21.9.09

Este nosso país



Dentro das cinzas ainda quentes
ardem pequenos lumes na calma subjectiva da noite.
Não se apagou a fogueira por sono dos homens
mas porque da unidade conhecida partem caminhos
abertos aos passos para o preciso destino. A lembrança daí
e das revoltas cilindradas junta forças no punho das armas.
E quando rebentam disparos na surpresa da opressão
há sangue vivo nas veias inchadas para derramar
pelo sacrifício previsto. São poucos mas destros
os braços que dizem a razão dos feridos rasgos
de milhões de corpos acorrentados. São largos silêncios
translúcidos e tensos avançando palavras mínimas suficientes
em resposta fértil aos gritos da esperança humilhada
calados na verdade ressequida que pranto escondido
pode fazer subir das raízes a seiva de florir.
Passa o tempo bárbaro corroído entre a essência do combate
e a retaguarda cumprindo a sua vontade clandestina
e a tortura sofrida que destrói lábios selados na recusa.
Olhos mãos baionetas fúrias brutas violam sistematicamente
a inocência de crianças e a fertilidade dos ventres maternos
de um Povo negado. O cultivo de algodão para fábricas de fora
onde o irmão operário ignora o mísero camponês que o semeia
permanente curvatura de dorsos acumulando trabalho forçado
e riqueza de bancas multinacionais que paga genocídios
e altos exercícios logísticos e polícias secretas competentes.
A cultura original afeiçoada pelo riso lúbrico burguês
e pela tactura de gordos dedos do turismo financeiro.
Das esteiras fome doença letargo decretadas preguiça
erguidas à ordem-chicote de ficarem solenemente de pé
para cantarem hinos ao poder da ocupação estrangeira
filtrados através do não inútil ódio de gargantas secas.
No heroísmo de tudo atrás e agora e adiante a vibrátil
certeza de vitória consciente. E o fim completo conseguido
para quinhentos anos de morte e revivência. A grandeza do Povo
crescendo igual nas duras conquistas revolucionárias
que aprendemos com a luta das frentes. Este nosso País.

Orlando Mendes

6.9.09





Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua
Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
Terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem
Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!
Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas
Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e Cl[amor] do nosso povo
Minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
Nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
Zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
Apague
É a podridão do nosso povo, não é?
Fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre
Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem
Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
Suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado
Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
Aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
E iluminaram as noites de Nkaringanas
Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
Perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
Oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís
Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também
Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... He, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!

Noé Filimão Massango

4.9.09

O teu riso



Antes a morte,
que perder o instante em que sorris.

Não me negues
o milagre que inventas,
a rosa que de súbito
brota da tua alegria.

Regresso por vezes com as mãos
vazias, o corpo dormente,
o sol já não morre, o mar
já não preenche infinitos caminhos,
mas logo tu sorris,
e tudo regressa a sua mansa ordem,
o mar que secara,
ressurge dos teus lábios,
o tempo que me atravessava como
um espada afiada, é agora
o meu único refugio.

O teu riso, meu pão,
sustenta os caminhos há muito estancados
que me guiavam ao teu colo... Escuta,
o rio, as algas, o vento,
que eu escutei um murmúrio
e entendi o teu riso,
essa porta que para mim
se abre.

Eusébio Sanjane