19.3.09

Sobre o vento noroeste



Sobre o vento noroeste
galopam negros cavalos
de longas e soltas crinas
perdidas na noite escura.

Saltam ladrões ao caminho
dos homens desprevenidos
e anavalham corações
sobre o vento noroeste.

Choram meninos perdidos
em velhas encruzilhadas,
enquanto pelas estradas
galopam negros cavalos.

E em desespero nocturno
os cavaleiros de fumo
se agarram desesperados
às suas longas e soltas crinas.

Porque o vento noroeste
vai deixando pelos campos,
pelos prados, pelos vales,
lamentos desesperados
dos cavaleiros perdidos
em raivas e desesperos
sobre o vento noroeste.

Orlando de Albuquerque
Para um velho rapsodo



Canta, Muringana, canta,
na noite comprida do Chamanculo:
Ai, o Xivito que eu tenho,
a minha impala não veio hoje beber.
Kina, Kina, Kina
W psala nwana, Muringana,
W psala nwana!
A muchem te roeu o coração
e fez dele um monte de areia seca,
uma casa na solidão.
Kina, Kina até ao cansaço,
à copa das árvores até às raízes.
Bailando voas, bailando te afundas,
o chão dos mais engeitas.
Nesse ventre de homem um filho se gerou
- é o Xivito que te aperta o peito,
rouba o fôlego e entontece.
Ê - lê - lê - lê! Faz tremer o chão
Com raiva e os pés.
Chocalha esses guizos dos artelhos,
iradamente dança, ê - lê - lê - lê!
A azagaia da morte não te apanhará desprevenido.
Quando a Grande Caçadora por ti vier,
tu, em pleno salto,
morrerás no ar como so pássaros mais altivos,
Muringana, Muringana.


Fonseca Amaral

18.3.09

Samba




No oco salão de baile
cheio das luzes fictícias da civilização
dos risos amarelos
dos vestidos pintados
das carapinhas desfrizadas da civilização,
o súbito bater da bateria do jazz
soou como um grito de libertação,
como uma lança rasgando o papel celofane das composturas forçadas.

Depois,
veio o som grave do violão
a juntar-lhevo quente latejar das noites
de mil ânsias de Mãe-África,
e veio o saxofone
e o piano
e as .marocas matraqueando ritmos de batuque,
e todo o salão deixou a hipocrisia das composturas encomendadas
e vibrou.
Vibrou!

As luzes fictícias deixaram de existir.
E quem foi que disse que não era o luar dos shigom belas,
aquela luz suave e quente que se derramou no salão?
Quem disse que as palmeiras e os coqueiros,
os cajueiros
os canhoeiros,
não vieram com suas silhuetas balouçantes
rodear o batuque?
Ah! na paisagem familiar,
os risos se tornaram brancos como mandioca
os requebros na dança traziam a febre primitiva
de batuques distantes,
e os vestidos brilhantes da civilização desapareceram
e os corpos surgiram, vitoriosos,
sambando e chispando,
dançando, dançando...

Os ritmos fraternos do samba,
trazendo o feitiço das macumbas,
o cavo bater das marimbas gemendo
lamentos despedaçados de escravo,
oh ritmos fraternos do samba quente da Baía!
Pegando fogo no sangue inflamável dos mulatos,
fazendo gingar os quadris dengosos das mulheres,
entornando sortilégio e loucura
nas pernas bailarinas dos negros...
Ritmos fraternos do samba,
herança de África que os negros levaram
no ventre sem sol dos navios negreiros,
e soltaram, carregados de algemas e saudade,
nas noites mornas do Cruzeiro do Sul!
Oh ritmos fraternos do samba,
acordando febres palustres no meu povo
embotado das doses do quinino europeu...
ritmos africanos do samba da Baía,
com maracas matraqueando compassos febris
— que é que a baiana tem, que é? —
violões tecendo sortilégios de xicuembos
e atabaques soando, secos, soando...
Oh ritmos fraternos do samba!
Acordando o meu povo adormecido à sombra dos imbondeiros
dizendo na sua linguagem encharcada de ritmos
que as correntes dos navios negreiros não morreram, não,
só mudaram de nome,
mas ainda continuam,
continuam,
oh ritmos fraternos do samba!


