30.5.10

Para os Amigos


De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.

Vítor Matos e Sá

29.5.10

INSPIRaiz

No uivar da noite
o medo,
a incasavel amargura da noite,
no gelo
os sangues inevitaveis da
impoética objetividade

Tânia Tomé




Por uma sereia de treva


sem segredos melhor que nós
ninguém sabe a morte a dois
e como heróis subterrâneos que somos
procuramos a vida por entre as trevas
navegamos algas ao amanhecer
para encontrar um irmão pelas mãos

empresta-me a tua máscara quero saborear
esta melodia ter nos olhos a cor
e antes que o dilúvio se propague
nademos nas profundezas do asco
talvez surja uma sereia de treva
onde possamos pousar o coração
que em fragmentos se dissolve no iodo
da atmosfera que transportamos às costas

sem segredo melhor que nós
ninguém por entre a fresta da porta
da noite apalpa este enigma:
prestar contas ao silêncio dos olhos
e conter a náusea por um instante
ultrapassando o passado hóspede da masmorra
da presente folia ardente transeunte

Francisco Xavier Guita Jr

Menino de bairro de zinco



Menino de bairro de zinco
Amigo da aldeia de palha
Sobe o cajueiro menino
Que a tua mãe não ralha
Menino de bairro de zinco

Com bolas de trapo e cordel
Carrinhos de arame e cana
Baloiços na mangeira
E as construções de lama
Menino de bairro de zinco

Menino filho da guerra
Nos jardins de canaviais
Corre, corre menino
Que o mato nunca é demais
Menino de bairro de zinco

Trazes um sorriso de Havana
E os olhos negros de Bombaim
Um poema de Lisboa
O meu Ìndico é assim

De dia o sol te transpira
À noite a lua te bronzeia
Corre corre menino
Que na aldeia já há fogueira
Menino de bairro de zinco

Há fogueira e batucada
P'ra teu corpo temperar
Depois, adormeces na esteira
Até amanhã o sol raiar
Menino de bairro de zinco

Gonzaga Coutinho

28.5.10

Monomocaia!


Quem foi que na noite longa
pôs a longa voz do vento
uivando por sobre o mato?
Quem foi que nas águas mansas
da baía de aguarela
pôs raivas, gritos e espuma?
Quem foi que nos leques doces
das recortadas palmeiras
pôs bailados de loucura?
Quem foi que nos olhos grandes
dos negrinhos cor da noite
vazou mundos de terror?
Quem foi que nos vidros frágeis
das janelas sem mistério
pôs o mistério da morte?
Quem foi que rasgou a noite
num grito feito de gritos
e apagou no traçado
dos carreiros que há na selva,
a marca humilde dos pés
dos negros que os palmilhavam?
Vem!
Horrendamente enorme,
grotesco e brutal,
informe,
vem!
Vem vestido da noite, cor de breu,
galgando sobre a terra e pelo céu.
Vem galopando e uiva e rodopia
e ri às gargalhadas, assobia,
enterra os dedos bruscos, sensuais,
na grenha esfarrapada das palmeiras.
Senhor e rei dos loucos vendavais,
a si próprio se morde, em seu açoite,
rasgando-se aos pedaços, numa orgia,
bailando entre os rochedos cor da noite.

E enquanto vem e sopra e uiva e canta,
dizem os negros, tontos de pavor,
que é o Demónio, fero, alucinado,
em busca de qualquer estranha donzela
que viu na praia, nua, à luz da lua,
e no peito lhe pôs confuso o amor.

Dizem os negros que é Satão,
irado, gritando pelas ruas, a espumar,
espreitando pelas portas, à janela,
mordendo a terra e revolvendo o mar,
buscando em desespero a virgem nua
que viu na praia, num batuque à lua.

Passa no seu corcel da cor da morte
levando de vencida o sonho, a esperança,
a súplica, a pureza, a oração,
passa ébrio de sangue e corre, avança,
fantástico, sem bússola, sem norte.
Crescem as ondas a golfarem espuma
e o mar rasteja, a arrebatar os barcos
- enquanto pelas ruas, uma a uma,
galopa, rola, salta e assobia,
revoltos os cabelos na loucura,
torvo o olhar, na boca a baba fria,
cheirando a mato, a feras e a praia,
a gargalhar num eco que perdura,
Satã envolto na Monomocaia!

Guilherme de Melo

27.5.10

Doble Trouble


Quis vestir esta lua,
Meu fato mais bonito,
Engomado e arejado,
Flor vermelha na lapela,
Guitarra acesa na mão,
Minha arma de trova.

Quis brindar as estrelas,
Fazer oferendas á lua,
Dançar uma valsa,
Beber teus pomos,
Enxugar minha jornada,
Arrasar a praça,
Teu abraço me vestindo.

