21.7.09

Respiração



Na estrada vida que se define
e se joga segundo a segundo
pelo contido tempo de cabine
e pensamento que percorre mundo
à justa medida de cada qual.
Secretos são os caminhos ambíguos
cruzados entre o bem e o mal.
Escuto inconfessos rogos: ligo-os.
O pensamento rasteja. Delira.
Só. Asa metralhadora incendeia
sombras de medo. Mordemos a ira
no asfalto. Com dentes em cadeia.

Orlando Mendes

16.7.09

???Dúvidas I???




1. De quem é a arma que embala o medo da criança órfã que vagueia pelas ruas frias do nosso remorso?

2. Por que há tantos atalhos para a tristeza
e tão poucos caminhos para a felicidade?

3. Por que se mede o mundo
mas não as tristezas?

4. Como conseguiram os homens
descobrir o abismo da maldade,
e desconhecem a escadaria da bondade?

5. Por que não extraem o ouro do sol os homens?

6. Quantas bíblias há no céu?

7. Por que os grandes aviões não fazem ninhos? E quem já os viu ensinarem os seus filhos a voar?

8. É verdade que a dor se deve regar com lágrimas para a felicidade florir?

9. Como entenderão a minha poesia aqueles que jamais sentirão o meu sangue?

10. Se Deus está em todos os cantos por que olham para o céu os homens?

11. Se quando morremos vamos ao paraíso por que preferimos antes o inferno?

12. O que dizem sobre a morte os abutres?


Eusébio Sanjane

14.7.09

As palavras



Lina,
distante dezanove dias de água,
milhas marítimas que só a lembrança vence,
teus desvanecidos traços tento definir
pois de ti só possuo, intensamente, a imagem
de um lenço branco, acenando no cais.

Assim, te completo com as quase delidas faces
dos companheiros de infância,
verdes rostos moldáveis na memória,
e os gestos e os moldes e as falas
de todos os que, vivos ou mortos, se cerro os olhos
vejo e ouço...
Deste modo, escuto ainda
o trilo de flauta que,
no recôncavo da mata à beira do córrego,
pastorzinho negro ingenuamente improvisava,
a restolhada bravia dos dedos longos do vento
lascivamente despenteando a margem verde dos canaviais
— e vejo as barbudas figueiras bravas de ao pé do pomar
onde, nas tardes de Verão, a cega-rega das cigarras
nos ficava zunindo nos ouvidos.

E os rouxinóis...
Não, não e não!
Só sei dar a tudo, coisas vivas ou inanimadas,
aves, folguedos, frutos, instrumentos, localidades,
os saborosos nomes que juntos aprendemos, e não outros:
bokota, shikumbela, timbila, Zavala,
pois, só assim, poderei evocar
com as palavras mesmas que no alvoroço da descoberta
à boca nos acudiam

(Lina, Lina, uma gala-gala naquela mafurreira!)
as nossas «grandes e terríveis aventuras».

Quando um dia, amiga, com doces termos
tivermos baptizado, escrito pela primeira vez
o nome de bichos e aves, rios e ruas,
gentes e gestos, danças e doces, frutos e factos
e os quisermos preservar na Arca-de-Noé da Poesia
será mais rico o colorido do nosso canto
pois nós, gémeos no amor da transfiguração,
pegando numa irisada palavra
a voltearmos nas mãos como precioso diamante
ou como irmã mais nova
já que do ventre da nossa mãe a recebemos.

Fonseca Amaral

6.7.09

Para esta Fogueira de Letras



Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua

Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem

Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!

Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas

Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e cl(amor) do nosso povo
minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
apague
É a podridão do nosso povo, não é?
fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre

Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem

Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado

Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
e iluminaram as noites de Nkaringanas

Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís

Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também

Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... Eh, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!


Noé Filimão Massango

2.7.09

A última marrabenta



Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos

Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos.

Domi Chirongo

1.7.09

Passagem de nível



Amigos, algo de grave
Se passa na ferrovia,
O maquinista que trave
A nossa composição.
João-bandeirinha sabe
Mas onde é que está João?
Vamos todos procurar
João ao longo da linha

Por terra e pelo ar,
Cem mil olhos-noite-e-dia.
Que sem João-bandeirinha
Vivo a mal ou a bem,
Não há via livre nem
Código de ferrovia.


Orlando Mendes
Véspera confiada, 1968