6.12.09

Para Leinecy



E no dorso das manhãs, revela-se nua a tua face.
Pelas frestas entorna-se a claridade, para as tuas
mãos mestiças, e assim, silenciosamente, mulher,
esculpis em minha pupila encardida, os sabores morenos,
de dias azuis, que ainda hão-de vir...

E por momentos, somos a doçura, o fruto,
Ou ainda, o tão esmerado sonho...

E por momentos, conseguimos preencher todas as coisas
E todas as coisas são belas, quando nos amamos.

Eusébio Sanjane

25.11.09

Assim sou assim pau-pretam-me




I
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me
bem sabem como estou em todo o lado
aeroportos passeios galerias plásticos
nunca mudo nunca poderei mudar
sou corpo sou capulana sou sida
sou tradição sou mamana do imutável

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

II
sou filha do escopro de um dia qualquer
sou mercadoria fácil de todo o mundo
qualquer moeda me compra logo
patrão bom preço patrão compra barato
filhos produzo áfrica trago no ventre
sou o pilão sem rugas de qualquer foto
estou definitiva na sala de qualquer turista

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

III
nasço em cada dia numa consultoria
saio relatório de montes de cientistas
nos momentos mais solenes viro tese
e descrevem-me em meus hábitos ancestrais
e decoram-me com regras impolutas
e se de manhã acordo tradicional
é porque de pau-preto é a minha alma

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

IV
se visto tchuna não sou africana
se canto se pulo se ponho mecha
se saio uma só vez do pau-preto
de falsa vestem-me de europeia podam-me
e se por fim português falo e escrevo
é apenas graças à gentileza deste poema
porque eu josefina apenas sou natureza

refrão
sou josefina mulher-pau-preto
assim sou assim pau-pretam-me

Carlos Serra

Quando a pátria que é nossa



Quando a pátria que é nossa
É assim esgravatada e repilhada
Até aos limites do seu interior
Por gente nossa e despudorada

Quando a pátria que é nossa
É assim regateada ao preço da gula
E ganância, por gente que jurou
Defendê-la com bravura e valentia

Quando a pátria que é nossa
É assim extorquida e ameaçada
Por gente sem dó e auto-esconjurada
Que não olha a meios senão a fins

Quando a pátria que é nossa
É assim leiloada em praças obscuras
À taxa diária do sangue, suor e lágrimas
De milhões de braços, e uma só força
Por gente ilustre e de colarinho branco

Quando a pátria que é nossa
É assim assaltada pelos flancos da sua
Beleza e contornos da sua geografia
Por gente forasteira de si própria

Quando a pátria que é nossa
É assim deixada à deriva e ao relento
E à mercê dos párias do nosso maior
Descontentamento colectivo

Quando a pátria que é nossa
É assim atraiçoada por essa gente sem
Nome, que se aliança com mercadores
De insónias e arautos do caos e do mal
Em troca do fútil e do asco
Todo silêncio e todo exílio serão

Sempre iguais a pátria que é nossa!


Armando Artur


12.11.09

Poema para ti




Não me perguntes por que te amo
pergunta-me antes, por que não te amaria
e eu te responderei:
— Não te amaria, se não houvesse em ti
este sol por despertar, esta sede por matar,
e esta interminável doçura que te habita.

Eu já te amava e te adorava
antes mesmo da invenção da palavra.

Creio que não sabes,
mas tu és esta chama fria
esperando ser encarnada
na alma...És este sentir
que constrói mundos
e move corações...

Não me perguntes por que te amo
pergunta-me sim, o quanto te amo
e eu te responderei:
— Não existe palavra tão intensa
em que caibas completamente, pois tu és
este vazio ainda por preencher, o qual não se
basta nunca...

Sabes,
por vezes um simples olhar teu
desperta um lento fogo em mim
que sem demora enche-me de atrasos
e logo sei o quanto estás distante...
Mas não te preocupes
que em meu olhar
ainda reluzem as tuas pegadas
denunciando-te sob o horizonte...

Eusébio Sanjane

10.11.09

Desgraça meu lóbrego destino



[Este é um caminho minado
e nele alguém tem que andar,
Para que se perpetue o mutilado]

Mau agouro, desgraça, negrura, negregura, naufrágio...
questão de opção
Neste meu módico dicionário ou palavras do dicionário à espreita
Isto não é fole de ferreiro!

Oh! Deus que me deixas ladrar à lua
Nestes dias martelados a ferro frio,
Nesta terra que mal me nasceste
E me empandeiraste na lonjura que de envolta
Um lôbrego destino, sabe
Isto não é fole de ferreiro

À discrição me deixas verter pranto
Nadando neste mar seco
Sem levar estas águas ao seu vento
E além enchendo de naufrágio
Este bandulho desalentado
E dia a dia,
Ruminando um póstero acorrentado,
Sabe, isto não é fole de ferreiro!

Oh! mãe que na caveira de burro me nasceste
E sem lume nos olhos
Me tornaste este verbo de encher
A marcar passo sem eira nem beira,
Que molejo me criaste mãe?
Neste relento à vela andando
Isto não é fole de ferreiro

Olha mãe, saiba que a vida continua,
será que num fole sonho renascer desta crónica
E não volto mais à vaca fria?
Isto não é fole de ferreiro mãe!


Noé Filimão Massango

13.10.09

Tão longe o esquecimento, tão perto a lembrança



Partiste e,
somente eu sei,
tudo que te dei
e tudo aquilo que não recebi.

Partiste e,
o que encontras nesses caminhos
feitos de espinhos onde te magoas?
Sangue, charcos, ou algas?
O que sentes, alegria, felicidade,
ou somente dor? Vá diga-me!

As noites aqui
são cada vez mais duras
mas não temas, esquiva-te das minhas lágrimas,
não te firas com a minha dor, que seria inútil.

