26.2.09

Praia



O mar trouxe-me escombros,
Mastros, velas,
Farrapos de coisas belas,
Fantasias, assombros...

Tudo o mar me trouxe
Até uma lágrima de mulher
Guardada em desgastado relicário!

...........................................................

Vinde coisas corroídas,
Vinde à minha praia
Que eu vos esperarei alvoroçado.

João Fonseca Amaral

22.2.09

O que eu te diria




O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos
como há depois da música, nas flores,
e no começo da noite...

O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;
minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão
sem pertencerem.

O que eu te diria tem-te esperado muito.
Por isso te sabe de cor e te perco tanto;
e dos longos diálogos que é não chegares
vais morrendo, excessiva, de ti mesma.

Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos
olharás em mim o teu rosto com os olhos brancos,
como se olhasses tua morte mais pura.


Victor Matos e Sá

16.2.09


Foram 7 anos




Foram milhas de percurso
Limbo a limbo
Verso a verso
Na carestia com que se busca tal ousadia,
Foram 7 anos,
Milhas de percurso,
Verso a verso
Em Cada texto um rosto
Perdulários do nada mesmo
Viemos do nada
Do Ocidente não podemos...
Só de Matanato nossa terra natal
Em 7 anos!
Endividamos a nossa própria desgraça
E morreremos assim mesmo
Caiporas do além e do confim
Nossos barcos de papel,
Ainda temos de volta
Não aportamos em limbos
Porque sabemos onde vamos
Aqui, ali e acolá
Buscamos o retiro
Para mais um suspiro
Uuff!...
Foram 7 anos!
Em 7 anos
Quantas vezes depomos as faces irmão,
Ante miragem com que desfaleciam nossos sonhos?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Aquele sorriso fingido meu irmão?
Quantas vezes cruzava em seus olhos
Uma lágrima que desfalecia num arco íris?
Quantas vezes irmão? Em 7 anos!... Quantas vezes?
Foram 10 anos caramba!
Em 10 anos
Quantas vezes vergamos nossas pupilas meu irmão
Ante o brilho candente das nossas estrelas?
Quantas vezes enterramos nossos passos
Só porque construíam um mundo a lodo?
Quantas vezes irmão?... Quantas vezes?
Na ironia dos nossos versos!
Foram 7 anos!
9 anos?
Afinal quantos anos foram irmão?
7 anos
Encarnando em nós mesmos
A sinfonia das cigarras em cada solidão sofrida
O cantarolar húmido dos galos em cada amanhecer sentido
O grito inoportuno do nosso vizinho espinhado
Na nossa cidade extremamente violenta!
Foram 7 anos!
Em 7 anos,
Quantos espelhos deixaram de reflectir nas nossas faces?
Quanto brilho não vislumbrou na cor dos nossos cabelos?
Quantas bolsas não encaixaram nas bocas das nossas axilas
E quantas algas semeamos no jardim das nossas flores?
Quantos anos foram 7+7?
Na antítese dos nossos versos
Foram 7 anos irmão!
7 anos
Ao silêncio cru da luz que está por vir
Aos passos erráticos num ermo extremamente enfermo
Foram 7 anos
Ao paraíso onde o caipora nos trouxe o consolo
Mas 7 anos
Do sabor acre das palavras anatomopatológicas
Do doce da esperança que ainda está aí por vir
Mas 7 anos,
Do punho que já nos ergue irmão
Foram 7 anos
Mastigados pedra e cal
Ao sabor acre das nossas palavras sem sal
7 anos
E em cada sulco da vida que se abre irmão
Arrumaram-se os anos devagar,
Foram-se os versos irmão!
Foi se a nossa idade na ânsia
E hoje,
Estamos aqui
Do olhar já se juntam as cores
Na sombra da noite sobre as flores
Nenhuma pétala murcha nos mostram irmão
Nenhuma alga murcha nos mostram irmão
Quem não colherá de nós uma rosa?
Quem não colherá de nós uma esperança?
Foram 7 anos irmão!
7 anos!


