27.6.09

Pedra Imortal
(Alma)



As pedras
romperam
o silêncio.

Radioactivo
o movimento
radioactiva-se
de amor.

Hoje
o pó
espargiu-se em ternuras.

Somos alma.

Calane da Silva

21.6.09

Índicos Caminhos



Os caminhos
são teus
na lonjura destes
passos.

As palavras e metáforas
são às vezes minhas
rimadas de íntimos
cansaços.

As flores do Índico
são nossas
pétalas do mar
insubmissas...


Calane da Silva
Pedra perene
(Vida)



Na pedra
finge-se
um silêncio
inquieto.

Aglutinados
somos pó e fantasia
luz e sonhos
palpitando loucuras.

Somos vida.

Calane da Silva
Espaço e frase



Este espaço
em que se vai edificando a Sociedade Nova
não se mede geometricamente aumenta
com o crescimento real da nossa capacidade
como a semente batida pelo sol de Novembro
depois da mínima chuva caída
germina e rompe a necessária fenda
emerge da terra enfim sensível
ergue-se árvore pujante que dá flor
e anuncia os primeiros frutos maduros
devidos a uma tão antiga fome de justiça.
Esta fase
desde a lavra até à sementeira
desde a sementeira até à colheira
é o ansiado tempo de livre respiração dos corpos inteiros;
não para dizer quase
não para dizer mais ou menos
mas para o conjunto de todas as idades
na voz única de milhões proclamar
certeza.

Orlando Mendes,
Produção com que aprendo, 1978

Cinco horas da manhã




São cinco horas da manhã
Para Maria pilando
Debaixo do cajueiro
E o noivo de Maria Colimando a machamba
E pensando no Transval.

São cinco horas da manhã
Para uma velha negra
Abanando o fogareiro
E assando maçaroca
Milho bom! Eh! Milho bom!
Numa voz desnecessária.

São cinco horas da manhã
No bazar de piripiri
Manga, coco e mulala
E tetas nuas vertendo
Leite tão branco e puro
Como o leite secretado
Por outras tetas mais púdicas.

São cinco horas da manhã
Nas cartas por escrever
Dos chibalos sonolentos
E nas mãos que dão à terra
A semente sem passado.

São cinco horas da manhã
No coração confiante
Das mulheres que pariram
E em versos de sangue e nervos
Que latejam o futuro.

Num canto livre e bravio
Das aves da minha terra
São cinco horas da manhã.

Mesmo com nuvens, espessas
Toldando a luz do sol
São cinco horas da manhã.

E até no desespero
De não aceitar o dia
São cinco horas da manhã
Da manhã que irrompe
Com alvorada ou não
Da noite de incubação.

São cinco horas da manhã
Do Rovuma à Ponta do Ouro
São, na coragem que temos
Para sabermos que são.

Orlando Mendes

20.6.09

Povo-força


Intelectuais revolucionários erguei
o punho direito saudando os que são
proletários, com eles sois também a grei
nestas novas trincheiras da libertação.
Todos unidos cresceremos Povo-força
que na História se forja e assume.
Não há quem ferro-frio quebre ou torça
mas os ferreiros moldam-no ao lume.

Orlando Mendes
Produção com que aprendo, 1978

19.6.09

Encontro



A esta praia cheguei um dia
Na primeira viagem da emigração
E tu negro me espreitavas a medo
De peito nu e azagaia na mão
E olhos de infância antiga
Onde rolaram séculos iguais
Quando ainda não tinhas o segredo
De conhecer o poeta que já eras
Entre diálogos em noites propícias
Com deuses e demónios sem idade
E ventres gerando sem fadiga
A vida que ao futuro se devia
E não deixou ficar notícias
E florestas e feras
Cumprindo ciclos vitais
E o apelo milenário do húmus
Que até mim não veio
Para a teoria dos rumos
E anúncios de tempo novo
Para a história de um povo.

E a teu fado alheio
Na aventura e na saudade
Cantei e reparti então
Da Europa solícitos versos
À terra que descobria
E no meu peito de poeta
Bateram os corações eleitos
Que viram os sonhos desfeitos
E acharam mais fé
E nas minhas veias
Correu o sangue
Dos que verteram nas areias
E morreram de pé
E no meu corpo exangue
Sofri a sede completa
Dos que beberam a água si
Onde andavam dispersos
Corpúsculos de alvorada
E ergueram os braços
Que eram pulsos latejando
E sonharam passos
Parados na agonia
E não morreram quando
A morte apetecia.

