31.3.10

Deixem-me viver no meu mundo


Já tão cansada desta vida pergunto-me como será a outra?
mais tranquila, mais segura?
dormente a minha parece estar,
olho a volta onde estou?
que mundo será este?
se não tivesse vivido o que vivi e o que sofri,
quem seria eu?
onde iria buscar toda esta vontade de correr,
os meus dedos que querem escrever, e tanto,
sou louca ou infantil?
ou por momentos deixo correr o meu pensamento,
e mostro ao mundo, o que me consome aos poucos,
a muitos aflige aos que dizem ser eu criança, insegura, imatura!
o que tanto escrevo?
deprimo-me,
deixem-me ...
deixem-me viver no meu mundo,
tornar falas todas as palavras ,
deixem-me no meu mundo doce e infantil, mas meu.

Sónia Sultuane

Poeta da noite

Poeta da noite
Quando a semente brota na lua
Intelectualidade na boca do beijo
E sémen no “livre arbítrio” da democracia....

Tânia Tomé



Os teus olhos infinitos


Hoje roubei todas as estrelas do céu
e quando pensei em colá-las nos teus olhos
faltava-me ainda o universo todo...

Eusébio Sanjane


29.3.10

Quando eu morrer


Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.

Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.

E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.

Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.

Eduardo White

28.3.10

Esta noite


Esta noite dormi perdida, entregue nos teus braços,
saciada e exausta,
deitei-me de ventre para baixo, nua,
deitada por cima de ti,
embriagada pelo teu cheiro, o calor do teu corpo,
as tuas entranhas, o teu abdómen,
as tuas mãos, nas minhas costas,
o teu abraço guardando-me profundamente,
para que não fugisse,
para que não quebrasse o nosso laço de cumplicidade,
adormecido estavas entregue a mim,
longe de tudo e de todos,
queria chamar-te para que me possuísses novamente,
mas o teu sono era tão profundo,
em paz, que fiquei ali,
somente a contemplar-te como podias ser meu,
sem estares ali, mas mesmo assim,
fazendo parte deste meu sonho desperto.

Sónia Sultuane

Não há lua no céu



1.Letárgico o rio deflui
silencioso dentro de uma noite afável,
E vagando pelo cosmo
vai tecendo estrelas-marinhas
pelas dóceis nuvens, que são também
de agua imaculada, e resguardam as profunduras
da tranquilidade, que somente os anjos desfrutam.

2.Pela janela quebrada
do meu quarto, vislumbro
o plenilúnio romper, e quedar
ensombrando a monocromática paisagem
de arvoredos tímidos, e de cores fugidas.

3.Nas calçadas frias, os dedos pedintes
dos meninos reluzem, trepidantes
remendam sonhos havidos, de um áureo
alvorecer.

Eusébio Sanjane

Da fruição do silêncio



Tratávamos o silêncio por tu
Dormíamos na mesma cela
Acordávamos do mesmo sono

Cada sílaba audível
Completamente nua
Feria dum segundo sénticfe.
O palato hipertenso
Da fria cela dezanove

Farrapos de ambiguidade
Pendiam pelas arestas
Das mais afoitas vogais

Ninguém pressentia
No gume acerado
Da quase indiferença
Que o silêncio aparentava
O perfeito sincronismo
Das sílabas dispersas
Pêlos tímpanos de cada um

Nada sabíamos de nós próprios
Além da angústia lacerante

Coagulando-nos um a um
Nos limites da expectativa

E no écran memorial
Milhões de imagens se degladiando

Era o silêncio devorando o silêncio
Era o silêncio copulando o silêncio
Era o silêncio assassinando o silêncio
Era o silêncio ressuscitando o silêncio

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio colonial
Fuzilando-nos um a um
Contra as paredes da solidão

Oh o silêncio o silêncio
Maldito silêncio imperial
Sepultando-nos um a um
Sob os escombros de Portugal

Rui Nogar

Um poema anti-lírico




Olga:

Hoje
não há mais poesia em mim.

O sol,
o céu de nuvens claras,
mantêm juntos promessas falseadas.
Um avião sem raça
caiu longe,
onde florestas riem das debulhadoras,
dos "buldozers"
e o arado é palavra sem sentido.

Os trinta e tantos passageiros
já não são.

E aqui perto
— tu sabes —
aquele nosso colega
ficou sob as rodas dum machimbombo,
colorido de reclames.
Ah! Olga,
porque,
em face disto tudo
esta vontade constante de gritar
pêlos vivos?

Ah! Hoje,
não há mais poesia
em mim,
nem na natureza colorida.
Não pela queda
do avião
ou do homem solitário.

Na Coreia,
os milhares não são mais números,
mas cadáveres,
marcados por bombas,
baionetas,
granadas
e não sei mais quê.