Noémia de Sousa

12.3.09

Chove insistentemente!




Chove insistentemente
com a persistência bruta
das coisas tropicais...

Jamais
consigo identificar-me com a chuva
nesta minha África abandonada.

Todo o instante é fugaz, é nada
perdido no oceano dos desejos
e ansiedades.

Possa a verdade
ainda um dia vir à tona da água
e sejamos nós, então, realidade
mesmo à custa da nossa mágoa.

Orlando de Albuquerque

9.3.09

A Rui de Noronha

Poder, Amigo
chamar-me irmão na tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor;

Ja que um destino diferente
e os anos,
Puseram longas, infinitas margens
entre as nossas vidas
afastadas...

Tu, lá no último Sonho
onde a verdade existe em cada um
como um sangue puro,
como uma lua natural.
E eu
ainda nesta luta
de viver
sofrendo
o mesmo mal.

Este malfeito destino
desde meus sonhos primeiros
de menino;
este mal de chorar sempre
a dor comum dos desgraçados
e ter lágrimas ainda
para os nossos sonhos
destroçados...

Esta mal
só mal para o mundo
a nossa única essência de viver
e contar
diversamente
a mesma eterna agonia...
Este mal que vem a ser
a poesia...

Deixa-me, pois, Amigo
(Diante qualquer noite deserta
em que o silêncio
e a sonolência de tudo
seja para nós
a única porta inteiramente aberta
e o nosso altar)
ficar contigo um só instante,
- apenas o bastante
para te Amar!

E poder, Amigo,
chamar-me irmão da tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor...


Victor Matos e Sá

8.3.09

Maternidade


A dor consciente da tua concepção
não cabe nos limites
atrofiados de todos os votos
do Mundo.
mas cresce
Embora inconsequente.

Ora somos profetas
de falasa boas novas,
distribuindo benesses
aos quatro ventos.

Entanto
permanecemos em concha
e subreptícios
velamos por nós mesmos
impávidos e surdos.

E cavalgamos no tempo
distantes.
De palavras surdas
arquitectamos o nosso mundo.
Batemo-nos, frenéticos,
e cairemos exaustos.


Armindo Caetano de Sousa

Vem contar-me o teu destino, irmão




Vem contar-me o teu destino, irmão.
Vem apontar-me no teu corpo
as revoltas
que o inimigo plantou.

Vem dizer-me: «Aqui
as minhas mãos foram esmagadas
porque defenderam a terra
que lhes pertencia.

«Aqui o meu corpo foi torturado
porque recusou curvar-se
ao invasor.

«Aqui a minha boca foi ferida
porque ousou cantar
a liberdade do meu povo.»

Vem contar-me o teu destino, irmão.
Vem dizer-me os sonhos de revolta
que tu e teus pais e teus avós
alimentaram
em silêncio
em noites sem sombras
próprias para amar.

Vem dizer-me esses sonhos feitos
guerra,
os heróis que já nasceram,
a terra reconquistada,
as mãos que enviaram
sem tremer
os seus filhos para a luta.

Vem contar-me tudo isto, irmão.
Eu depois vou construir palavras simples
Que mesmo as crianças compreendam,
que entrem em todas as casas como o vento,
que caiam como brasas
na alma do nosso povo.

Na nossa terra
as balas começam a florir.

Jorge Rebelo
Que fazer, Mãe?




Que fazer, Mãe?
das almas tremendamente destruídas
na podridão ignóbil
do sofrimento

Que fazer, Mãe
das totrturas terrivelmente particadas
sobre o corpo negro
do teu filho amado?

Que fazer, Mãe
dos insultos imundos
infamemente perpetrados
no coração d'África sensível?

Que fazer, Mãe
das violações selváticas
horrivelmente suportadas
pelas belas virgens, filhas tuas?

