30.1.09




Louco é o meu desejo,
quando procuro o teu corpo,
e quando se funde ao meu,
Ilusão?
procuro-te,
quero-te como se quisesse tudo o que se ama,
e tudo é belo, perfeito,
chama minha, alimentada em imaginação,
olho o teu rosto em meu pensamento, teus olhos, tua boca...

toda a loucura se perde afago os teus cabelos,
respiro-te...
meu corpo são os restos desse teu cheiro,
cheiro, cheiro-te
entrego-me já vencida a esse desejo,
à minha ilusão.

Sónia Sultuane

25.1.09




Voltar a tocar-te,
será sentir-me viva, completa,
tornar a encontrar-me e a perder-me,
neste desejo que dói,
voltar a tocar-te será tocar-me profundamente,
perder-me e novamente encontrar-me.


Sónia Sultuane
Invenção de Eros



Fui procurar-te para ser contigo
quando colhi das horas que invadias.
Colhi da própria dor um nome amigo
que fosse o nome exacto em que virias.

Da límpida substância dos teus risos
fui-te inventando dentro dos meus braços
e os sóis mais densos puros e precisos
vieram dar-me a sombra dos teus passos.

E já não eram meus senão de erguê-los,
a tua face e os lábios e os cabelos
e o teu olhar para ninguém voltado.

Mas quem, o pleno amor de que nascias
se o deus que a ti igual encontrarias
ficou, pelo teu olhar, desabitado?


Victor Matos e Sá

22.1.09


Ao longe, a Vida





Agora eu sou a margem indiferente deste rio,
deste rio da Vida, que passa sem me ver...
Agora eu sou um desejo do esperado Fim,
um sonho que ficou por despertar,
uma lágrima apenas que jamais tardou
às chamadas da minha alma doente.
Eu sou o tédio,
O que ambicionou tudo o que não veio...
Eu sou o tédio, eu sou a morte... eu sou o frio...


Alberto Lacerda

11.1.09

Em redor das fogueiras

para o José Craveirinha

em redor das fogueiras
os planos se engendram nos ciscos
irónicos das faúlhas cada ponto luminoso
é uma hipótese indefinida
de um mistério a tentar-nos

firmados no apoio do terreiro
as cubatas fecundam o clamor da noite
reinventada
e o cacimbo é apenas uma antipática sensação
a remoer-nos os corpos transidos

mas a manhã é sempre o hálito da vitória das decisões e dos sobressaltos
o reflexo caudaloso
de uma eternidade rectificada


Heliodoro Baptista

Poema




Comprei o caminho por dois vinténs

(ai do homem chope
que compra caminho sem poder voltar)

No Rand as minas são escuras
densas de amargura

Os relâmpagos são chicotadas

Os desabamentos trovoadas

Têm um sugadouro de energia
um processo infalível de roubar a juventude

(ai do homem chope
que parte a caminho
sem direito a voltar)

Cada dia que corre alonga o regresso
cada mshao que chora é uma ferida que sangra sem estancar
e cada vez que pensa em escapar é uma semana na galeria sem sol

(ai do homem chope
que parte a caminho
e sabe que não vai voltar)

Fernando Ganhão

9.1.09



Sangue meu, meu sangue, ferve, ebule,
o meu corpo arrepiado, o meu ventre contorna-se,
o suor corre suavemente,
a minha boca seca,
as palavras, essas, perdem-se pelo espaço,
esse torna-se tão pequeno,
não consigo respirar,
o corpo está pregado,
não sei saber qual o passo a seguir,
não posso mais,
o pensamento pasmo e susto,
o desejo grande, profundo,
a vontade de chorar, a vontade de fugir,
de não repartir o mesmo espaço,
essa química de todos os sentidos,
fundidas em desespero completo,
perdi-me...


Sónia Sultuane


7.1.09

Paisagem africana



Em chamas de amarelo e rubro íntimos
inquietas deliram as flores de acácia

fofas e tépidas as dunas impudentes
imitam feminis curvas em consentimento

da terra solta-se o hálito escladantes
de sequisoas bocas em beijo interrompido

Verdes-escuras as folhas dos arvoredos
turvas pesam como um desejo insatisfeito

denas as florestas odorantes a húmus
respiram o ácido cheiro do suor de cópula

crestado o capim estremece compacto
como a epiderme ocorrida por um frémito

brutais os rios rasgam a carne das planícies
como soldados invasores às filhas dos vencidos

e à brutal excitação de um sol desumano
a terra de África abre a flor de duas pétalas rosáceas

Fernando Couto

Obrigações Poéticas




As pedras agonizam
Nas minhas mãos

Já nada resiste
às poéticas implicaçõe
Que me obrigam a dar vida
Aos objectos mais imprevistos
Que subitamente impressionados
Me cinturam
E me subjugam
E me libertam
As pedras agonizam
Nas minhas mãoes
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
As pedras agonizam
Nas minhas mãos
Porque nelas impunemente
Nelas apenas pontificava
Este silêncio inaudível
Mas palpável e dissolvente
Este silêncio amladiçoado
Gerações e geraçõe
De poetas e guerrilheiros
Que me partiram dolorosamente
Na lucidez plena
Deste império de solicitações

Oh as pedras agonizam
Nas minhas mãos
Para ressurgirem
Uma a uma reanimadas
No fluxo dialéctico
Da minha propria inspiração
E assim as domino e comprometo
Assim as devolvo comungadas
À mais poética intimidade

E as pedras oh camaradas

As pedras então se reacendem
Nas mãos de qualquer um

Rui Nogar


6.1.09


Elegia a mamana Isabel


MAMANA.jpg (image)
[MAMANA.jpg]
Que tinha 56 anos quando morreu António Caetano


Os jornais o disseram
morreu António Caetano
velhísisimo velho colono.
Lutou por Moçambique
no tempo do Gungunhana.
Lutou por Portugal
durante a Grande Guerra.
Lutou e venceu.
Só agora foi vencido: morreu.