Hoje quatrocentos anos depois
Pode a Voz trair-te e trair-me
Na lembrança das angústias originais
Mas havemos de nos encontrar
Vivos e verticais
Na estrada larga
Que abrimos os dois
Eu que vim do Mar europeu
E enraizei meu destino em chão firme
E tu poeta negro que nunca foste ao Mar
E à Mãe-Terra pertences como eu
E à Mãe-Terra pediremos que nos tome
Inteiros para sermos da mesma Raça
E lado a lado cantaremos a mesma alegria
E sofreremos a mesma dor no mesmo luto
E comeremos o pão que engana a mesma fome
E beberemos pela mesma taça
O vinho que embriaga e amarga
E semearemos a semente do mesmo fruto


Orlando Mendes


18.6.09

Mormaço



Tarde riscada de formigas voadoras
para uma voraz geometria de bocotas e chivauvaus
assim espessa de mormaço e tremulinas
quase helénica
— se as tardes gregas fossem húmidas
como esta.
Nítidas
três cigarras em uma barbuda figueira brava
perto
febris de malária ou doutro mal lá delas
fretenem metálicas e verrumantes
— enquanto no peito vegetal de encephalartos horridus
entre verdes puas aceradas
um coração de acendido fogo
pulsa e — desmedidamente — cresce.

Quedou-se assim o tempo
tolhendo com as mãos ambas o discorrer do dia
decidido a conservar este xivito
tão de mim e tanta coisa...

Fonseca Amaral

14.6.09

(Des)Entendimento



Para quê
entender
as mulheres
se podemos
viver com elas
sem as entender?
Calma
coração de psicólogo
a vida na verdade
nem sempre
necessita de análise,
é só seguir
os sentimentos.

Domi Chirongo

4.6.09

Há um homem



1.Há um homem em cada
noite, que se multiplica em suadas mãos
para esmerar um corpo amado.

2.Há um homem
que se dissolve em suspiros
e queda fatigado nos teus braços
a cada noite, mulher!

3. E no oficio árduo das madrugadas
nasce um homem, um homem novo,
um homem de mil e uma auroras
assim como se plagiasse o resplandecer
dos teus olhos, mulher,
para cravar os astros de prazer.

4. Há um homem, mulher,
um homem que sou,
um homem que nasço,
somente quando te amo.

Eusébio Sanjane

2.6.09

Chimâmi



Sempre que eu recorde a casa à beira-mar da infância,
surgem-me teus olhos meios de xipeia ferida,
aguados de humildade,
constantes como um remorso.

Lembras-te, minha amiga da palhota do Guachene?

Nos meus braços egoístas de dona,
uma boneca sorria sempre, com seus olhos verdes de gato.
E nos teus braços sempre vazios, Chimâmi,
só ternura imensa insaciada,
ternura verdadeira de mãe.
Teus olhos meigos de xipeia ferida,
com seu eterno brilho de resignação,
afagavam muito, longamente, quase com desespero,
a minha linda boneca loira.

Lembras-te?

Depois, era Natal
e o meu vestido de seda, aos folhos,
era uma das glórias do dia.

E o fogãozinho lindo que Papá deu
e o anel de ouro que Padrinho trouxe,
e os sapatos brancos que Mamã ofereceu?
E os bolos, o arroz-doce,
e o leitão assado,
e as flores na mesa branca da sala de jantar?
Natal, Chimâmi, hoje é dia de Natal!
Tu foste à missa como eu,
foste à missa Chimâmi?

Chimâmi não foi à missa, não
nem deve saber que hoje é dia de Natal,
porque não vestiu vestido de folhos,
vestiu hoje o mesmo vestido de riscado de todos os dias,
roto e velho, comprado no monhé do bazar.
E veio descalça, sem presente nem nada.
Só com os seus grandes olhos meigos de xipeia ferida,
no rosto luzidio, espetado o pescoço magro e longo.

Ah Chimâmi naquele dia,
tu partilhaste do meu Natal.
E todos os Natais após, continuas a partilhá-los.

Mas agora? Agora?
Quem vai apagar essa lágrima permanente
do teu olhar de xipeia ferida,
constante como um remorso, teu olhar
que dói para além de qualquer comparação?
Ah Chimâmi, minha Chimâmi!


Noémia de Sousa