Quis minha parra de barro,
Quebrá-la e branquear minha alma,
Lavá-la na enxurrada de beijos,
Saltar, e, atirar para ontem,
Rosas ressequidas de espera,
Lançar sementes estrelas.

Quis tantas, tantas vezes
Fazer poema fresco,
Dizer às gaivotas e ao vento
Que em suas asas levassem,
Notícias flores ao mundo,

Mas,

Minha alma parra,
Nação sabe ainda
A cor de tua alegria...

Mutxhini Ngwenya

24.5.10

A uma Virgem


(Improviso)

Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingénua e casta deudade!
Minha terna inspiração!
Condoi-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!

Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...

Campos Oliveira

21.5.10

Nogat


Nessa noite quente suada de sabor a África,
corri-te docemente, encontrei em ti o gosto de amendoim,
adocicado em açúcar,
«Nogat»
o sabor de criança inocente à porta da escola,
lembras-te?
deixavas-me trincar o teu doce,
e a cada mordidela
sentia os teus lábios de mansinho,
como podia esquecer-me desse sabor,
a torrado, de cor de canela,
cor desses teus lábios adocicados,
onde hoje trinco e mordo
à procura desse néctar
com o mesmo gosto a «Nogat»
da nossa adolescência!

Sónia Sultuane

19.5.10

Corpo presente


Mais me pesa a terra sobre os olhos
e no lugar do coração. Não era
enfim tão rápido quanto crera.
Não fora esse indício e juraria a ausência
total de sensações. Pesa-me, porém
sobre a cegueira dos olhos e o vago
atroz do coração. Atroz não
porque me doa ou amargure,
mas porque esse ruído débil,
sempre inaudível, companheiro
da primeira à derradeira hora,
súbito cessou,
substituindo-o o horror de insuspeitado
e impenetrável silêncio. Depressa
me habituarei. A insensibilidade
da mão esquerda, sê-lo-á? Ou
será da terra? A terra…
O corpo soma-se-me em terra.
De tosca e anómala não chega
a ser obscena na terra a nudez
final. Aqui neste lugar
não há lembranças da vida. Mais
depressa ainda a vida se esquecerá
de mim e deste escuro mas promissor
tirocínio a uma futura arqueologia.

Rui Knopfli

10.5.10

Passanoute



Cacilda espevita o fogo mortiço. Inquietas,
insidiosas, chegam as vozes da noite.
Do fundo da mata vêm mal distintas
crepitações, ruídos, quiçá mesmo gemidos.
Arrasta-se o rumor arrepiante, calafrio

da sombra reverberando noutras sombras.
Negras, esvoaçam asas sem ave, ou
será apenas a noite e só a noite?
Xipocué e shiguêvengo acordam
no cerne das árvores, para agitar

mortos e mortificar vivos. Lumes
sem chama, vozes sem fala assombram
de susto e medos inomináveis
quem arrosta afrontar seu território,
zona interdita, chão demarcado

que poucos ousam pisar e percorrem,
sopro maléfico, a densa escuridão. Vamos,
levanta faúlhas e labaredas, incendeia
de luz a noite cerrada, esconjura
para bem longe essa asa funesta.


Rui Knopfli

7.5.10

A liturgia dos insanos


1. Por aqui somos de carne e sal,
ou mesmo, de sol nascente,
longe do estéril turbilhão da rua.

2.As palavras que nos revelam,
são de luz pura e de encantamento,
e mais ainda, o delírio incessante
que nos confessa o tépido bafejo da aurora.

Eusébio Sanjane

6.5.10

Poema Vivo


Queda-se o corpo neste poema
Uma entrega, entrega-se toda
com um desígnio imenso da semente no núcleo da flor
despindo os versos um a um no centro deste poema

E onde o som nasce, cresce uma palavra devorando lentamente
as metáforas num gesto iniciado de luz e vida
Existe um tortuoso labirinto por entre as sílabas cheio de lustre
por onde brotam os rios e os lábios no mesmo momento de partida

Mas ama-las bem depressa, bem devagarinho deve ser o caminho
E a pontuação se eleva na subtileza dos versos,
da métrica, da rima no âmago do silêncio
E há um desejo insano de desfigurar a branca página,
Com cor do olhar que percorre intenso para o outro lado do espelho
onde o mundo acontece sua estrela bailante

E dentro das palavras há melodia,
dependurando-se sobre as arestas do verso
e dançando os murmúrios constantes do voo das aves

E o poema ganha rosto:
uma arvore cheia de cabelos ao vento como teias da aranha,
onde nos pés das raízes habitam os sarcófagos diversos no húmus da loucura
E onde as mãos de asas são janelas,
por onde as pupilas escancaram o mundo entre os dedos.


Tânia Tomé