28.4.10

Canela e gengibre

Has-de sentir-me assim
canela e gengibre
no mesmo copo
que te embebeda..

Tânia Tomé



20.4.10

A morte do vale dos perdidos


Na “falecida” taberna
Do Sô Zé
Frequentavam
Bêbados inseguros,
Casados infelizes,
Fumadores inveterados,
Profissionais frustrados,
Prostitutas sedentas de euros,
Solteiros sem auto-estima,
E um cão vadio e solitário.
Lá dentro,
Sentia-se
Um cheiro fedorento
E uma atmosfera única
Qual Vale
Dos Perdidos.
Foi decretada
A sua “Morte”
E eu assisti
Ao seu cortejo fúnebre.

Delmar Maia Gonçalves

12.4.10

Mania do Suicídio

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.


Rui Knopfli

8.4.10

A brisa virou nuvem, e parou



Flores,
gemem anémicas em vasos pintados.

Canários
cada vez mais amarelos
cantam sem convicções músicas surrealistas.

Os relógios das Catedrais
(e mesmo os outros também)
continuam batendo 12 badaladas para a meia-noite.

Tudo parece imóvel,
contra a vontade de Heráclito.

(Só de Heráclito?)

Os peixes
nos Aquários,
estão bêbados de tanto rodar.

Mas será mesmo,
e para sempre,
que todos os caminhos vão dar a Roma?

Ruy Guerra

3.4.10

Pensameus II


O poder
do agora,
aqui :
vim
estou
aqui
sou
completamente
verso
e
silaba
para um poema urgente


Tânia Tomé

índicos caminhos


Quero me afogar por estes caminhos em que morrem as flores de cada luar.

Quero recriar as raízes de cada noite e entender como morre o sol na boca dos peixes...

Deixa-me entender os segredos que suavemente o vento revela aos pinheiros,

Provar da curiosidade da terra que despe as rosas dos seus vestidos vermelhos, ou mesmo das suas folhas que pairam no ar como verdes aves de esperança.

(Digam-me quem amputou o sexo das rochas, que já não gemem, quando as cálidas mãos da tarde as afagam.)
Quem silenciou o cantar dos búzios,
que embalavam as revoltas ondas do mar?


Eusébio Sanjane

2.4.10

Africana


Dizes que me querias sentir africana,
dizes e pensas que não o sou,
só porque não uso capulana,
porque não falo changana.
porque não usi missiri nem missangas,
deixa-me rir...
mas quem é que te disse?!
Só porque ando de «Levis, Gucci ou Diesel«,
não o sou... será?
Será que o meu sentir passa pela indumentária?
Ou que o serei
pelo sangue que me corre nas veias,
negro, árabe, indiano,
essa mistura exótica,
que me faz filha de um continmente em tantos
onde todos se misturam,
e que me trazem esta profundidade,
mais forte que a indumentária ou a fala,
e sabes porquê?
Porque visto, falo, respiro, sinto e cheiro a África,
afinal o que é que tu saberás? O que é que tu sabes?
Deixa-me rir...
deixa-me rir...

Sónia Sultuane