25.11.09

Assim sou assim pau-pretam-me




I
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me
bem sabem como estou em todo o lado
aeroportos passeios galerias plásticos
nunca mudo nunca poderei mudar
sou corpo sou capulana sou sida
sou tradição sou mamana do imutável

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

II
sou filha do escopro de um dia qualquer
sou mercadoria fácil de todo o mundo
qualquer moeda me compra logo
patrão bom preço patrão compra barato
filhos produzo áfrica trago no ventre
sou o pilão sem rugas de qualquer foto
estou definitiva na sala de qualquer turista

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

III
nasço em cada dia numa consultoria
saio relatório de montes de cientistas
nos momentos mais solenes viro tese
e descrevem-me em meus hábitos ancestrais
e decoram-me com regras impolutas
e se de manhã acordo tradicional
é porque de pau-preto é a minha alma

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

IV
se visto tchuna não sou africana
se canto se pulo se ponho mecha
se saio uma só vez do pau-preto
de falsa vestem-me de europeia podam-me
e se por fim português falo e escrevo
é apenas graças à gentileza deste poema
porque eu josefina apenas sou natureza

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

Carlos Serra

Quando a pátria que é nossa



Quando a pátria que é nossa
É assim esgravatada e repilhada
Até aos limites do seu interior
Por gente nossa e despudorada

Quando a pátria que é nossa
É assim regateada ao preço da gula
E ganância, por gente que jurou
Defendê-la com bravura e valentia

Quando a pátria que é nossa
É assim extorquida e ameaçada
Por gente sem dó e auto-esconjurada
Que não olha a meios senão a fins

Quando a pátria que é nossa
É assim leiloada em praças obscuras
À taxa diária do sangue, suor e lágrimas
De milhões de braços, e uma só força
Por gente ilustre e de colarinho branco

Quando a pátria que é nossa
É assim assaltada pelos flancos da sua
Beleza e contornos da sua geografia
Por gente forasteira de si própria

Quando a pátria que é nossa
É assim deixada à deriva e ao relento
E à mercê dos párias do nosso maior
Descontentamento colectivo

Quando a pátria que é nossa
É assim atraiçoada por essa gente sem
Nome, que se aliança com mercadores
De insónias e arautos do caos e do mal
Em troca do fútil e do asco
Todo silêncio e todo exílio serão

Sempre iguais a pátria que é nossa!


Armando Artur


12.11.09

Poema para ti




Não me perguntes por que te amo
pergunta-me antes, por que não te amaria
e eu te responderei:
— Não te amaria, se não houvesse em ti
este sol por despertar, esta sede por matar,
e esta interminável doçura que te habita.

Eu já te amava e te adorava
antes mesmo da invenção da palavra.

Creio que não sabes,
mas tu és esta chama fria
esperando ser encarnada
na alma...És este sentir
que constrói mundos
e move corações...

Não me perguntes por que te amo
pergunta-me sim, o quanto te amo
e eu te responderei:
— Não existe palavra tão intensa
em que caibas completamente, pois tu és
este vazio ainda por preencher, o qual não se
basta nunca...

Sabes,
por vezes um simples olhar teu
desperta um lento fogo em mim
que sem demora enche-me de atrasos
e logo sei o quanto estás distante...
Mas não te preocupes
que em meu olhar
ainda reluzem as tuas pegadas
denunciando-te sob o horizonte...

Eusébio Sanjane

10.11.09

Desgraça meu lóbrego destino



[Este é um caminho minado
e nele alguém tem que andar,
Para que se perpetue o mutilado]

Mau agouro, desgraça, negrura, negregura, naufrágio...
questão de opção
Neste meu módico dicionário ou palavras do dicionário à espreita
Isto não é fole de ferreiro!

Oh! Deus que me deixas ladrar à lua
Nestes dias martelados a ferro frio,
Nesta terra que mal me nasceste
E me empandeiraste na lonjura que de envolta
Um lôbrego destino, sabe
Isto não é fole de ferreiro

À discrição me deixas verter pranto
Nadando neste mar seco
Sem levar estas águas ao seu vento
E além enchendo de naufrágio
Este bandulho desalentado
E dia a dia,
Ruminando um póstero acorrentado,
Sabe, isto não é fole de ferreiro!

Oh! mãe que na caveira de burro me nasceste
E sem lume nos olhos
Me tornaste este verbo de encher
A marcar passo sem eira nem beira,
Que molejo me criaste mãe?
Neste relento à vela andando
Isto não é fole de ferreiro

Olha mãe, saiba que a vida continua,
será que num fole sonho renascer desta crónica
E não volto mais à vaca fria?
Isto não é fole de ferreiro mãe!


Noé Filimão Massango