Eusébio Sanjane

6.10.09



Visto a selva,
No primeiro caminho da paisagem
não sei da matação sobre o vale
Nem do segredo das árvores galopantes
No vento sobre o dia
De verde urgente, no tal de presente,
Busco o luar em plena madrugada e acompanho,
Atravesso os rios de orvalho no inverno
à Busca dum segundo caminho no poente
E um segredo na descida acometida
Sobre o vento, galopante na monção.
O segundo me assesta o assento
Sobre o caminho do terceiro
Quando atravesso a foz do rio,
Verde,
Na selvajaria do asfalto Virgem
E me agacho,
No quarto,
Em maré de extensão
Na onda estreita da vegetação.


Noé Filimão Massango

21.9.09

Este nosso país



Dentro das cinzas ainda quentes
ardem pequenos lumes na calma subjectiva da noite.
Não se apagou a fogueira por sono dos homens
mas porque da unidade conhecida partem caminhos
abertos aos passos para o preciso destino. A lembrança daí
e das revoltas cilindradas junta forças no punho das armas.
E quando rebentam disparos na surpresa da opressão
há sangue vivo nas veias inchadas para derramar
pelo sacrifício previsto. São poucos mas destros
os braços que dizem a razão dos feridos rasgos
de milhões de corpos acorrentados. São largos silêncios
translúcidos e tensos avançando palavras mínimas suficientes
em resposta fértil aos gritos da esperança humilhada
calados na verdade ressequida que pranto escondido
pode fazer subir das raízes a seiva de florir.
Passa o tempo bárbaro corroído entre a essência do combate
e a retaguarda cumprindo a sua vontade clandestina
e a tortura sofrida que destrói lábios selados na recusa.
Olhos mãos baionetas fúrias brutas violam sistematicamente
a inocência de crianças e a fertilidade dos ventres maternos
de um Povo negado. O cultivo de algodão para fábricas de fora
onde o irmão operário ignora o mísero camponês que o semeia
permanente curvatura de dorsos acumulando trabalho forçado
e riqueza de bancas multinacionais que paga genocídios
e altos exercícios logísticos e polícias secretas competentes.
A cultura original afeiçoada pelo riso lúbrico burguês
e pela tactura de gordos dedos do turismo financeiro.
Das esteiras fome doença letargo decretadas preguiça
erguidas à ordem-chicote de ficarem solenemente de pé
para cantarem hinos ao poder da ocupação estrangeira
filtrados através do não inútil ódio de gargantas secas.
No heroísmo de tudo atrás e agora e adiante a vibrátil
certeza de vitória consciente. E o fim completo conseguido
para quinhentos anos de morte e revivência. A grandeza do Povo
crescendo igual nas duras conquistas revolucionárias
que aprendemos com a luta das frentes. Este nosso País.

Orlando Mendes

6.9.09





Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua
Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
Terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem
Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!
Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas
Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e Cl[amor] do nosso povo
Minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
Nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
Zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
Apague
É a podridão do nosso povo, não é?
Fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre
Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem
Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
Suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado
Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
Aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
E iluminaram as noites de Nkaringanas
Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
Perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
Oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís
Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também
Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... He, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!

Noé Filimão Massango

4.9.09

O teu riso



Antes a morte,
que perder o instante em que sorris.

Não me negues
o milagre que inventas,
a rosa que de súbito
brota da tua alegria.

Regresso por vezes com as mãos
vazias, o corpo dormente,
o sol já não morre, o mar
já não preenche infinitos caminhos,
mas logo tu sorris,
e tudo regressa a sua mansa ordem,
o mar que secara,
ressurge dos teus lábios,
o tempo que me atravessava como
um espada afiada, é agora
o meu único refugio.

O teu riso, meu pão,
sustenta os caminhos há muito estancados
que me guiavam ao teu colo... Escuta,
o rio, as algas, o vento,
que eu escutei um murmúrio
e entendi o teu riso,
essa porta que para mim
se abre.

Eusébio Sanjane

19.8.09

Azul e vermelho



Em azul morrerei um dia
envolto em ramos de tamarindos...
Azul como azul do meu azul,
serenamente...
Vermelho como o vermelho do meu vermelho
ardente...

Figueiras da índia da «Ilha dos Galegos»
dizei-me:
que contam das ondas à beira-mar?...

Azul dos olhos das sereias,
que emprestam às vagas
a cor...
Vermelho como o desejo flamejante
do sol-pôr...

Orlando de Albuquerque

12.8.09

Assassinando a saudade



Há quanto tempo, amor
não te sentas no sofá
diante do ecrã
para deliciar
os versos meus
que com todo
o carinho
concebi
só para te amar
há quanto tempo, amor
não me espreitas
navegando aqui
contigo
por ti e para ti...
Ah!
Há quem defenda
um desaparecimento
momentâneo
para criar
saudade
e quando esse
instante passa
há um prazer
enorme
em assassinar
a saudade...
Não sei se acredito
nisso,
mas cá estou
assassinando
lentamente
a saudade.

Domi Chirongo

2.8.09


Meninos do outono?




Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

Gritam puerís
Ainda em primaveras de pombas
ninguém cála seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Pelas manhas,
Se espalham as grotas do silêncio
Que drenam ao mar,
Suas emoções ocultas diluidas

Ode ao verão
Aquem se despeja e se limpa o suor
Daqueles homens cheios de torpor!
Gritam homens do stéreo
Aos quatro passos do vento
Gritam homens do stéreo
Aos quatro tempos da poesia

No inverno
Sacodem suas gangas caregadas de orvalho
Embalam suas cangas homens de sóbrio
ninguém escuta seus passos,
Suas rimas e seus encantos
Mas gritam homens do stéreo
não serão estes os meninos do outono?