Noé Filimão Massango

13.2.09

As Palavras

serenata+para+noiva+e+cabra+vermelha_roberto-chichorro.JPG (image)
[serenata+para+noiva+e+cabra+vermelha_roberto-chichorro.JPG]

Seguram desiguais o mesmo fio
que as trespassa – já foram
mais velhas, mais outras, precisas,
alheias, talvez, e voltaram, serão
vizinhas, repetem, parentes ou não,
não sabem: contêm.
São círculos d’água e o sonho
de um centro qualquer como rosa
ou nome de barco, anúncio, decreto
ou poema;
poema como o limiar do estio
numa voz, nuns lábios e sempre


Victor Matos e Sá



12.2.09


KAAP DIE GOEIE HOOP




Verdes vinhas de entre dois oceanos,
na lança antártica da rosa-dos-ventos,
ao limite extremo do Cabo Fim.
Luxuriento, o leito azul do Mostrengo

adormecido, ásperas, duras falésias
e abismos, fractura de altos sonhos
imperiais. Na lívida sepultura
da areia, perdido o Setestrelo,

o cego navegante deitou sortes
à Ventura relutante. Na escuma
do Tempo, oxidado e estrangeiro,

o timbre da voz remanescente. Erecta
lápide roída de sal e de remorso,
na bruma, só o Padrão é português.


Rui Knopfli
Joanesburgo




A solidão emprego ao galopar as cidades
desutilizo-a ao atravessar as ruas. O medo
nunca é o melhor dispositivo para decifrar
os estranhos e vagos nomes que as identificam.
Bastam-me as mãos nos bolsos para combater
o inesperado na esquina desconhecida.

Na Europa dizia-me amante das grandes cidades,
desafiava-as de peito aberto. Nem os atalhos
das prostitutas dos proxenetas e outros da espécie
me obrigavam a vestir os agasalhos do medo.

Tão longe de Lisboa, Madrid ou Londres.
Sem sair desta minha tão maternal África.
Assalta-me o medo da cidade. Eu que me
julguei urbano desde o minuto primeiro
que Maputo, com outro nome, de mim deu conta.

Nelson Saúte
Desde quando alguma vez anoiteceu



Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.


Reinaldo Ferreira


A gaivota



«Quantas vezes já viajei
à roda do mundo? Cinco?
Seis? Sete?
Sim, foram sete!
Fascinante vida
Fascinante aventura!
Agora estou velha
e doente.

No topo deste guindaste
na Ribeira
contemplo
quem sabe pela última
vez
a Ponte de D. Luís
e o Mosteiro da Serra
do Pilar.

Será este o meu último
sono? O sono da morte?»

Depois
quando acordou
ei-la voando
veloz sobre a Meia Laranja
a Cantareira e a Foz.
Ia em busca
do Grande-Mar-Oceano
para enfim descansar.


Papiniano Carlos



11.2.09

Motivo




Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.

(E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda...)

Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.

(E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra...)

Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.

(E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda...)


Glória de Sant'Anna

10.2.09

Música de fim de dia




Volto aos velhos livros de antigamente
no quarto comprido e vazio.
Com um silêncio sem estrelas
toco-lhes amargurado.
Para lá da poeira e da alteração
aparente
nem tudo está mudado.
A cadeira em que te sentavas
ali está, Rui Guerra. E tu onde estarás?
Não faço ideia. Tanto me ressoam
teus passos à cadência do boulevard
como ao pisar duro do planalto de Castela.
Não importam, este abandono e esta secura.
O sentido da vida anda por detrás
do eco das nossas palavras. Tu com ele.
(Outros tomam estupefacientes e emborracham-se
de cabotinismos.) Aqui um papel
amachucado com a tua letra:
Estudos para um ensaio de composição plástica dinâmica.
Além, outro do Lagarto-pintado (Onde andará ele?
Olhando o manso Tejo dos poetas?
Amando as prostitutas da rua do Mundo?)
É um poema para Eluard morto:
Deixem-lhe nos lábios
uma asa nervosa de cigarra...
Embora de vós nada saiba
e os livros, os papéis e as conversas,
sejam antigos como a adolescência,
não esqueço a história dos dedos
da mão. Nem vós.
Assim arrasto a minha inutilidade
e lembranças como feridas.
São o que de melhor tenho
com o sonho esboroado daquilo que não fui.
Morcegos desprendem-se dos telhados
com a chegada da noite.
Comovido,
no quarto comprido e vazio,
volto aos velhos livros de antigamente.


Rui Knopfli

6.2.09

A liturgia dos insanos



1. Por aqui somos de carne e sal,
ou mesmo, de sol nascente,
longe do estéril turbilhão da rua.

2.As palavras que nos revelam,
são de luz pura e de encantamento,
e mais ainda, o delírio incessante
que nos confessa o tépido bafejo da aurora.

