28.2.10

Sonhalto



Procuro-me
no teu sonho
No mais recôndito
de ti
Para encontrar
a asa
Que me alevanta

Tânia Tomé

E Eu sou Eu



Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu.

Delmar Maia Gonçalves

27.2.10

O nome do teu ombro


(Dedico este poema a uma mulher especial que sabe perfeitamente que Kama-sutra é muito mais do que umas tantas posições para o ano todo e uma nova marca de preservativos.)

De repente
uma fenda se ajoelha no gemido da rocha

Entre a seda dos nossos templos de medo
dos nossos juramentos
ao peso do carimbo vergados
esta carícia dos caracóis
atravessando o porto das manhãs

Estremeço

Nos idílios da Catembe
somente uma tabuleta com letras de cacimba
na doca
incrustado num gomo de lua
o nome do teu ombro

Abrigas-me do granizo
da fome
da sede que tenho das tuas lianas

Aprendo a tecer a minha sombra
no ciúme da brisa
as velas excitadas pela nortada
a ansiedade índia das âncoras
os mamilos da tua timbila bem chope

E no aroma do teu silêncio, amor
uma pauta
uma escrita na língua das flores
ou um velho cântico de pingos tamborilando
tamborilando
tamborilando os seus dedos
no secreto telhado dos nossos desejos.

Daniel da Costa



26.2.10

A universalidade do crente


Sou Cristão
Vou a Roma ou a Belém
Vou à Igreja
Ajoelho-me e oro
Leio a Bíblia Sagrada
Invoco Jesus Cristo
Rezo a Deus
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Muçulmano
Vou à Meca ou Medina
Vou à Mesquita
Leio o Alcorão
Oro
Invoco Muahmmad
Rezo a Allah
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Judeu
Vou à Telavive ou Jerusalém
Vou à Sinagoga
Leio o Torá
Oro
Faço a Tahanum
Invoco David e Salomão
Rezo a Adona
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou Hindu
Vou à Benares ou ao Ganges
Vou ao Templo
Leio o Gita
Medito e oro
Purifico-me
Invoco Krishna
Rezo a Om e Brahma
Cumpro o meu dever
Retorno.

Sou homem global
Crente de deus
E estou
Em sua busca.

Delmar Maia Gonçalves

Indiferença

Tu desconheces ignoras este atrás tormento
que dilacera-me a alma e, n'ela só, escondido
vive, como um segredo no corpo lento
escrinal de uma altar Sagrado e enobrecido!

Ignoras, sim, a minha dor, o sofrimento
que me devasta, o amor que traz, bela, ai, rendido
meu coração aos teus pés, virgem, sem alento
de uma esperança, sem, sequer, p'ra mim perdido,

volver o teu olhar de esmola e compaixão!...
Irás assim seguindo teu caminho em rezas...
pisando alcatifas douradas, em seu chão...

'stendidas «sem pensar que existe...» e és causadora
d'este amor. Talvez diga ao ler estas dorosas
endeixas: - «Quem será a mulher que o doido adora?»

Augusto Conrado



Amar


Amar é um prazer, se nós amamos
Alguém que pode amar-nos e nos ama.
Amar é um prazer, se por nós chama
Continuamente alguém que nós chamamos.

Então a vida inteira a rir levamos,
O mesmo fogo ardente nos inflama,
E os ideais da vida, o bem, a fama,
Mãos dadas pelo mundo procuramos.

No encapeladp mar desta existência,
O amor é compassiva indulgência
A culpa original dos nosso pais.

Que resta ao homem, suprimido o amor?
Buscar a morte p'ra fugir a dor,
Tristeza, indiferença - e nada mais.

Rui de Noronha

25.2.10

Saudade



Acordei no desespero de te ter
te embalar no compasso do vento
como se fosses um menino
que adormece descalço para renascer
no utópico que existe
quando amar é possivel
Acordei de estômago vazio
esperando que do meu estado mórfico
resulte a sede que me vai nos ossos


Tânia Tomé

11.2.10

Minarete de medos

Aos poetas Celso Manguana e Zezuato

Assomei-me do seu delicado corpo,
como quem de madrugada
abeira-se da casa da vizinha.
-Dá licença! Dá licença!- Sussurei num dos seus ouvidos,
mordiscando a ténue cartilagem.
Ela fez um Minkulungwana e embrenhou-se no meu corpo.
Eu chorava, copiosamente.
Olhou fixamente para mim e perguntou-me:
- Por que chorais, meu Poeta? Quais são os teus medos?
- Zelendisse, os meus medos são os teus medos.
Respondi, pressuroso.
- A geografia dos meus medos é limitada (em toda sua extensão)
pela angústia do meu povo- Acrescentei.
Tenho medo, por exemplo, que amanhã eu desperte
com os dedos das mãos amputados,
sem que antes, escreva-te um último poema.
Tenho medo ainda,
que o cirurgião suture a minha boca
nas vésperas do nosso matrimónio.
Tenho medo que um desses dias,
abra a necrologia do jornal e veja
todos os meus leitores mortos,
ou os meus poetas predilectos amortalhados
numa vala comum abarrotada de incultos.
Que os meus poemas sejam roubados e vendidos
à bagatela na candonga dos dumbas,
também tenho medo.
Tenho medo que de madrugada coloquem joelhos
na minha inexorável consciência
para me arrastarem aos seus pés,
assim como também tenho medo
que coloquem sovacos nos meus neurónios
para os distrairem, em cócegas.
Na excitação das noites tenho medo
de dizer adeus quando vejo-te partir
para o regaço das minhas imponderáveis coxas.
No rumor do escuro tenho medo
que eu descubra, ao despires,
que afinal és um poema por acabar.
Também tenho medo que os nossos filhos
nasçam com rabo de poeta, ou que
um paiol de palavras rebente dentro da minha poesia.
Tenho medo que no próximo censo
registem-me como um refugiado
acampado no arraial da palavra.
Uma bela manhã do primeiro dia do mês de Abril,
tenho medo que me digam, muito sinceramente,
que Malhazine nunca existiu.
À montante do sangue que corre
nas veias do meu povo,
tenho medo que edifiquem uma Mphanda Nkuwa,
ou que floresçam nenúfares
no pântano das minhas lágrimas.
Ou então, que uma nuvem vermelha
vomite perdigotos de sangue
no meu belo rosto.
Tenho medo que hoje, os meus
efémeros adversários na linha de combate,
sejam surdos.
Como também tenho medo,
que na sua prosápia ditatorial,
impeçam-me de ter medo deles.
Também tenho medo que a Kalash a chorar
revele os nomes dos meus assassinos.
Tenho medo que uma bela tarde de domingo,
quem te venha anunciar a minha morte,
seja o meu companheiro de luta
a quem mutilaram as suas cordas vocais.
Tenho medo que de tanto passar o tempo,
a desbravar a terra sedenta do teu corpo,
não me reste um bocadinho de tempo para morrer.
Assim como tenho medo que fogueem
as minhas glândulas lacrimais,
para que não possa chorar
o inventário de angústias do Sangare.
Tenho medo enfim, que antes que me dêem
o definitivo tiro nas têmporas,
me ensurdeçam e em seguida vociferem,
no meu ouvido esquerdo, as últimas palavras:
Mbate, morremos de medo de ti!
Por fim, ela desembrenhou-se e beijou-me
o coração das coxas. Em seguida, despiu-se
e no meu ouvido esquerdo, disse sem voz:
- Não tenhas medo, meu amor!
Os teus medos, são os meu medos.

Mbate Pedro

1.2.10

Viagem



O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na fundo transparência
sinto a vertigem
da minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos


Mia Couto