19.8.09

Azul e vermelho



Em azul morrerei um dia
envolto em ramos de tamarindos...
Azul como azul do meu azul,
serenamente...
Vermelho como o vermelho do meu vermelho
ardente...

Figueiras da índia da «Ilha dos Galegos»
dizei-me:
que contam das ondas à beira-mar?...

Azul dos olhos das sereias,
que emprestam às vagas
a cor...
Vermelho como o desejo flamejante
do sol-pôr...

Orlando de Albuquerque

12.8.09

Assassinando a saudade



Há quanto tempo, amor
não te sentas no sofá
diante do ecrã
para deliciar
os versos meus
que com todo
o carinho
concebi
só para te amar
há quanto tempo, amor
não me espreitas
navegando aqui
contigo
por ti e para ti...
Ah!
Há quem defenda
um desaparecimento
momentâneo
para criar
saudade
e quando esse
instante passa
há um prazer
enorme
em assassinar
a saudade...
Não sei se acredito
nisso,
mas cá estou
assassinando
lentamente
a saudade.

Domi Chirongo

2.8.09


Meninos do outono?




Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

Gritam puerís
Ainda em primaveras de pombas
ninguém cála seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Pelas manhas,
Se espalham as grotas do silêncio
Que drenam ao mar,
Suas emoções ocultas diluidas

Ode ao verão
Aquem se despeja e se limpa o suor
Daqueles homens cheios de torpor!
Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

No inverno
Sacodem suas gangas caregadas de orvalho
Embalam suas cangas homens de sóbrio
ninguém escuta seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Mas gritam homens do stéreo
não serão estes os meninos do outono?

Noé Filimão Massango
Liberdade



Hoje obrigo-me a qualquer coisa mais
que seria indefinida se a dissesse textualmente.
Por isso pode parecer que jogo com palavras
quando apenas as quero escrever doutra maneira
repensadas com o coração sobre o lume delas.
Desprendo-me de mim como no acto conjunto
do parto em que a mulher toda se dói
e o filho lança o grito de vida para o mundo.
Descubro a nossa terra inteira que circundo
devolvida à luz natural independente da meteorologia
eu urgente milionésimo corpo integrado
de súbito sem idade a semear pão comum.
A cada companheiro respirando pergunto
que génese nos une o sangue e os músculos
e milhares de olhos respondem liberdade
de nos pertencermos trabalhadores iguais
compondo canções ao ritmo da ferramenta
aquela qualquer coisa que hoje me obriga mais
e seria indefinida se a dissesse textualmente
no silêncio das noites que o poeta já não inventa
e antecipam madrugadas fraternais sem disfarce
onde a burguesia dorme ainda comodidade
com as persianas hermeticamente fechadas
e o rádio portátil na mesinha de cabeceira
para ouvir o primeiro serviço de notícias sul-africano
confortáveis ao estômago-memória pelo resto
da manhã que sempre lhes foi tempo descansado.

Orlando Mendes,
País emerso, caderno 2, 1976

Um lugar no meu coração



1. Choras...
Por vezes até morres,
e afundas em teu fosso de orgulhosa cólera,
até que nada te reste, senão, um instante,
um só, em que amaste sem medo, que te entregaste
sem corpo, sem alma, que foste mulher.

2.Nas noites frias e duras,
o traço forte da loucura irrompe
pela vidraça das tuas janelas,
embaçadas, sujas, e ofusca o brilho
de tudo, e até mesmo o teu, e permaneces
assim, no teu fosso de silêncio, silenciada...

3.E ai, eu também choro,
que amar é partilhar,
E ai, eu também sofro,
que amar é esperar,

4.Sei somente, que um dia,
teus olhos despertarão, coloridos,
e acredite, meu amor, não haverá
uma manhã sequer, que negra
não assuma o teu esplendor,
uma manhã em que não sorrias,
é isto que eu te ofereço:
— Um lugar no meu coração!

Eusébio Sanjane