29.12.10

Não posso dizer adeus

Ao poeta Armando Artur.

Todas as manhãs invento um novo motivo
para permanecer, enquanto lá fora
cruéis as aves me ensinam a partir.
Não posso dizer adeus. Aqui as noites
são menos gélidas, e as madrugadas, cálidas
embalam o meu medo de me aventurar.

Não posso dizer adeus. Nunca ninguém
me ensinou o seu real sentido, mas se este
é realmente o teu desejo, eu irei, sem no entanto,
provar a dor da despida, pois não posso dizer adeus.
O olhar, volvendo compungido, atrás,
meu porto de partida e chegada jaz, fulmina-se
também o calor da primeira habitação.

Em meu peito, tudo está gasto, menos o silencio.
Enfio a mão na algibeira do casaco, e já não
encontro tudo aquilo que outrora tínhamos
um para o outro.

Eusébio Sanjane

18.12.10

Sonho

Eu tenho um sonho,
e dentro dele milhares
de sonhos possiveis...
em que acredito,
quase sempre
na plenitude
como na forma
em que respiro.

Tânia Tomé



10.12.10

Tronco de palmeira


Tronco de palmeira,
ó frágil e comovente negação
do deserto em volta.

Aprumado grito,
apesar da fúria dos ventos,
alto e límpido,
apesar da solidão.

A copa se rasga em desespero
em suas folhas palpitando
aos mais delido bafo de brisa
no seu reflexo do sol e do luar.
Por isso te chamo,
enternecido,
minha palmeira dp deserto
e banho num olhar de nostalgia
a tua desesperada floração.


Fernando Couto

23.11.10

Moçambicanto III


Vem da polpa dos teus lábios
o sussurro amargo da lua cheia
sura doce em noite de cio
embebedados
Sei do corpo e do matope
a geografia da tua idade

Sei-te vegetal e fria
na geografia do canto

Gulamo Khan


22.11.10

Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te


Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te
sem R, sem risco ao meio da morte.
Quero-te assim, querente, quente e forte
ode que a circunstância obriga a mote.

Quatorze versos no papel e dou-te
exangue e medido ramo. O corte
já deixou de sangrar. Pinhos do norte!
Que ricas tábuas de caixão, pra bote!

No mundo em pedaços repartida
ficou-me a mim e ao luis vaz a vida,
galinha gorda rebolante ao espeto.

Me, mi, Mimi, migo... Ó amiga, as migas
ainda são um bom prato, e até com ligas
de duquesa se faz tanto soneto.

Grabato Dias

21.11.10

A lua



A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite.


Fernando Couto

Laurentina desagravada



Termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz turbada,
já de si mesmo etc. … bom!

estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.

O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.

e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado

Grabato Dias

Xitimela

para Alexandre Langa

neste xitimela nosso comboio da vida
que nos faz meninos de ontem
pensar hoje vamos não só à Manhiça
mais longe vamos meu amigo
espera ver no diesel do teu peito
a força motriz que sopra
as mais belas ngomas deste moçambicano
e diz ao povo como sabes
que xitimela da vida é da gente
e faz poh poh poh num apeadeiro livre.

Gulamo Khan

Moçambicanto II



Havia a árvore
um embondeiro
uma azagaia enferrujando na terra
um murmúrio de casuarinas
namorando o mar

a palavra eram anos
micaias na frotne da angústia
silvo astral decapitado
corpo de mulher tatuado

Gulamo Khan


Para os meus alunos


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Victor Matos e Sá

Aurora


Que sol amadurece, lento,
a sombra doce dos teus seios?
Que branco vento transborda,
deslumbrado de acordar,
nessa área paz de frutos
redondos e naturais?

Em nenhum lugar as fontes são
mais sagradas e reais.

Victor Matos e Sá

Devo-te



Devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma pálpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos!

Vítor Matos e Sá

Marcha fúnebre



Quis imitar as cigarras
E cantar à vida um Hino claro.

Um jovem macilento
que lia o meu poema
esmagou-o com um tractor.

Não.
Vou passar a inventar.

Para começar,
ouçam a fábula fabulosa
daquele milionário fabulosamente rico
que dava todo o dinheiro em esmolas.

Ruy Guerra

20.11.10

Raiz de labareda flameja



Raiz de labareda flameja
e crepita em sua cor e chama —
a flor de acácia rubra te copia,
ó meu amor do instante do cio
solto e aberto.
E o delido rendado da folhagem
imita as frescas carícias dos teus dedos.