Noé Filimão Massango
Liberdade



Hoje obrigo-me a qualquer coisa mais
que seria indefinida se a dissesse textualmente.
Por isso pode parecer que jogo com palavras
quando apenas as quero escrever doutra maneira
repensadas com o coração sobre o lume delas.
Desprendo-me de mim como no acto conjunto
do parto em que a mulher toda se dói
e o filho lança o grito de vida para o mundo.
Descubro a nossa terra inteira que circundo
devolvida à luz natural independente da meteorologia
eu urgente milionésimo corpo integrado
de súbito sem idade a semear pão comum.
A cada companheiro respirando pergunto
que génese nos une o sangue e os músculos
e milhares de olhos respondem liberdade
de nos pertencermos trabalhadores iguais
compondo canções ao ritmo da ferramenta
aquela qualquer coisa que hoje me obriga mais
e seria indefinida se a dissesse textualmente
no silêncio das noites que o poeta já não inventa
e antecipam madrugadas fraternais sem disfarce
onde a burguesia dorme ainda comodidade
com as persianas hermeticamente fechadas
e o rádio portátil na mesinha de cabeceira
para ouvir o primeiro serviço de notícias sul-africano
confortáveis ao estômago-memória pelo resto
da manhã que sempre lhes foi tempo descansado.

Orlando Mendes,
País emerso, caderno 2, 1976

Um lugar no meu coração



1. Choras...
Por vezes até morres,
e afundas em teu fosso de orgulhosa cólera,
até que nada te reste, senão, um instante,
um só, em que amaste sem medo, que te entregaste
sem corpo, sem alma, que foste mulher.

2.Nas noites frias e duras,
o traço forte da loucura irrompe
pela vidraça das tuas janelas,
embaçadas, sujas, e ofusca o brilho
de tudo, e até mesmo o teu, e permaneces
assim, no teu fosso de silêncio, silenciada...

3.E ai, eu também choro,
que amar é partilhar,
E ai, eu também sofro,
que amar é esperar,

4.Sei somente, que um dia,
teus olhos despertarão, coloridos,
e acredite, meu amor, não haverá
uma manhã sequer, que negra
não assuma o teu esplendor,
uma manhã em que não sorrias,
é isto que eu te ofereço:
— Um lugar no meu coração!

Eusébio Sanjane

21.7.09

Respiração



Na estrada vida que se define
e se joga segundo a segundo
pelo contido tempo de cabine
e pensamento que percorre mundo
à justa medida de cada qual.
Secretos são os caminhos ambíguos
cruzados entre o bem e o mal.
Escuto inconfessos rogos: ligo-os.
O pensamento rasteja. Delira.
Só. Asa metralhadora incendeia
sombras de medo. Mordemos a ira
no asfalto. Com dentes em cadeia.

Orlando Mendes

16.7.09

???Dúvidas I???




1. De quem é a arma que embala o medo da criança órfã que vagueia pelas ruas frias do nosso remorso?

2. Por que há tantos atalhos para a tristeza
e tão poucos caminhos para a felicidade?

3. Por que se mede o mundo
mas não as tristezas?

4. Como conseguiram os homens
descobrir o abismo da maldade,
e desconhecem a escadaria da bondade?

5. Por que não extraem o ouro do sol os homens?

6. Quantas bíblias há no céu?

7. Por que os grandes aviões não fazem ninhos? E quem já os viu ensinarem os seus filhos a voar?

8. É verdade que a dor se deve regar com lágrimas para a felicidade florir?

9. Como entenderão a minha poesia aqueles que jamais sentirão o meu sangue?

10. Se Deus está em todos os cantos por que olham para o céu os homens?

11. Se quando morremos vamos ao paraíso por que preferimos antes o inferno?

12. O que dizem sobre a morte os abutres?


Eusébio Sanjane

14.7.09

As palavras



Lina,
distante dezanove dias de água,
milhas marítimas que só a lembrança vence,
teus desvanecidos traços tento definir
pois de ti só possuo, intensamente, a imagem
de um lenço branco, acenando no cais.

Assim, te completo com as quase delidas faces
dos companheiros de infância,
verdes rostos moldáveis na memória,
e os gestos e os moldes e as falas
de todos os que, vivos ou mortos, se cerro os olhos
vejo e ouço...
Deste modo, escuto ainda
o trilo de flauta que,
no recôncavo da mata à beira do córrego,
pastorzinho negro ingenuamente improvisava,
a restolhada bravia dos dedos longos do vento
lascivamente despenteando a margem verde dos canaviais
— e vejo as barbudas figueiras bravas de ao pé do pomar
onde, nas tardes de Verão, a cega-rega das cigarras
nos ficava zunindo nos ouvidos.

E os rouxinóis...
Não, não e não!
Só sei dar a tudo, coisas vivas ou inanimadas,
aves, folguedos, frutos, instrumentos, localidades,
os saborosos nomes que juntos aprendemos, e não outros:
bokota, shikumbela, timbila, Zavala,
pois, só assim, poderei evocar
com as palavras mesmas que no alvoroço da descoberta
à boca nos acudiam

(Lina, Lina, uma gala-gala naquela mafurreira!)
as nossas «grandes e terríveis aventuras».

Quando um dia, amiga, com doces termos
tivermos baptizado, escrito pela primeira vez
o nome de bichos e aves, rios e ruas,
gentes e gestos, danças e doces, frutos e factos
e os quisermos preservar na Arca-de-Noé da Poesia
será mais rico o colorido do nosso canto
pois nós, gémeos no amor da transfiguração,
pegando numa irisada palavra
a voltearmos nas mãos como precioso diamante
ou como irmã mais nova
já que do ventre da nossa mãe a recebemos.

