazê-lo acordo aves de lembranças
de ventres pejados de sangue e ódios
e apenas avivo o rosto em frente as cores do medo

Olho o meu braço estendido e nu
inofensivo e pronto à espera do acolhimento
e no rosto em frente projecta-se uma sombra
a dolorosa sombra-lembrança de um chicote
E o medo ganha relevo no rosto escuro
atento e vigilante à porta da palhota:

pergunto aos teus olhos e às tuas costas
à tua carne e ao abismo dos teus olhos
onde e quando brotou a fonte desse medo
— como se eu fosse o deus vivo do raio
e fizesse empalidecer o teu rosto cor de noite
a ti que nunca me viste e contudo és valente
e já viste de perto a fome de feras em liberdade

Quero perguntar de frente aos teus olhos
e a tua cabeça pende como um ramo
ameaçado de morte com o peso dos frutos
prestes a perderem-se inúteis em chão batido
Quero perguntar-te e não sei os gestos
nem as palavras mágicas ou compreensíveis
para conjurar a mancha de medo
que ensombra o teu rosto esculpido em negro

Não sei os gestos e as palavras mágicas
e todavia não desisto e procuro
certo de haver uma ponte praticável
entre os meus e os teus olhos erguidos.

Fernando Couto

7.1.11

Diante de Pushkin


Bom dia PUSHKIN
Diante de ti a palavra dorme
cálida

(1980/1986)

Gulamo Khan

2.1.11

Moçambicanto V


Com a enxada
eu bem cantava
que a força telúrica
movia o Hino
inventávamos nomes
o alfabeto
e da guerrilha
e da espingarda fulgia o verso
calibrada a fome
(Pátria era nascer)


Cresço áureo como o imbondeiro
áspero e sou terra
elanguescente corpo cativo húmus
de mim a monotonia do xitende
galga ilhas e espraia em raiva

Gulamo Khan

1.1.11

Moçambicanto IV



Chegamos com o sol


Gulamo Khan

29.12.10

Não posso dizer adeus

Ao poeta Armando Artur.

Todas as manhãs invento um novo motivo
para permanecer, enquanto lá fora
cruéis as aves me ensinam a partir.
Não posso dizer adeus. Aqui as noites
são menos gélidas, e as madrugadas, cálidas
embalam o meu medo de me aventurar.

Não posso dizer adeus. Nunca ninguém
me ensinou o seu real sentido, mas se este
é realmente o teu desejo, eu irei, sem no entanto,
provar a dor da despida, pois não posso dizer adeus.
O olhar, volvendo compungido, atrás,
meu porto de partida e chegada jaz, fulmina-se
também o calor da primeira habitação.

Em meu peito, tudo está gasto, menos o silencio.
Enfio a mão na algibeira do casaco, e já não
encontro tudo aquilo que outrora tínhamos
um para o outro.

Eusébio Sanjane