Que fazer, Mãe
de toda a baixeza humana
camuflada no civismo cínico
despejada no seu coração?

Armando Guebuza
Angelus dum menino negro



Os dong dong dos sinos
fogem assustados pelo verde.
os dong dong dos sinos
diluem-se pelo verde.
O ANJO DO SENHOR ANUNCIOU A MARIA...
E vejo o Zambeze a rezar
nas ondas frescas das águas.
Mamãe,
você me ensinou a responder
quando eu andava descalço
em cima das pedras
picando so pés,
trepando nas macieiras.
E CONCEBEU DO ESPÍRITO SANTO...
que quer dizer conceber?
Papai, você, tossiu,
engoliu um pedaço de pombe,
conceber é... é...
é isso, conceber é conceber.
Eu esqueci logo,
Spanela estava a tocar marimba,
peguei na gaita
saltei no muro,
onde estava estragado,
e a gente os odis, na esteira,
tocou toda a noite:
«Aiué, aiué,
Maria Treza zigutá
Aiué, aiué...»
Mamãe não gostava,
Maria Treza
era cantiga suja de preto,
falava de mulher
que dormia com todo gente, só sei que a gente gostava
«Aiué, aiué...»
EIS A ESCRAVA DO SENHOR...
Ah, isto eu sabia,
escravo
era como Luís
que foi preso no vapor para S. Tomé,
como campira
que ficava nu em chapa de zinco no sol,
escravo
era como Sabonete
que apanhou tanto palmatoada
que mão deitou sangue.
Aí, avó disse
que Mulungo era bom,
a gente ficava contente
de ser escravo d' Ele.
Então eu falei
com Álvaro e com Spanela,
a gente pensou, pensou,
depois àlvaro disse:
- Não, eu não quero ser escravo
Nem de Mulungo,
fizemos contrato
- Nunca ser escravo!
FAÇA-SE EM MIM SEGUNDO A VOSSA VONTADE...
isto sei, mesmo bem,
quando a gente se gosta
fica cheio de contente
quando faz o que outro quer.
Eu lembro Alice,
quando ela diz faz isto,
mesmo que seja carregar lata,
ou ir na mina
ganhar dinheiro e ficar doente,
mesmo isso,
basta ela dizer eu faço logo.
E fico contente, minha Mãe
parece que sou rola
e voo em cima de tudo, tenho tanta cor
como borboleta que anda no capim,
meu coração canta mais
que Chimaze no Carnaval,
eu gosto fazer vontade Alice.
O VERBO DIVINO SE FEZ HOMEM...
isto não compreendo,
sessór Condado
na aula diz:
«Verbo traduz acção.»
Verbo e amar,
partir, muitos mais.
Assim inda eu vejo,
amar está bem,
mas por exemplo, odiar
é verbo também
mas esse, eu não gosto.
Agora eu penso,
há verbos que são verbos
amar, comer, rir,
outros que não são
porque não podem ser;
são palavras feias
que gente grande devia pôr piripiri
quando se dissessem.
E HABITOU ENTRE NÓS...
habitar é ter casa,
como era casa d'Ele?
Eu penso que era pobre
tinha palhota na temba,
andava descalço como nós,
não tinha bicicleta, não,
mas às vezes eu posso me enganar!
E Ele tinha casa
como Sr. Intendente,
bicicleta como filho de Administrador
que nunca empresta a burra à gente.
Mas isso eu não acredito,
eu gosto de Jesus,
se Ele fosse muito rico
eu não queria gostar;
mas Spanele,
e Álvaro,
e eu,
a gente O convidar a jogar berlinde,
a atirar pedra ao rio,
pedra que salta muita vez;
Ele vem sempre,
anda com a gente
roubar ovo de crocodilo,
apanhar mangas na estrada de Boroma,
comer maçanita no Canhime.
Ele é como a gente
mas é filho de Mulungo,
e a gente brinca,
e há-de continuar a brincar
ali nas estrelas,
onde vive com a família,
nas estrelas a gente há-de brincar.