Fonseca Amaral

6.7.09

Para esta Fogueira de Letras



Vem, das estradas longínquas da minha terra
Vem, das estradas do mar, do céu e do infinito
Vem, célere cruzando
As inúmeras vigas dos tempos e dos espaços
Na diversidade de terras e dos tempos que nos barra
Vem, falemos só uma lingua

Vem, das ruas claras das cidades
Na respiração pura das acácias e micaias da minha
terra
Vem, da vegetação densa dos cactos
Das matas que eternizam a nossa máxima plenitude
Vem, das valas que sulcaram impunes nossa terra,
Drenaram nossa esperança, mas vem

Traga os ventos que morrem impregnados na ânsia
Traga também os tempos cravados na lápide
Traga consigo os destroços inesquecíveis do verbo
E do verso que já se desfaz em clamor
Vem,
Ganhem forma os ventos!

Na calada da noite ou com sol ardente
Vem,
Surja poeta como lua subtil
E ilumine nossas mentes à volta desta fogueira
Traga na memória dos tempos
A dócil palavra dos povos
O canto perene das almas

Vem,
Traga os destroços do meu país por aí recalcados
Na imensa vegetação de versos
Traga da espuma homogênea do índico
A poesia e o clamor de África, traga meu irmão!
Traga do meu Índico sedento
A maresia que nos incha as almas de vertigem
Traga, meu irmão, traga
Quem exaltará a dor e cl(amor) do nosso povo
minguado?
Quem exaltará o peito habitado de Tchopo
Ritmo que dançavamos á roda a madrugada na
nossa terra?
Quem exaltará no peito,
Ngalanga que retumbava ao entardecer na nossa
zona?
Aquela ngalanga que tocavas e evocava Duma Ka Zulu se lembra?
Quem exaltará nos sonhos
Nossa casa possessa do espirito Ndaw?
E a nossa timbila de zavala
Que tocava e dançavamos ao ritmo chope, então?
Canta nesta fogueira seu povo
Conte sua história nesta fogueira antes que se
apague
É a podridão do nosso povo, não é?
fale,
Fale então da podridão dos negros
Á falacia com que se inventa um sorriso
Quando se inicia uma história, uma lenda, um conto...
Então, Conte!
Cada história um povo
Cada verso um rosto
Cada voz um timbre

Nesta brasa de letras que se esfuma a poesia
Traga essa chama que a alma atea
Nesta fogueira da alma que ao texto ilumina
Traga o verso e nada mais
Na calada da noite,
Ou com o sol ardente, vem

Traga a voz que dilacera os conceitos
Traga a força apocaliptica do verso comprimida em
suas mãos
Traga de tudo que nos é consentido saber
A poesia será o doce orvalho
Que nos delicia delicadamente as almas
A cada verso que se liberta do seu peito pulmonado

Para esta fogueira,
Traga aquela melodia subtil
Com que os corvos pacientaram as noites cegando
aquelas melodias, com que as cigaras cantaram
e iluminaram as noites de Nkaringanas

Nkulukumba,
Desça tatana dos céus relampejando
Solte na sua luz um pedaço de tempo que já
perdemos
Fale da inocência dos versos de ontem e de hoje
oprimidos
Do folclore do nosso povo escaldado
Tatana tatana,
Há homens que incendiaram nossa palhota de preces
Homens que no arminho recalcaram pedra
Há homens que no charuto tostaram uma palavra
Então, traga a semente
Que germinará a casa e árvore poética dos puerís

Tatana tatana,
Desça macumba das nossas mínguas e soluços
E nos aponte com destreza mesmo ofídica
Que aquele oficio é poesia
Que aquele minguado é poeta
Com os versos guardados no seu bolso só para ele!
Traga tatana esse poeta
Traga da cabeceira os sonhos desse poeta
As lágrimas dum poeta pingados na pedra
Traga dos escombros também um verso
Da palavra uma míngua, do verso um amor
Da poesia as almas
Dê-me esse trago agora tatana
Antes que o vento maldito nos apague
Nossa fogueira de lenha
Quero dizer um poema também
Quero contar uma história também

Traga também seu xiphefo tatana
Que ilumina estrelas aqui cintilando
Tantas cobertas de neve que não as vejo
Traga tatana depressa
Tio mbalele quer dizer seu poema
Tio Mbalele quer contar sua história
Tio Mbalele quer cantar
Traga tatana traga ... Eh, já começou!
-Nkaringana wankaringana!
-Nkaringana wankaringana!


Noé Filimão Massango

2.7.09

A última marrabenta



Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos

Quando o chão
estiver bem longe
terei sonhado
bem alto
e quando
o sorriso
forçar tua mão
a pousar em mim
estaremos no altar, baby
no altar
marrabentando o palco
como nunca o
fizemos,
quando o chão
estiver bem longe
a felicidade
será a dois
e depois o futuro
outro choro
reprodução
de nós mesmos.

Domi Chirongo

1.7.09

Passagem de nível



Amigos, algo de grave
Se passa na ferrovia,
O maquinista que trave
A nossa composição.
João-bandeirinha sabe
Mas onde é que está João?
Vamos todos procurar
João ao longo da linha

Por terra e pelo ar,
Cem mil olhos-noite-e-dia.
Que sem João-bandeirinha
Vivo a mal ou a bem,
Não há via livre nem
Código de ferrovia.


Orlando Mendes
Véspera confiada, 1968

27.6.09

Pedra Imortal
(Alma)



As pedras
romperam
o silêncio.

Radioactivo
o movimento
radioactiva-se
de amor.

Hoje
o pó
espargiu-se em ternuras.

Somos alma.

Calane da Silva

21.6.09

Índicos Caminhos



Os caminhos
são teus
na lonjura destes
passos.

As palavras e metáforas
são às vezes minhas
rimadas de íntimos
cansaços.

As flores do Índico
são nossas
pétalas do mar
insubmissas...


Calane da Silva
Pedra perene
(Vida)



Na pedra
finge-se
um silêncio
inquieto.

Aglutinados
somos pó e fantasia
luz e sonhos
palpitando loucuras.

Somos vida.