Os jornais o disseram
mas eu sei ah! dolorosamente eu sei
quem morreu não foi ele
foi maman Isabel

quarente e dois anos à sombra
da modesta reforma
do velhíssimo velho colono
esboroaram-se naquele dia

quarenta e dois anos em que foram dois
dormindo comendo esperando
na frágil e velha cabana
do velhíssimo e velho colono
senhor António Caetano

quarenta e dois anos
de ajuda carinho compreensão

quarenta e dois anos
de luta desespero resignação

quarenta e dois anos
ah! quarenta e dois anos se foram
quando morreu António Caetano
velhíssimo velho colono.



Rui Nogar

Aqui nascemos


I

A terra onde nascemos
vem de longe
com o tempo

Nossos avós
nasceram
e viveram nesta terra
e como ervas de fina seiva
foram veias em corpo longo
fluído rubro perfume terrestre

Árvores e granitos erguidos

seus braços
abraçaram a terra
no trabalho quotidiano

e esculpindo as pedras férteis
do mundo a começar
em cores iniciaram
o grande desenho da vida

II

E foi também
aqui
que eu e tu nascemos

Terra quente
de sol nascente

Terra verda
de campos plenos

Terra meiga
de colo largo

foi a nós
que se entregou
cheia de vida
e amorosa ânsia

III

Crescemos embalados
no canto do chirico
e brotando assima a planície humana
tão fundo impulso germinou
ondas fecundas de cristal

E quando o vento
vergasta o firmamento

e a espada cai
e rasga os corpos
o horror tinge
a face crua

O nosso amor não treme

Esta é a terra
onde nascemos

seu sofrer
é a nossa dor

e a nuvem fel de agora
é momento doloros
que a chuva há-de secar

IV

Nossa terra é de esperança
aberta ao franco amplexo

Na esteira dos passos dados
vão brilhando círculos livres

e como irmãos mais novos
de um século mais velho
vamos levvando em largas mãoes
a herança dos nosso avós

e com folhas do coração
continuar a obra humana
o grande desenho da vida.


Marcelino dos Santos

4.1.09

Estranha Forma


Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta da pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas


Júlio Carrilho


Índico



Pálida e fria como uma estátua grega
a luz do sol me chama e me habita.
No sul sei que o silêncio passa devagar
por isso me perco no vento que me leva lá.
No sul ouço o dia brotar
e não em outro lugar.


Jall Sinth Hussein

3.1.09

Súplica


Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
- mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso...

E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

- Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:

Tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa

2.1.09

Cântico



Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.

E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.

E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.


Papiniano Carlos (1918)
Sangue negro


Ó minha África misteriosa, natural!
Minha virgem violentada!
Minha Mãe!...

Como eu andava há tanto desterrada
de ti, alheada, distante e egocêntrica
por estas ruas da cidade engravidadas de estrangeiros
Minha Mãe! Perdoa!


Como se eu pudesse viver assim,
desta maneira, eternamente,
ignorando a carícia, fraternalmente morna
do teu olhar… Meu princípio e meu fim…

Como se não existisse para além dos cinemas e cafés
a ansiedade dos teus horizontes estranhos,
por desvendar…
Como se nos teus matos cacimbados,
não cantassem em surdina a sua liberdade, as aves mais belas,
cujos nomes são mistérios ainda fechados!

Como se teus filhos
- régias estátuas sem par –
altivos, em bronze talhados,
endurecidos no lume infernal
do teu sol
causticante
tropical –
Como se teus filhos
intemerados, sofrendo,
lutando,
à terra amarrados
como escravo trabalhando, amando,
cantando,
meus irmãos não fossem!

- Ó minha Mãe África –
Magna pagã, escrava sensual
mística, sortílega,
à tua filha tresvairada,
Abre-te e perdoa!

Que a força da tua seiva vence tudo
e nada mais foi preciso que o feitiço impor
dos teus tantãs de guerra chamando,
dum-dum-dum-tam-tam-tam
dum-dum-dum-tam-tam-tam
para que eu vibrasse
para que eu gritasse
para que eu sentisse! – fundo no sangue da tua voz – Mãe!
E vencida reconhecesse os nossos erros
e regressasse à minha origem milenar…

Mãe! Minha mãe África,
das canções escravas ao luar,
Não posso, NÃO POSSO, renegar
o Sangue negro, o sague bábaro
que me legaste…
Porque em mim, em minha alma, em meus nervos, ele é mais
forte que tudo!

Eu vivo, eu sofro, eu rio,
através dele.
Mãe!...


Noémia de Sousa