Eusébio Sanjane


5.2.09


Ritmos do meu povo




Segui brechas sombrias de ritmos
sulcadas na mbila dum povo alegre
segui flautas, frémitos, pausas, silêncios...
timbres de vozes inchadas de vertigem
segui célere,
ritmos do meu povo
timbres de vozes isoladas
e no verso,
um povo cruzado em favos.

Segui brechas sombrias de ritmos
no instinto e na origem
timbres do meu povo
segui vísceras,
no ventre duma lágrima
ténue, e devagar...
Ritmos do meu povo

Segui brechas sombrias de ritmos
e nos escombros da vida dum solo
encontrei uma palavra,
encontrei uma penumbra
dum menino alegre colorido de lágrimas
com um tambor de nada ás costas
baquetas de ferro em punho e carnívoras
naquele menino da pátria feliz!
naquele menino feliz cruzado de sonhos!
naquele menino feliz pousado de canto e que canta!
Ritmos do meu povo,
segui brechas sombrias de ritmos.

Noé Filimão Massango

4.2.09



Escreva mãe
Escreva,
Porque hoje estilo,
Verso a verso
O estalo que me acontece ao acalho
Não me cale mãe,
Se é que encalho,
Deixe-me enxuto
Deixe-me sepulto
Neste poema que se instala
Emudecido em talco

Escreva,
Escreva mae,
Escreva,
São pássaros!
pássaros!
pássaros e não andorinhas
Que bicam o arroz feito dos seus filhos mãe
Cantarolando saciados da nossa desgraça
São pássaros!
E eles, já não são mais pássaros mãe
São passaredos parasitas!
Que dos quatro cantos do mundo
Nos inundam e cantam mãe
E do espaço que nunca lá estivemos
Voam, voam e voam
Depositam grão a grão
O purificado cereal dos seus bossudos ventres
Olha para eles mãe!
São pássaros!
pássaros!
No brio adestrado das suas asas
São pássaros mãe!
Quantos grilhões lhes prende sozinhos ao espaço?
Quantos grilhões lhes prende à liberdade dos pássaros?
E a nós mãe! No vazio das nossas negras mãos?

Noé Filimão Massango

2.2.09

No parque da cidade



O parque desce sob o meu olhar
instável desce para o lago
onde florescem latas de cerveja, folhas
e a névoa dos namorados.

À superficie das coisas o pó
aquietado da vida, a poalha dos impropérios
da castiça, o fumo do monte branco
a coroar, à hora da bica, a ave da juventude

que assobia canções combatentes.
Muita coisa começou assim, um punhal
a esmagar os sonhos, uma pedra a torcer
o primeiro amor contra o mundo.

Mais tarde, é sempre mais tarde, a morte
de amigos cuspiu de mim toda a cidade,
as ruelas que iam para o fontelo
escureceram também para sempre.

O silêncio, como o inferno, começa sempre
com os outros.


Fernando Luís Sampaio (1960)
Para os meus alunos



Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.


Victor Matos e Sá
Cooperação



Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
zero horas e coisa pouca
eu rasguei a minha certidão
enterrei a falsa filiação.
Passou a estar escrito
nas letras que te ensinei a ler
que a longa aula terminara
vencera a insubordinação
triunfara a minha razão,
e eu já tinha uma nação.
Em vinte e cinco de Junho
de mil novecentos e setenta e cinco
eu e tu mudamos o olhar
não te chamei mais meu senhor,
era dono da minha terra
já tinha uma nação.
Desculpa-me se, na euforia
onde rasguei a certidão
e bani o colonialismo
e esqueci a submissão
lamentavelmente, não me lembrei
de estender-te a minha mão...
É que
em vinte e cinco de Junho
quando ganhei a minha nação
esqueci-me que setenta e cinco
(ano de revolução)
era tempo de falarmos
em cooperação.
Eu dizer-te que já não eras
eterno senhor e patrão
(Precisavas dum convite
eu rasgara a certidão.
Em vinte e cinco de Junho
mil novecentos e setenta e cinco
a festa era só minha
minha e dos meus irmãos)
Hoje
longe a festa
- mas sem regresso à lição
queres abrir a porta que não viste e
como irmão, apertar a mesma mão
que soube rasgar a certidão?

José Alberto Sitoe

A terra tem túmulos a mais




Mas os teus olhos
Ressuscitam tudo

Tu e eu
Morreremos
De excesso de eternidade


Alberto de Lacerda