Calane da Silva
Espaço e frase



Este espaço
em que se vai edificando a Sociedade Nova
não se mede geometricamente aumenta
com o crescimento real da nossa capacidade
como a semente batida pelo sol de Novembro
depois da mínima chuva caída
germina e rompe a necessária fenda
emerge da terra enfim sensível
ergue-se árvore pujante que dá flor
e anuncia os primeiros frutos maduros
devidos a uma tão antiga fome de justiça.
Esta fase
desde a lavra até à sementeira
desde a sementeira até à colheira
é o ansiado tempo de livre respiração dos corpos inteiros;
não para dizer quase
não para dizer mais ou menos
mas para o conjunto de todas as idades
na voz única de milhões proclamar
certeza.

Orlando Mendes,
Produção com que aprendo, 1978

Cinco horas da manhã




São cinco horas da manhã
Para Maria pilando
Debaixo do cajueiro
E o noivo de Maria Colimando a machamba
E pensando no Transval.

São cinco horas da manhã
Para uma velha negra
Abanando o fogareiro
E assando maçaroca
Milho bom! Eh! Milho bom!
Numa voz desnecessária.

São cinco horas da manhã
No bazar de piripiri
Manga, coco e mulala
E tetas nuas vertendo
Leite tão branco e puro
Como o leite secretado
Por outras tetas mais púdicas.

São cinco horas da manhã
Nas cartas por escrever
Dos chibalos sonolentos
E nas mãos que dão à terra
A semente sem passado.

São cinco horas da manhã
No coração confiante
Das mulheres que pariram
E em versos de sangue e nervos
Que latejam o futuro.

Num canto livre e bravio
Das aves da minha terra
São cinco horas da manhã.

Mesmo com nuvens, espessas
Toldando a luz do sol
São cinco horas da manhã.

E até no desespero
De não aceitar o dia
São cinco horas da manhã
Da manhã que irrompe
Com alvorada ou não
Da noite de incubação.

São cinco horas da manhã
Do Rovuma à Ponta do Ouro
São, na coragem que temos
Para sabermos que são.

Orlando Mendes

20.6.09

Povo-força


Intelectuais revolucionários erguei
o punho direito saudando os que são
proletários, com eles sois também a grei
nestas novas trincheiras da libertação.
Todos unidos cresceremos Povo-força
que na História se forja e assume.
Não há quem ferro-frio quebre ou torça
mas os ferreiros moldam-no ao lume.

Orlando Mendes
Produção com que aprendo, 1978

19.6.09

Encontro



A esta praia cheguei um dia
Na primeira viagem da emigração
E tu negro me espreitavas a medo
De peito nu e azagaia na mão
E olhos de infância antiga
Onde rolaram séculos iguais
Quando ainda não tinhas o segredo
De conhecer o poeta que já eras
Entre diálogos em noites propícias
Com deuses e demónios sem idade
E ventres gerando sem fadiga
A vida que ao futuro se devia
E não deixou ficar notícias
E florestas e feras
Cumprindo ciclos vitais
E o apelo milenário do húmus
Que até mim não veio
Para a teoria dos rumos
E anúncios de tempo novo
Para a história de um povo.

E a teu fado alheio
Na aventura e na saudade
Cantei e reparti então
Da Europa solícitos versos
À terra que descobria
E no meu peito de poeta
Bateram os corações eleitos
Que viram os sonhos desfeitos
E acharam mais fé
E nas minhas veias
Correu o sangue
Dos que verteram nas areias
E morreram de pé
E no meu corpo exangue
Sofri a sede completa
Dos que beberam a água si
Onde andavam dispersos
Corpúsculos de alvorada
E ergueram os braços
Que eram pulsos latejando
E sonharam passos
Parados na agonia
E não morreram quando
A morte apetecia.

Hoje quatrocentos anos depois
Pode a Voz trair-te e trair-me
Na lembrança das angústias originais
Mas havemos de nos encontrar
Vivos e verticais
Na estrada larga
Que abrimos os dois
Eu que vim do Mar europeu
E enraizei meu destino em chão firme
E tu poeta negro que nunca foste ao Mar
E à Mãe-Terra pertences como eu
E à Mãe-Terra pediremos que nos tome
Inteiros para sermos da mesma Raça
E lado a lado cantaremos a mesma alegria
E sofreremos a mesma dor no mesmo luto
E comeremos o pão que engana a mesma fome
E beberemos pela mesma taça
O vinho que embriaga e amarga
E semearemos a semente do mesmo fruto


Orlando Mendes


18.6.09

Mormaço



Tarde riscada de formigas voadoras
para uma voraz geometria de bocotas e chivauvaus
assim espessa de mormaço e tremulinas
quase helénica
— se as tardes gregas fossem húmidas
como esta.
Nítidas
três cigarras em uma barbuda figueira brava
perto
febris de malária ou doutro mal lá delas
fretenem metálicas e verrumantes
— enquanto no peito vegetal de encephalartos horridus
entre verdes puas aceradas
um coração de acendido fogo
pulsa e — desmedidamente — cresce.

Quedou-se assim o tempo
tolhendo com as mãos ambas o discorrer do dia
decidido a conservar este xivito
tão de mim e tanta coisa...

Fonseca Amaral

14.6.09

(Des)Entendimento



Para quê
entender
as mulheres
se podemos
viver com elas
sem as entender?
Calma
coração de psicólogo
a vida na verdade
nem sempre
necessita de análise,
é só seguir
os sentimentos.

Domi Chirongo

4.6.09

Há um homem



1.Há um homem em cada
noite, que se multiplica em suadas mãos
para esmerar um corpo amado.

2.Há um homem
que se dissolve em suspiros
e queda fatigado nos teus braços
a cada noite, mulher!

3. E no oficio árduo das madrugadas
nasce um homem, um homem novo,
um homem de mil e uma auroras
assim como se plagiasse o resplandecer
dos teus olhos, mulher,
para cravar os astros de prazer.

