31.7.10

Inloucura

Mural on Old Theatre Building, Beira, Sofala, Mozambique Photographic Print


No principio
era o fim
uma última asa
pousa voo
sem viajem...

Tânia Tomé

30.7.10

Beijo negro


Beija-me profundamente com o teu gosto,
dá-me o teu gosto,
faz-me renascer,
para que no meu despertar sinta a fresca melodia dos pássaros
e a brisa me traga esse incenso
místico... terra...
que os rios e os mares quentes, me lavem a consciência
e me aqueçam a alma,
o meu dia seja uma caça felina... a minha presa... a vida...
o mergulhar no entardecer da esperança ardente,
e esses tambores ao anoitecer, me embalem em sons embriagantes,
o fogo dos corpos mais forte que as chamas das fogueiras,
os gestos dos corpos suados,
uma dança feiticeira de beijo negro,
a minha entrega inteira,
beija-me profundamente com esse gosto,
porque só tu me beijas assim.


Sónia Sultuane

28.7.10

IANQUES


DEPOIS DE HIROXIMA
DEPOIS DE VIETNAME
DEPOIS DE

Piores
Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava
Átila o bárbaro
Como adjectivado nos foi
Quando meninos coloniais
Nos ensinaram de Portugal
A História Universal

Não houvera ainda Hiroxima
Não houvera ainda Vietnames
Não houvera ainda

Foi depois oh foi depois
Muito depois que sangrou Hiroxima
Que sangraram Vietnames
E de Átila
O Mundo se recordou

Mas de Átila porquê

Atila não
Que muito piores que ele
Eles o foram

Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava

Oh sim
Muito muito piores os ianques
Que por onde passam
Chewingamizando-se endolarados

Cresce o capim
Onde havia trigo
Semeiam-se escravos
Onde nasciam homens
Colhem-se cinzas
Onde cresciam crianças

Oh sim
Bárbaros são eles
Os ianques

Atilas elevados
À potência imperial

Rui Nogar

20.7.10

Infelizmente jamais



No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.

Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.

Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.

Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.

Noémia de Sousa

19.7.10

Maternidade


Escuta, sorrindo,
a morte que bate
de leve em seu corpo
com ávidos, doces
punhos da infância;
com beijos que vão
enchendo seu rosto
de tempo e ternura;
e alimenta, secreta,
a chama tranquila
que em seu ser ilumina
o mistério da vida.

Vítor Matos e Sá

17.7.10

Pedaço de Areia


Neste exíguo
E labiríntico
Pedaço de areia
Degenero
Mundividências diversas
Que se entrecruzam
E se perdem
No nada.

Delmar Maia Gonçalves


14.7.10

poema para ti



Não me perguntes por que te amo
pergunta-me antes, por que não te amaria
e eu te responderei:
— Não te amaria, se não houvesse em ti
este sol por despertar, esta sede por matar,
e esta interminável doçura que te habita.

Eu já te amava e te adorava
antes mesmo da invenção da palavra.

Creio que não sabes,
mas tu és esta chama fria
esperando ser encarnada
na alma...És este sentir
que constrói mundos
e move corações...

Não me perguntes por que te amo
pergunta-me sim, o quanto te amo
e eu te responderei:
— Não existe palavra tão intensa
em que caibas completamente, pois tu és
este vazio ainda por preencher, o qual não se
basta nunca...

Sabes,
por vezes um simples olhar teu
desperta um lento fogo em mim
que sem demora enche-me de atrasos
e logo sei o quanto estás distante...
Mas não te preocupes
que em meu olhar
ainda reluzem as tuas pegadas
denunciando-te sob o horizonte...

Eusébio Sanjane

12.7.10

O nosso sonho, irmãos




O nosso sonho
cresce fértil nas vísceras da terra
e é nosso o suor que o alimenta.

Eusébio Sanjane

9.7.10

Amo-te Sempre


Amo-te sempre
com um pouco de barco e de vento
com uma humildade de mar à tua volta
dentro do meu corpo; com o desespero
de ser tempo;

com um pouco de sol e uma fonte
adormecida na ternura.

Merecer este minuto de palavras habitando
o que há sem fim no teu retrato;
Este mesmo minuto em que chegam e partem navios
- nesta mesma cidade deste
minuto, desta língua, deste
romance diário dos teus olhos -

(e chegarão com armas? refugiados? trigo?
partirão com noivas? missionários? guerras? discursos?)

Merecer a densa beleza do teu corpo
que tem água e ternura, células, penumbra,
que dormiu no berço, dormiu na memória,
que teve soluços, febre, e absurdos desejos
maiores que os braços,

merecer os dias subindo das florestas - e vêm
banhar-se, lentos, nos teus olhos...

Merecer a Igreja, o ajoelhar das palavras,
entre estes cinemas visitando, em duas horas, a alma,
estes eléctricos parando atrás do infinito
para subirem os namorados, a viúva, o cobrador da luz, a
costureira
entre estes homens que ganham dinheiro, sangue frio, ou vícios,
ou medalhas
e estes telefones roubando a lealdade dos olhos...

Teus cabelos cheirarão ainda a infância
e a vento, depois de passarem por esta fome pública,
estes olhos com regras de trânsito, estes dias sujos,
estes lábios que já não ensinam o pomar
ou a fonte, nem têm gosto de leite e de aurora,
depois destes olhos cheios da pergunta de estarem vivos
em vão?

Merecer honradamente este poema, todos os poemas,
como quem parte, entre os dedos a brancura
quente de um pão!

Vítor Matos e Sá

3.7.10

fomos denunciados


fomos denunciados
apanhados no escuro
por sabermos apenas
como se faz o esperma

mas onde a coragem
para mais geometria
que o triângulo das pernas
o mastro do navio?

a ti sei condenar
ó namorada mansa
minha toira-menina

eu preciso de ti
como de sal e livros
minha ave africana
ó mandrágora escura
eu decoro o teu corpo
de puta e sanguessuga

somos feras ou furúnculos?

só cordeiros nos olhos
devoramos os outros
trazemo-los na boca

eu e tu somos bichos
somos anjos de carne
corroídos pelo tempo
corroídos pelo vício
neste país de luto
nesta pátria de frio

Lourenço de Carvalho

2.7.10

Sacrário



Ausência do corpo.
Amor absoluto.

Hosanas de Sol.
De chuva.
De areia.
E andorinhas
resvalando as asas
no consternado ombro cinzento
de uma nuvem.

E uma hérbia mantilha
teu sacrário
velando.


Noémia de Sousa