Fernando Couto

Cidade



De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manha quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militancia política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manha quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do res-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sed de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

19.11.10

Arremessos




A despeito de questiúnculas, e a despropósito das overdoses do
born in, sempre e sempre o futuro, nossa fúria cosmopolita
mas agora falemos de ortodoxias.
De facto, mais do que a vermelha e a clássica
são estes bolsares viscerais, mangungu d'ontem maningue chatos.
Para os ruminantes, barrete e folhoso são o vai-vem obvio-
implícito, basta o ruminar e bolsar sobre.
Exaustos de exaurir cifrões, estão os dias
que nos transportam es-cru-GULOSA-mente (m) (por via erudita).
No ponto a mesma música: os fúnebres encontros
para chorarmos um entre comuns: os irmãos foram-se de largada.
É verdade que o que somos tem sempre segmentos do que fomos..
Será verdade, também, que o xibalo e a palhota sirvam
para nos nacionalizarem, só porque se u$a?
Ou seremos nós, há caso, mero cidadãos do ocaso?
Mas por criar, sobram-nos os mesmos filhos
que vamos sendo dos nossos pais.
É verdade irrefutável que, se a historia está a ser mal escrita,
a minha geração dar-se-á ao desplante de reescreve-la,
me ti cu lo sa mente(m)!

Manuel Meigos Filimone

Amor


Meu poema infinito
Tu escreves-me tão bem
esse amor todo nos teus dedos
escrevives-me exactamente
como me sonhei


Tânia Tomé

18.11.10

Sento-me na carlinga


Sento-me na carlinga e fecho os olhos
cheira a velho este antonov
na penumbra

o roncar possante
desta ave de aço
as negras mãos refulgindo

dos primeiros moçambicanos
a domar uma ave de aço

Gulamo Khan

16.11.10

O rumor da água na tua voz



O rumor da água na tua voz
e um fio de música no teu andar.
Indecisa a pele entre o bronze e o cobre
e a terra da tua boca ainda a calcinar.

Fernando Couto

13.11.10

A nossa (in)consciência



Vejo a madrugada resvalando-se
num abismo de tenebrosa cólera, fértil
o olhar da prostituta sufoca o grito
do recém-nascido, transformando-o num coágulo de sangue que
fenece pelos esgotos ignotos
das ruas da nossa consciência...
Se a nossa consciência
não fosse esta exímia parturiente da maldade,
que sentido faria a benevolência?

Eusébio Sanjane

12.11.10

A arma do poeta



Eu nunca
Fui soldado
Nunca usei
Farda
Mas usei
A arma do poeta
A arma do verso

Eles disparam
Balas

Eu "disparo"
Versos

Não carrego
No gatilho
Mas empunho
A pena!

Delmar Maia Gonçalves

11.11.10

Laurentina djambular cafezinho das dez



Tivera eu a certeza
que o deus, que parte e reparte,
se fica co’a melhor parte
em cima de sua mesa…

e faria uma loucura
qualquer coisa de bonito
que dignificasse o aflito
da minha medianura!

Grabato Dias

7.11.10

O poeta



O que resta
Ao poeta
Senão viver
Inconformado
E não vergado
Embora
Em voz silenciada
Ninguém consegur
Calar a voz do verbo.


Delmar Maia Gonçalves

29.10.10

Veio Tudo de Longe


Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, nupcial e magnífica.
Caminho e tenda. O mar. Livros. A indizível
matéria da dor. Ternura
cercada e repartida, pouco
a pouco, à mesa rápida
dos lábios, clandestina voz baixa
das mãos juntas. Sobreviventes
de invernos, dúvidas, denúncias.
E o teu sorriso honrado. A oferta
duplicada e vulcânica
dos seios. Esta noite que nos pôs
à prova. Sobre o vento e o repouso
do vento. E a música ainda cheia
de muitos outros quartos. Sim, a importância
do teu rosto: alvo claro deste mês
desmedido que nós somos.

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, sagrada e partilhável.

O banho comum gradual e abundante
dos sentidos. As faces que só tenho
entre o convívio doce dos teus dedos
sempre em férias. E a chave
do desejo. Erecta dureza doadora
do óleo e da viagem
aos lugares da origem
e do êxtase. Resposta
da terra contra a terra.

E a surpresa ensina e desvenda
as partes mais antigas da alegria
dupla, densa, nadadora, nossa.

Vítor Matos e Sá

28.10.10

O teu riso


Antes a morte,
que perder o instante em que sorris.

Não me negues
o milagre que inventas,
a rosa que de súbito
brota da tua alegria.