4. Há um homem, mulher,
um homem que sou,
um homem que nasço,
somente quando te amo.

Eusébio Sanjane

2.6.09

Chimâmi



Sempre que eu recorde a casa à beira-mar da infância,
surgem-me teus olhos meios de xipeia ferida,
aguados de humildade,
constantes como um remorso.

Lembras-te, minha amiga da palhota do Guachene?

Nos meus braços egoístas de dona,
uma boneca sorria sempre, com seus olhos verdes de gato.
E nos teus braços sempre vazios, Chimâmi,
só ternura imensa insaciada,
ternura verdadeira de mãe.
Teus olhos meigos de xipeia ferida,
com seu eterno brilho de resignação,
afagavam muito, longamente, quase com desespero,
a minha linda boneca loira.

Lembras-te?

Depois, era Natal
e o meu vestido de seda, aos folhos,
era uma das glórias do dia.

E o fogãozinho lindo que Papá deu
e o anel de ouro que Padrinho trouxe,
e os sapatos brancos que Mamã ofereceu?
E os bolos, o arroz-doce,
e o leitão assado,
e as flores na mesa branca da sala de jantar?
Natal, Chimâmi, hoje é dia de Natal!
Tu foste à missa como eu,
foste à missa Chimâmi?

Chimâmi não foi à missa, não
nem deve saber que hoje é dia de Natal,
porque não vestiu vestido de folhos,
vestiu hoje o mesmo vestido de riscado de todos os dias,
roto e velho, comprado no monhé do bazar.
E veio descalça, sem presente nem nada.
Só com os seus grandes olhos meigos de xipeia ferida,
no rosto luzidio, espetado o pescoço magro e longo.

Ah Chimâmi naquele dia,
tu partilhaste do meu Natal.
E todos os Natais após, continuas a partilhá-los.

Mas agora? Agora?
Quem vai apagar essa lágrima permanente
do teu olhar de xipeia ferida,
constante como um remorso, teu olhar
que dói para além de qualquer comparação?
Ah Chimâmi, minha Chimâmi!


Noémia de Sousa

26.5.09

Recordação



O rosto erecto
Dá a impressão de inclinado
Por certa graça esplendente
De nobreza

Rio lindo chama pura
Aparição convergida
Pelos astros espantosos
Deixas-me o corpo o teu corpo
E o desenho da tua alma
Nas minhas mãos escultoras
Deixas-me a voz essa voz
Que guarda vozes no fundo

Dos seus véus de maravilha
Deixas-me véus maravilhas
A confiança na vida
E dois lábios esmagados
Insuportáveis felizes

Alberto Lacerda

17.5.09

Eu vou partir



Eu vou partir Não indiques
A ninguém a maravilha
De partir assim sem nada
Sem sequer uma saudade

Eu vou partir Sou o vento
E não propriamente um homem
Por isso não sei chorar
A ausência nos meus dedos
Dos teus cabelos do fogo
Dos teus olhos dos teus dedos
da tua voz dos teus lábios
Eu vou partir Vou sem lábios
Vou sem voz sem nenhuns dedos
Vou sem oplhos nem cabelos
Eu vou partir Sou o vento
Antigamente era um homem
Vou inteiramente só

Alberto Lacerda

7.5.09

Não posso dizer adeus


Ao poeta Armando Artur.


Todas as manhãs invento um novo motivo
para permanecer, enquanto lá fora
cruéis as aves me ensinam a partir.
Não posso dizer adeus. Aqui as noites
são menos gélidas, e as madrugadas, cálidas
embalam o meu medo de me aventurar.

Não posso dizer adeus. Nunca ninguém
me ensinou o seu real sentido, mas se este
é realmente o teu desejo, eu irei, sem no entanto,
provar a dor da despida, pois não posso dizer adeus.
O olhar, volvendo compungido, atrás,
meu porto de partida e chegada jaz, fulmina-se
também o calor da primeira habitação.

Em meu peito, tudo está gasto, menos o silencio.
Enfio a mão na algibeira do casaco, e já não
encontro tudo aquilo que outrora tínhamos
um para o outro.

Eusébio Sanjane


6.5.09

Colono

à memória de João Luís do Amaral

Quase perdida a memória das frias águas
escorrendo pelas encostas
bíblico fitavas esta chuva
estes ventos
estas árvores de grandes sombras.

Os caminhos da juventude entre Douro e Minho
a casa velha a quinta dos invernos
— tudo palavras de um livro arrumado na estante
que (para o manter vivo)
de longe em longe passava pelos olhos.

Pão levedado de erros e grandezas
aos dentes da vida te deste inteiro
enquanto a cidade nascia sob os teus pés
crescia
e as raízes da rotina milímetro por milímetro
se iam afundando.

Partiste
sem te despedires
para a licença ilimitada mais definitiva
mas entre Chamanculo e Xipamanine
o chão que pisaste
retém teu nome para sempre.

Fonseca Amaral

4.5.09


Deixa passar o meu povo




Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
— certos e constantes —
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harlem.
«Let my people go»
— oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo —,
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul
e não são doces vozes de embalo.
«Let my people go».

Nervosamente,
sento-me à mesa e escrevo...
(Dentro de mim,
deixa passar o meu povo,
«oh let my people go...»)
E já não sou mais que instrumento
do meu sangue em turbilhão
com Marian me ajudando
com sua voz profunda — minha Irmã.

Escrevo...
Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar.
Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado
e revoltas, dores, humilhações,
tatuando de negro o virgem papel branco.
E Paulo, que não conheço
mas é do mesmo sangue da mesma seiva amada de Moçambique,
e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças,
algodoais, e meu inesquecível companheiro branco,
e Zé — meu irrião — e Saul,
e tu, Amigo de doce olhar azul,
pegando na minha mão e me obrigando a escrever
com o fel que me vem da revolta.
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho lumírioso do rádio
— «let my people go».
oh let my people go.