Multidões,
digladiam-se,
algures,
de petróleo nas veias.

E lá,
onde homens abriram a braço um canal,
estudantes trocaram os livros
por pedras
e viram personagens bíblicas
frente ao pecador.

Ah! Olga
hoje não há mais poesia em mim,
que te vou deixar.

Mas os caminhos
de todos os cantos,
chamam-me.
Como ficar parado
junto a ti,
Olga,
sabendo que mais além
a nossa paz
é comprada,
com sangue que não é nosso?

Hoje, Olga,
não há mais poesia em mim,
porque te quero
e não te posso ter.

Hoje
não há mais poesia,
mas esta certeza
da necessidade de lutar
junto aos que lutam...

Ruy Guerra

27.3.10

Mapa-Sexo


Nossos corpos desenharam nos lençóis
o mapa de um país imaginário
– e neles abrimos rios,
descobrimos oceanos,
erguemos, entre gritos e gemidos,
cumes de montanhas,
desbravámos florestas,
neles nos perdemos
e, depois, nos encontrámos,
deixámo-nos cair,
exaustos,
em abismos,
morremos
e ressuscitámos.


Nuno Bermudes

26.3.10

De súbito



De súbito,
a tristeza nasce no teu rosto,
suave, densa e silenciosa
– céu da África ainda sem noite nem dia

A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite.

Fernando Couto

21.3.10

Ilha de Moçambique


(Coro da tripulação da Escuna)


A treze de Outubro
do meio do mar
uma nova terra
redonda e suave

surgida da funda
densa claridade
ali está pousada
na onda que há-de

puxar nosso barco
à areia tão clara.

É uma ilha toda
com fecho de prata
- sua fortaleza
muito bem lavrada

em pálidas pedras
que se transportaram.

E palmares e casas
ao pé de outros bairros
descidos na terra
que se amolda e talha

para gente negra
tão esbelta e tão grave.

(As mulheres compõem
por sobre a paisagem
um estranho contorno
de tonalidade).

E tudo parece
estar há muito exacto
para este momento
que vamos marcar

nas ramadas firmes
nas nuvens mais altas
no tempo que fica
por onde passámos.


Glória de Sant'Anna

17.3.10

O teu riso


Antes a morte,
que perder o instante em que sorris.

Não me negues
o milagre que inventas,
a rosa que de súbito
brota da tua alegria.

Regresso por vezes com as mãos
vazias, o corpo dormente,
o sol já não morre, o mar
já não preenche infinitos caminhos,
mas logo tu sorris,
e tudo regressa a sua mansa ordem,
o mar que secara,
ressurge dos teus lábios,
o tempo que me atravessava como
um espada afiada, é agora
o meu único refugio.

O teu riso, meu pão,
sustenta os caminhos há muito estancados
que me guiavam ao teu colo... Escuta,
o rio, as algas, o vento,
que eu escutei um murmúrio
e entendi o teu riso,
essa porta que para mim
se abre.


Eusébio Sanjane

14.3.10

Ilhas

ao Rui Knopfli


sensível
por vezes áspero

a poesia como bordão
e arma
e flauta


a Ilha de Próspero
o teu retrato



Glória de Sant'Anna

11.3.10

Pensameus



Eu existo-me
onde me existem os dedos
inteiros voadores todos na minha mão,
coexistindo comigo e com a vida lá fora
mais infinita que o inesgotável
Eu existo-me
quando os meus dígitos
escrevem-me tempo a tempo
dentro dos meus versos
as asas que existem
todo o meu canto.
Eu existo-me
dentro deste ruído sonoro
atravessando urgente
todo meu pensamento.

Tânia Tomé

4.3.10

A-mar-me-te



Abril esconde-nos
nas sinuosas curvas
das palavras
E uma falésia desabrocha
na embriagues do meu canto
E turva-se uma linha
no instante
em que estamos
Dentro
um do outro
para sempre


Tânia Tomé

1.3.10

Sem depois

Old-Fashioned Fountain Pen Lying on Love Letter Photographic Print

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só meus olhos
se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.


Mia Couto

Somos um número


Em visita
Sepulcral
Aos entes humanos
Descobri a aberração
Das modernas sociedades
Desumanizantes e civilizadas
Em que vivemos!
Quando morremos
Somos reduzidos a um número.
Perdemos o nome
E a dignidade.
Está tudo planeado!
Até temos com
Quem partilhar a cova…
Uma espécie de vala comum!!!
Afinal, estamos mortos não é?
E não valemos nada
Nem sequer um nome.
Somos apenas mais um número
Que não somos
Nem fomos!

Delmar Maia Gonçalves