Regresso por vezes com as mãos
vazias, o corpo dormente,
o sol já não morre, o mar
já não preenche infinitos caminhos,
mas logo tu sorris,
e tudo regressa a sua mansa ordem,
o mar que secara,
ressurge dos teus lábios,
o tempo que me atravessava como
um espada afiada, é agora
o meu único refugio.

O teu riso, meu pão,
sustenta os caminhos há muito estancados
que me guiavam ao teu colo... Escuta,
o rio, as algas, o vento,
que eu escutei um murmúrio
e entendi o teu riso,
essa porta que para mim
se abre.

Eusébio Sanjane

11.10.10

Lisboa Nostra



Lisboa Nostra
Que a espuma leva
No Tejo viajante
Que levas o mar contigo
Vagabundeando
Pela Europa no Tejo dentro.
Ai, Nostra Lisboa
Ai, Mare Nostrum

Delmar Maia Gonçalves

28.9.10

E eu partirei



E eu partirei.
No caminho o sabor de nós dois
se extinguira, as mãos, iniciadas na arte de submergir
por entre extensas planícies azuis, irão
quedar deflagradas em mil e um pedaços.
A dor intensa,
a lágrima espinhosa,
o rosto que se afasta,
o peito que mingua...sou eu!
E eu partirei,
levando comigo somente os resquícios
dos beijos havidos,
das manhãs todas que a sede transformou-te, assim como se transformaram esses rios de caminhos incertos
e que seguem a eterna busca do infinito mar.
O silencio inquietante,
o vazio profundo,
a voz que de longe
desperta a tua atenção...sou eu!
E eu partirei, mesmo que me falte o corpo, mesmo que não me bastem os passos, pois sei que em algum lugar, em algum momento, lá estarás tu, esperando por mim, e sorrindo dirás: — Já estava cansada de te esperar!
E nesse instante,
um sorriso em pérola,
uma lágrima em flecha,
uma flor apenas,
será bastante para te mostrar a minha felicidade.

Eusébio Sanjane

21.9.10

Neologismo



Nascem sons
Neologismo de vida nova
Melodia vaga
Quase me esmaga a carne
Na mesma veracidade
De amar-te incessantemente

Tânia Tomé


11.9.10

Da última ceia


Faltou Jesus nessa noite agoirenta

Embora as iguarias e demais apóstolos
Sem os trinta dinheiros e o beijo fatal
ninguém se atreveu a tocar no pão

Não se podia alimentar a lenda
sem as pupilas incandescentes
do tal judas o traidor

Judas bode expiatório
da sacrossanta impunidade
Judas
pólo de irrevogável inclemência
do ideário cristalizado

Judas será Judas
Quer ele queira quer não
e a essência das coisas dogmatizadas
deve aspergir sobre o medo inteiro
dos que aprenderam a soletrar assim

E há depois também as conveniências
dos que pintam
dos que vendem
dos que sobretudo compram
últimas ceias pelo mundo fora

Ah Judas traiu mais uma vez
eis o que sobra na mesa posta
não haverá ceia por esta noite
e Cristo apesar de Cristo e milagreiro
passará fome como um simples mortal

Como um desses milhões de famintos
que dão de comer a quem não tem fome

E assim chagados
ámen para todos os pacientes

Porque nós dizendo não
alimentaremos a revolução

Rui Nogar

10.9.10

Aforismo



Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

Noémia de Sousa

Flor Lunar



Quando abraço
A minha doce e terna
Flor Lunar
Quando oiço a terna voz
Quando olho seus meigos olhos
E mergulho no seu oceânico
Mundo fantasioso
Todas as muralhas
Se diluem no meu coração
E sai de mim
O homem exilado
Esperançado
Num futuro melhor.

Delmar Maia Gonçalves

9.9.10

Ontologia do Amor



Tua carne é a graça tenra dos pomares
e abre-se teu ventre de uma a outra lua;
de teus próprios seios descem dois luares
e desse luar vestida é que ficas nua.

Ânsia de voo em asas de ficar
de ti mesma sou o mar e o fundo.
Praia dos seres, quem te viajar
só naufragando recupera o mundo.

Ritmo de céu, por quem és pergunta
de uma azul resposta que não trazes junta
vitral de carne em catedral infinda.

Ter-te amor é já rezar-te, prece
de um imenso altar onde acontece
quem no próprio corpo é céu ainda.

Vítor Matos e Sá

2.9.10

Um lugar no meu coração


1. Choras...
Por vezes até morres,
e afundas em teu fosso de orgulhosa cólera,
até que nada te reste, senão, um instante,
um só, em que amaste sem medo, que te entregaste
sem corpo, sem alma, que foste mulher.

