31.1.10

Teu corpo


Teu corpo
é como um
rio sem margens!
Por isso
o percorrerei
sem tréguas
infinitamente!
E então,
seremos um!


Delmar Maia Gonçalves

no cu dos tiranos enfatados



uns coleccionam
dívidas mágoas ressacas
pernas estropiadas jardins
de osso nas frontes
dores de cotovelo às carradas
armários com dores implumes
toneladas de livros medíocres
ciúmes de uma vírgula ou até
a náusea do vómito

outros coleccionam
meia dúzia de garinas
crisântemos margaridas toupeiras
no ânus baboseiras merdas
medos porradas traições
agressões o sexo a despropósito álgida
a noite de um putedo sem chama

há os que coleccionam a madrugada
entre as pernas arqueadas abrigos
no chão da memória esconderijos
ao relento da alma a ausência
de um beijo melancolias estilhaços
e há também quem coleccione disfarces
no torpor da mentira

amada
quem colecciona o pudor do nu
no cu dos tiranos enfatados?

Mbate Pedro

Onde estou


Porquê
pois
procurar-me na Glória de Beethoven

se estou aqui

erguendo-me
nos milhões de ais
que se elevam dos porões
em todos os cais

se estou aqui
bem vivo
na vos de Robeson e Hughes
Cásaire e Guillén
Godido e Black Boy renascidos

nas entranhas da terra
transformando com meu corpo
os alicerces da vida

se estou aqui

soma consciente e firme
dos homens
que compuseram o poema

da vida contra a morte

do fim da noite
e do começo do dia.


Kalungano

26.1.10

Batuque



A negra salta e não cansa.

Entre o denso mar pálido
e a clara poeira,
a corda balança.

A negra se ergue e sorri.

Entre o leve céu pálido
e as dolentes árvores
e o tambor que vibra.

A negra se ergue e é esguia.

Dentro do batuque
e da ritmada corda
e do morto dia.

Não há segredo na boca tranquila da negra,
nem antigas e vãs perguntas que se percam,
nem místicas dúvidas ou esquecidos gestos.

Ela se ergue como uma lança,
e entre o céu e a poeira
simplesmente
dança.


Glória de Sant`Anna

15.1.10

Motivo

Tudo o que vês
não é nada:
ou uma nuvem
ou uma palavra.

Tudo o que ouves
nada mais é:
o vento é lesto
e corre breve.

O que não vês
nem sabes mesmo
é que importava
se houvesse tempo.


Glória de Sant'Anna

14.1.10

Terra-Mãe



Ai
mãe negra chorando

ai
doce terra gemendo

nas capulanas de areia fina
embrulhando teus filhos

há flores de sangue
girassóis de dor
e amor exangue
- Ó voz intranquila e singular

Meus filhos todos partiram

Um levado no fundo dos barcos
por outros oecanos
a mundos distantes

Outro
ficou sob o solo queimado
das terras estendidas
p'ra além do nosso sul

Um terceiro
aqui perdeu a chama viva
aberta em fruto
nos nossos olhos
.........................
- Ó terra dolorosa
que os filhos perdes

ó mãe imensa
que as lágrimas lavam
como os rios sempre loucos.


Kalungano

13.1.10

Apropriação / Expropriação


Sei que são meus senhores. É quanto basta
para saber-me escravo e infeliz.
E ainda que os soubera forcejando
unicamente por interesse meu
e por meu bem, sem causas de malícia,
Eu lhes negara o gosto de o fazer
e o direito de impor-me o que men sei
se desejo. E ainda que inocentes
do propósito cru de magoar-me
Eu os negara porque são senhores.

Grabato Dias

11.1.10

O Mundo parou


(Fragmento)*

.............
.............
Agora parece que já tudo passou.
Mas imaginei-te de novo entre nós, Pai,
e a lágrimas tomam-me os olhos


Nota: A palavra «Fragmento» é da responsbilidade do poeta.