E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e os meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Marian gritando comigo:
«Let my people go»
OH DEIXA PASSAR O MEU POVO.

Noémia de Sousa
Súplica



Cá entre nós
isto já não é
mais amor
não considero
que seja amor
a mim me parece
mais clamor
sim, sabe a clamor
bem floreado
e um destino
que se mantém.

Domi Chirongo

27.4.09

Nascimento



As frases bonitas
quando encontram
os actos
maravilhosos
nasce o amor.

Domi Chirongo

9.4.09

Poema da infância distante


ao Rui Guerra

Quando eu nasci na grande casa à beira-mar,
era meio-dia e o sol brilhava sobre o Indico.
aivotas pairavam, brancas, doidas de azul,
Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda
arrastando as redes pejadas.
Na ponte, os gritos dos negros dos botes
chamando as mamanas amolecidas de calor,
de trouxa à cabeça e garotos ranhosos às costas
— soavam com um ar longínquo,
longínquo e suspenso na neblina do silêncio.
E nos degraus escaldantes,
mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas.

Quando eu nasci...
— Eu sei que o ar estava calmo, repousado
e o sol brilhava sobre o mar.
No meio desta calma fui lançada ao mundo,
já com meu estigma.
E chorei e gritei, nem sem porquê.
Ah, mas pela vida fora,
minhas lágrimas secaram ao lume da revolta,
E o sol nunca mais me brilhou como nos dias primeiros
da minha existência,
embora o cenário brilhante e marfim da minha infância,
constantemente calmo como um pântano,
tenha sido quem gritou meus passos de adolescente,
— meu estigma, também.
Mais, mais ainda: meus heterogéneos companheiros de infância.

Ah, meus companheiros, acocorados na roda maravilhada
e boquiaberta Karingana wa Karingana
das histórias da cocuana do Maputo,
em crepúsculos negros e terríveis de tempestade
(o vento uivando no telhado de zinco,
o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda
e casarinas gemendo, gemendo,
oh consolavelmente gemendo,
acordando medos estranhos, inexplicáveis
nas nossas almas cheias de xitucumulucumbas, desdentadas
e reis Massingas virados gibóias...)
Ah, meus companheiros semearam esta insatisfação
dia a dia mais insatisfeita.
Eles me encheram a infância do sol que brilhou
no dia em que nasci.
Com a sua camaradagem luminosa, impensada,
sua alegria radiante,
seu entusiasmo explosivo diante
de qualquer papagaio de papel feito asa
no céu dum azul multicor,
sua lealdade em código, sempre pronta,
— eles encheram minha infância arrapazada
de felicidade e aventuras inesquecíveis.

Se hoje o sol não brilha como no dia
em que nasci, na grande casa
à beira-mar do Índico,
não me devo adormecer na escuridão.
Meus companheiros me são seguros guias
na minha rota através da vida tornada túnel.
Eles me provaram que "fraternidade" não é mera palavra bonita
escrita a negro no dicionário da estante:
Meus companheiros de pescarias
por debaixo da ponte,
com anzol de alfinete e linha de guita,
meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças,
companheiros nas brincadeiras e correrias
pelos matos e praias da Catembe,
unidos todos na maravilhosa descoberta dum ninho de tutas,
na construção duma armadilha com nembo,
na caça às gala-galas, e beija-flores,
nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão...
— Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada,
solta e feliz:
meninos negros e mulatos, brancos e indianos,
filhos de mainato, do padeiro,
do negro do bote, do carpinteiro,
vindos da miséria do Guachene
ou das casas de madeira dos pescadores,
meninos mimados do posto,
ai meninos frescalhotes dos guarda-fïscais da Esquadrilha;
— irmanados todos na aventura sempre nova
dos assaltos aos cajueiros das machambas,
no segredo das maçalas mais doces,
companheiros na inquieta sensação do mistério
da «Ilha dos navios perdidos»
— onde nenhum brado fica sem eco.

Ensinaram-me que "fraternidade" é um sentimento belo,
e -possível,
mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante
são tão diferentes.

Por isso eu CREIO que um dia
o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Indico.
Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul
e os pescadores voltarão cantando,
navegando sobre a tarde ténue.
E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias
em noites de tambor e batuque
deixará para sempre de me inquietar.

Um dia, .
o sol inundará a vida.
E terá como que nova infância raiando para todos...


Noémia de Sousa

7.4.09

Quando



Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,

sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.


Victor Matos e Sá

6.4.09


Renúncia



Deixei enfim de pedir
Eternidade ao amor

Aceito o ritmo sem ritmo
Que há por dentro desse ritmo
Que não se vê não se ouve
Mas eu sinto deslumbrado
Quando os teus olhos acendem
Os corredores da noite

Alberto Lacerda
Não há lua no céu




1.Letárgico o rio deflui
silencioso dentro de uma noite afável,
E vagando pelo cosmo
vai tecendo estrelas-marinhas
pelas dóceis nuvens, que são também
de agua imaculada, e resguardam as profunduras
da tranquilidade, que somente os anjos desfrutam.

2.Pela janela quebrada
do meu quarto, vislumbro
o plenilúnio romper, e quedar
ensombrando a monocromática paisagem
de arvoredos tímidos, e de cores fugidas.

3.Nas calçadas frias, os dedos pedintes
dos meninos reluzem, trepidantes
remendam sonhos havidos, de um áureo
alvorecer.


Eusébio Sanjane

2.4.09

Nudez



As lágrimas
Deixaram rastros molhados
E depois partiram para Além;

Os sentimentos
Fizeram-se em pó,
Que o vento dispersou por aí;

As minhas ânsias loiras
Calçaram as sandálias de viajante
E partiram para longe

Oh! todos estes ingratos fugitivos
Me deixaram assim nu
No Grande Cruzamento!

João Fonseca Amaral
Declaração



Quando essa
tua fase
passar
estarei
ainda aqui
preparado
para te amar
eternamente.