2.Nas noites frias e duras,
o traço forte da loucura irrompe
pela vidraça das tuas janelas,
embaçadas, sujas, e ofusca o brilho
de tudo, e até mesmo o teu, e permaneces
assim, no teu fosso de silêncio, silenciada...

3.E ai, eu também choro,
que amar é partilhar,
E ai, eu também sofro,
que amar é esperar,

4.Sei somente, que um dia,
teus olhos despertarão, coloridos,
e acredite, meu amor, não haverá
uma manhã sequer, que negra
não assuma o teu esplendor,
uma manhã em que não sorrias,
é isto que eu te ofereço:
— Um lugar no meu coração!

Eusébio Sanjane

29.8.10

Poesia


é a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde...

Vítor Matos e Sá

27.8.10

O meu canto

Tu és o meu cisne
A minha última criação
No urgir das asas

És o meu ângulo saliente
No vértice do encontro
Lírio com os sonhos

És o olho angustiado
No que me falta ainda
Por a vida não ser o bastante

És a minha sã loucura
No óbolo beijo
No toque dos dedos

És o meu silêncio
No sussurro lírico
Da minha voz nas palavras

Poesia
És o meu canto

Tânia Tomé



23.8.10

Há um homem



1.Há um homem em cada
noite, que se multiplica em suadas mãos
para esmerar um corpo amado.


2.Há um homem
que se dissolve em suspiros
e queda fatigado nos teus braços
a cada noite, mulher!


3. E no oficio árduo das madrugadas
nasce um homem, um homem novo,
um homem de mil e uma auroras
assim como se plagiasse o resplandecer
dos teus olhos, mulher,
para cravar os astros de prazer.


4. Há um homem, mulher,
um homem que sou,
um homem que nasço,
somente quando te amo.

Eusébio Sanjane

11.8.10

Conhecer o Mundo




Conhecer o Mundo
Eis o meu Fado!
De nada vale
Remar contra o vento!


Delmar Maia Gonçalves

9.8.10

Grão d'areia



Um só ínfimo grão de´areia
nunca imaginei
pesar tanto...

--------------

eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
à mancheias.


Noémia de Sousa

2.8.10

Dá-me as Tuas Mãos



As mãos foram feitas
para trazer o futuro,
encurtar a tristeza, encher
o que fica das mãos
de ontem - intervalos
(duros, fiéis) das palavras,
vocação urgente
da ternura, pensamento
entreaberto até
aos dedos longos
pelas coisas fora
pelos anos dentro.

Vítor Matos e Sá

1.8.10

Em vez de lágrimas



Só um choro em seco
põe no vértice da minha dor
o mais intenso
auge do luto.

Noémia de Sousa

31.7.10

Inloucura

Mural on Old Theatre Building, Beira, Sofala, Mozambique Photographic Print


No principio
era o fim
uma última asa
pousa voo
sem viajem...

Tânia Tomé

30.7.10

Beijo negro


Beija-me profundamente com o teu gosto,
dá-me o teu gosto,
faz-me renascer,
para que no meu despertar sinta a fresca melodia dos pássaros
e a brisa me traga esse incenso
místico... terra...
que os rios e os mares quentes, me lavem a consciência
e me aqueçam a alma,
o meu dia seja uma caça felina... a minha presa... a vida...
o mergulhar no entardecer da esperança ardente,
e esses tambores ao anoitecer, me embalem em sons embriagantes,
o fogo dos corpos mais forte que as chamas das fogueiras,
os gestos dos corpos suados,
uma dança feiticeira de beijo negro,
a minha entrega inteira,
beija-me profundamente com esse gosto,
porque só tu me beijas assim.


Sónia Sultuane

28.7.10

IANQUES


DEPOIS DE HIROXIMA
DEPOIS DE VIETNAME
DEPOIS DE

Piores
Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava
Átila o bárbaro
Como adjectivado nos foi
Quando meninos coloniais
Nos ensinaram de Portugal
A História Universal

Não houvera ainda Hiroxima
Não houvera ainda Vietnames
Não houvera ainda

Foi depois oh foi depois
Muito depois que sangrou Hiroxima
Que sangraram Vietnames
E de Átila
O Mundo se recordou

Mas de Átila porquê

Atila não
Que muito piores que ele
Eles o foram

Muito piores
Que Átila o tal
Que por onde passava
O capim diziam que secava

Oh sim
Muito muito piores os ianques
Que por onde passam
Chewingamizando-se endolarados

Cresce o capim
Onde havia trigo
Semeiam-se escravos
Onde nasciam homens
Colhem-se cinzas
Onde cresciam crianças

Oh sim
Bárbaros são eles
Os ianques

Atilas elevados
À potência imperial

Rui Nogar

20.7.10

Infelizmente jamais



No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.

Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.

Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.

Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.

Noémia de Sousa

19.7.10

Maternidade


Escuta, sorrindo,
a morte que bate
de leve em seu corpo
com ávidos, doces
punhos da infância;
com beijos que vão
enchendo seu rosto
de tempo e ternura;
e alimenta, secreta,
a chama tranquila
que em seu ser ilumina
o mistério da vida.

Vítor Matos e Sá

17.7.10

Pedaço de Areia


Neste exíguo
E labiríntico
Pedaço de areia
Degenero
Mundividências diversas
Que se entrecruzam
E se perdem
No nada.

Delmar Maia Gonçalves


14.7.10

poema para ti



Não me perguntes por que te amo
pergunta-me antes, por que não te amaria
e eu te responderei:
— Não te amaria, se não houvesse em ti
este sol por despertar, esta sede por matar,
e esta interminável doçura que te habita.

Eu já te amava e te adorava
antes mesmo da invenção da palavra.

Creio que não sabes,
mas tu és esta chama fria
esperando ser encarnada
na alma...És este sentir
que constrói mundos
e move corações...

Não me perguntes por que te amo
pergunta-me sim, o quanto te amo
e eu te responderei:
— Não existe palavra tão intensa
em que caibas completamente, pois tu és
este vazio ainda por preencher, o qual não se
basta nunca...

Sabes,
por vezes um simples olhar teu
desperta um lento fogo em mim
que sem demora enche-me de atrasos
e logo sei o quanto estás distante...
Mas não te preocupes
que em meu olhar
ainda reluzem as tuas pegadas
denunciando-te sob o horizonte...

Eusébio Sanjane

12.7.10

O nosso sonho, irmãos




O nosso sonho
cresce fértil nas vísceras da terra
e é nosso o suor que o alimenta.

Eusébio Sanjane

9.7.10

Amo-te Sempre


Amo-te sempre
com um pouco de barco e de vento
com uma humildade de mar à tua volta
dentro do meu corpo; com o desespero
de ser tempo;

com um pouco de sol e uma fonte
adormecida na ternura.

Merecer este minuto de palavras habitando
o que há sem fim no teu retrato;
Este mesmo minuto em que chegam e partem navios
- nesta mesma cidade deste
minuto, desta língua, deste
romance diário dos teus olhos -

(e chegarão com armas? refugiados? trigo?
partirão com noivas? missionários? guerras? discursos?)

Merecer a densa beleza do teu corpo
que tem água e ternura, células, penumbra,
que dormiu no berço, dormiu na memória,
que teve soluços, febre, e absurdos desejos
maiores que os braços,

merecer os dias subindo das florestas - e vêm
banhar-se, lentos, nos teus olhos...

Merecer a Igreja, o ajoelhar das palavras,
entre estes cinemas visitando, em duas horas, a alma,
estes eléctricos parando atrás do infinito
para subirem os namorados, a viúva, o cobrador da luz, a
costureira
entre estes homens que ganham dinheiro, sangue frio, ou vícios,
ou medalhas
e estes telefones roubando a lealdade dos olhos...

Teus cabelos cheirarão ainda a infância
e a vento, depois de passarem por esta fome pública,
estes olhos com regras de trânsito, estes dias sujos,
estes lábios que já não ensinam o pomar
ou a fonte, nem têm gosto de leite e de aurora,
depois destes olhos cheios da pergunta de estarem vivos
em vão?

Merecer honradamente este poema, todos os poemas,
como quem parte, entre os dedos a brancura
quente de um pão!

Vítor Matos e Sá

3.7.10

fomos denunciados


fomos denunciados
apanhados no escuro
por sabermos apenas
como se faz o esperma

mas onde a coragem
para mais geometria
que o triângulo das pernas
o mastro do navio?

a ti sei condenar
ó namorada mansa
minha toira-menina

eu preciso de ti
como de sal e livros
minha ave africana
ó mandrágora escura
eu decoro o teu corpo
de puta e sanguessuga

somos feras ou furúnculos?

só cordeiros nos olhos
devoramos os outros
trazemo-los na boca

eu e tu somos bichos
somos anjos de carne
corroídos pelo tempo
corroídos pelo vício
neste país de luto
nesta pátria de frio

Lourenço de Carvalho