29.6.10

Autobiografia


Estive convosco em muitas palavras.
Algumas levaram-me ainda mais perto.
Com outras fiquei apenas mais só.

De muitas não vi que rosto as guardava.
Por outras me dei a quem não pedia.
Onde foram mentira alguém me faltava.
Mas todas cumpri por quem me cumpria.

E passaram ardendo em novos combates,
cobriram silêncios, provaram mistérios,
fizeram amigos que nunca terei.

Por serem verdade me trazem aqui.
E quando as sonhais na vossa esperança,
Um irmão me procura por entre as cidades
com todos os rostos que perdi.

Vítor Matos e Sá

28.6.10




Eu e o Mosquito
trepamos as quatro paredes
do meu quarto,
olho no olho,
cada um se esmerando
para matar o outro.
Enclausurado o veneno
em cada uma das quatro patas
traçamos de combate, as estratégias
estudamos o currículo do inimigo,
pleno de condecorações,
súbito, o medo nos dilui e nos mata,
mas ainda trocamos o último olhar,
o olhar do nojo, de sabermos
que nós os dois, o Mosquito e eu,
somos os animais,
que mais matamos no mundo

Mbate Pedro in O Mel Amargo

26.6.10

Te Deum



Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.

Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.

Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.

Noémia de Sousa

25.6.10

Moçambique


Quando me sento descalça
sobre o sapato do menino pobre
que me enche o pé
muito mais que outro qualquer
me lembro que existir
não é sozinha
é com toda gente.
E me lembro
que tenho de embebedar-me de ti
Moçambique
Porque tenho saudades de mim

Tânia Tomé

22.6.10

Teias da Memória



Na baça melancolia do tecto
bilros de teia bordam solidão
enquanto meigos sussurros de sombra
no brilhante mutismo do espelho
recitam estrofes de poeira.


Noémia de Sousa

Meu Moçambique



Minha África suburbana.
Eu sei-me Moçambique,
cisterna no pecúlio dos deuses.
Um Zambeze inteiro escala a língua
escorre-me pelas pernas
ramifica nos canhoneiros,
laça os peixes inquietos nas sementes
engolfa-se nos mpipis bêbados nas timbilas.
Eu sei-me Moçambique,
no cume das árvores, na sede incontinente
da minha falange, do Rovuma ao Incomati,
no xigubo terrestre dos pés descalços
e em todos os tambores que surdem
das mãos coloridas nos braços em chaga.


Tânia Tomé

21.6.10

Perguntarei ao Cristo


Perguntarei ao Cristo
Se um dia puder
perguntarei ao “Cristo”
porque o pintam branco
Os homens do norte.
Perguntarei ao “Cristo”
porque será que
sendo judeu, o amam tanto,
odiando os outros judeus.
Perguntarei ao “Cristo”
porque odeiam tanto
O homem negro,
os homens do norte.
Se um dia puder
perguntarei ao “Cristo”
“quando virá”,
para conversarmos e depois lhe dar
as boas noites e dormir, que os homens do norte
Estão surdos.

Delmar Maia Gonçalves

20.6.10

A minha dor




Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.

E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.


Noémia de Sousa

13.6.10

Tão longe o esquecimento, tão perto a lembrança


Partiste e,
somente eu sei,
tudo que te dei
e tudo aquilo que não recebi.

Partiste e,
o que encontras nesses caminhos
feitos de espinhos onde te magoas?
Sangue, charcos, ou algas?
O que sentes, alegria, felicidade,
ou somente dor? Vá diga-me!

As noites aqui
são cada vez mais duras
mas não temas, esquiva-te das minhas lágrimas,
não te firas com a minha dor, que seria inútil.

Eusébio Sanjane

5.6.10

De antes que expirassem os moribundos


As balas doem companheiros

Não a dor física
Do chumbo percutido
Que o ódio calibrou
No almofadado sossego
Dum gabinete qualquer
Não
Não a presença agónica
Dessa infalível certeza
Que irredutível se insinua

Nas fracções de segundo
Que os séculos devoram

As balas doem sim
O tempo que nos faltou
Para salvar os companheiros
Nossos velhos companheiros
De novas humilhações
Novas rotas de cacau
Cacau oiro e marfim

Novos escravos a leiloar
Nos areópagos da hipocrisia
Novos deuses crucificados
Na subversão das micaias
Que a nossa África abortou

Oh as balas doem sim irmãos

As balas doem

Rui Nogar

2.6.10

Eu comedor de catedrais e mitos



eu comedor de catedrais e mitos
atravesso o deserto
com medos e verdades
sentinelas de carne a vigiar o dia

é a hora exacta
de apareceres no meu quadrante
influência súbita permanência e dia:
tu a fera o muro
o pássaro de plumas

serpente que se alimenta de mim
surges e devoras este corpo de fogo
reminiscência frágil de veneno e crime
ou fénix apenas renascida

em qualquer caso surges
exterminas ainda
a eventual sobriedade que denuncio

fidelidade não

não era permitido ver o sol
porque chovia

Lourenço de Carvalho

(A) Mar(te)




Estou tua
pelo sol
ardendo-me
as montanhas descobertas
Agua dentro
Agua azul
neste ponto de luz
Ardendo em rio
chamado amor


Tânia Tomé