Sérgio Vieira

6.3.09

Lago Niassa


Era um lago um lago imenso
Um mar um mar a primeira
Vez que eu via o m ar

Ecordo o som entre redondo
E ensurdecedor das vagas
(Autênticas) rebentando
Na praia Recordo ainda
Recordo também a luz
Aquele sol vertical
Caindo caindo caindo
Pairando deixando em nós
A sensação de existirmos
Adormecidos despertos
Num mar morto mar vivíssimo
De calor calor calor

Metangula eis a terra
O nome do posto (era isto
Em 33 mais ou menos -
Lembras-te irmã mais velha?
Onde eu fui passar um mês
Paradisíaco à beira
Do lago Niassa onde vi
Onde tive a vez primeira
A sensação formidável
Da virginal maravilha
Do mar do mar que é meu pai
Minha mãe meu deus supremo
Meu filho irmão e amante
Minha pátria verdadeira
E meu túmulo se os deuse
Me renderem tão sublime
Prova do seu amor

Alberto Lacerda


dói-me estar na angústia desta gente que me povoa
e ter que quedar à terra os olhos
para que cada instante passe e pareça
o terminus ciclónico de uma avalanche de eternamentes
esse cada agora réstia no fundo salutar mói-me
questiono aos deuses os porquês da mesma hora

de cada minuto da eternidade de cada mísero segundo
tacteia-me a brisa dos séculos e quero ser brisa
sem tacto e despido de tempo e de origem
as manhãs seriam os oceanos plenos pela tarde
alcançaria os pólos nulos e ao anoitecer polvilharia
o sono dos meninos de sonhos numa aguarela em tons lilás

para os mais adultos a mesma paz embalada numa canção
de treva sem sexo por entre as estrias da insónia
ao mínimo sinal da alvorada azul marinha navegaria
avassalando a um certo hábito de desatenção aguardando
o óbito meu teu eu sóbria brisa ao sabor do tempo nosso
tu tempestade na algibeira de cada eterno segundo meu


Guita Jr.

4.3.09



Nuas feiticeiras
Do verão estão completamente escaldadas
Nuas feiticeiras,
Constam das trevas do etéreo
Suas faces já não brilham mais
Seus olhos já não sonham mais
Seus corpos bamboleiam e logo se desfazem
Nuas feiticeiras,
Fazem por enquanto da faça a sua graça
Já conhecemos!
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
São mesmo desgraças.
Nossas feiticeiras,
Constam das bíblias recentes inominadas
Fazem parte dos enigmas do presente encomendado
Oram sempre
Enjeitando se curvam de crentes
Em orações de versos torpes
São elas mesmas... Nuas feiticeiras!
Já conhecemos,
São mesmo desgraças!


Noé Filimão Massango
Poema



Longe da cidade:
braços decepados,
olhos vasados,
perdido,
perdido.

É outro o caminho,
é outro o destino.
Teu olhar ferido
jamais saberá
do caminho seguido...

A vereda nova
outros a talharam
enquanto dormias,
lagarto pintado
que ninguém pintou.

E quando acordaste
sem olhos nem mãos,
estavas perdido.


João Fonseca Amaral

2.3.09

Flamingo

FLAMINGO

O pescoço dobrou-se sobre
o corpo róseo

uma pata encolhida descansa noutra
transformada em estaca

o flamingo adormece em si o horizonte
como flor espetada no pântano


Júlio Carrilho
Desespero





Onde nada brilha
No alto da montanha
No sopé da montanha
Onde o grito impera
Sem garganta
Tornando opaco
O ar da montanha
Se o tivesse
A luz
Que já não tem -
Desde quando?

Onde nada brilha
Onde a parede impera
A porta
Sempre fechada
O abrupto
Abutre
Onde a treva se corta
Em talhadas
E sai um pus sem jus
Onde o cão não ladar
Por desprezo
Onde a criança e a teta
Não correm
Uma para a outra

Onde a onda não morre
Sumptuosa
Porque a praia não existe
E a água
Não chegou a nascer

Alberto Lacerda