Domi Chirongo

19.3.09

Sobre o vento noroeste



Sobre o vento noroeste
galopam negros cavalos
de longas e soltas crinas
perdidas na noite escura.

Saltam ladrões ao caminho
dos homens desprevenidos
e anavalham corações
sobre o vento noroeste.

Choram meninos perdidos
em velhas encruzilhadas,
enquanto pelas estradas
galopam negros cavalos.

E em desespero nocturno
os cavaleiros de fumo
se agarram desesperados
às suas longas e soltas crinas.

Porque o vento noroeste
vai deixando pelos campos,
pelos prados, pelos vales,
lamentos desesperados
dos cavaleiros perdidos
em raivas e desesperos
sobre o vento noroeste.

Orlando de Albuquerque
Para um velho rapsodo



Canta, Muringana, canta,
na noite comprida do Chamanculo:
Ai, o Xivito que eu tenho,
a minha impala não veio hoje beber.
Kina, Kina, Kina
W psala nwana, Muringana,
W psala nwana!
A muchem te roeu o coração
e fez dele um monte de areia seca,
uma casa na solidão.
Kina, Kina até ao cansaço,
à copa das árvores até às raízes.
Bailando voas, bailando te afundas,
o chão dos mais engeitas.
Nesse ventre de homem um filho se gerou
- é o Xivito que te aperta o peito,
rouba o fôlego e entontece.
Ê - lê - lê - lê! Faz tremer o chão
Com raiva e os pés.
Chocalha esses guizos dos artelhos,
iradamente dança, ê - lê - lê - lê!
A azagaia da morte não te apanhará desprevenido.
Quando a Grande Caçadora por ti vier,
tu, em pleno salto,
morrerás no ar como so pássaros mais altivos,
Muringana, Muringana.


Fonseca Amaral

18.3.09

Samba




No oco salão de baile
cheio das luzes fictícias da civilização
dos risos amarelos
dos vestidos pintados
das carapinhas desfrizadas da civilização,
o súbito bater da bateria do jazz
soou como um grito de libertação,
como uma lança rasgando o papel celofane das composturas forçadas.

Depois,
veio o som grave do violão
a juntar-lhevo quente latejar das noites
de mil ânsias de Mãe-África,
e veio o saxofone
e o piano
e as .marocas matraqueando ritmos de batuque,
e todo o salão deixou a hipocrisia das composturas encomendadas
e vibrou.
Vibrou!

As luzes fictícias deixaram de existir.
E quem foi que disse que não era o luar dos shigom belas,
aquela luz suave e quente que se derramou no salão?
Quem disse que as palmeiras e os coqueiros,
os cajueiros
os canhoeiros,
não vieram com suas silhuetas balouçantes
rodear o batuque?
Ah! na paisagem familiar,
os risos se tornaram brancos como mandioca
os requebros na dança traziam a febre primitiva
de batuques distantes,
e os vestidos brilhantes da civilização desapareceram
e os corpos surgiram, vitoriosos,
sambando e chispando,
dançando, dançando...

Os ritmos fraternos do samba,
trazendo o feitiço das macumbas,
o cavo bater das marimbas gemendo
lamentos despedaçados de escravo,
oh ritmos fraternos do samba quente da Baía!
Pegando fogo no sangue inflamável dos mulatos,
fazendo gingar os quadris dengosos das mulheres,
entornando sortilégio e loucura
nas pernas bailarinas dos negros...
Ritmos fraternos do samba,
herança de África que os negros levaram
no ventre sem sol dos navios negreiros,
e soltaram, carregados de algemas e saudade,
nas noites mornas do Cruzeiro do Sul!
Oh ritmos fraternos do samba,
acordando febres palustres no meu povo
embotado das doses do quinino europeu...
ritmos africanos do samba da Baía,
com maracas matraqueando compassos febris
— que é que a baiana tem, que é? —
violões tecendo sortilégios de xicuembos
e atabaques soando, secos, soando...
Oh ritmos fraternos do samba!
Acordando o meu povo adormecido à sombra dos imbondeiros
dizendo na sua linguagem encharcada de ritmos
que as correntes dos navios negreiros não morreram, não,
só mudaram de nome,
mas ainda continuam,
continuam,
oh ritmos fraternos do samba!


Noémia de Sousa

12.3.09

Chove insistentemente!




Chove insistentemente
com a persistência bruta
das coisas tropicais...

Jamais
consigo identificar-me com a chuva
nesta minha África abandonada.

Todo o instante é fugaz, é nada
perdido no oceano dos desejos
e ansiedades.

Possa a verdade
ainda um dia vir à tona da água
e sejamos nós, então, realidade
mesmo à custa da nossa mágoa.

Orlando de Albuquerque

9.3.09

A Rui de Noronha

Poder, Amigo
chamar-me irmão na tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor;

Ja que um destino diferente
e os anos,
Puseram longas, infinitas margens
entre as nossas vidas
afastadas...

Tu, lá no último Sonho
onde a verdade existe em cada um
como um sangue puro,
como uma lua natural.
E eu
ainda nesta luta
de viver
sofrendo
o mesmo mal.

Este malfeito destino
desde meus sonhos primeiros
de menino;
este mal de chorar sempre
a dor comum dos desgraçados
e ter lágrimas ainda
para os nossos sonhos
destroçados...

Esta mal
só mal para o mundo
a nossa única essência de viver
e contar
diversamente
a mesma eterna agonia...
Este mal que vem a ser
a poesia...

Deixa-me, pois, Amigo
(Diante qualquer noite deserta
em que o silêncio
e a sonolência de tudo
seja para nós
a única porta inteiramente aberta
e o nosso altar)
ficar contigo um só instante,
- apenas o bastante
para te Amar!

E poder, Amigo,
chamar-me irmão da tua dor
já que não o posso ser
na mesma cor...


Victor Matos e Sá