29.11.08


Sem Título



O pêndulo entre a doçura e o sangue
balança entre a criação
e a morte.
E os monstros marinhos despertam
e povoam ter corpo interior
de dragões...
Na noite confundidas com as estrelas
cintilam palavras
que aguardam teus vorazes dentes
e teus beijos perversos.

Virgílio de Lemos

27.11.08

Não faz mal



Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.



Eduardo White



24.11.08


Casquinha


Ilha de Bazaruto


Um vulto emerso na casquinha
tem asas de pau a equilibrar o tronco
como cintura numa dança de água
vasado tronco de árvore a nadar
Se um sobressalto de ar lhe enfuna o
pensamento
a concha de tecido apressa-o
na onda a respigar

Júlio Carrilho

23.11.08

Na praia da Catembe

CATEMBE - areal da praia_resize.jpg


Diz Carlos:
Que existe meu irmão
atrás daquele muro de pedra
que se avista da velha praia da Catembe?
Que existe
escondido dos olhos dos barcos que chegam
tão secreto que se deva ocultar
atrás daquela parede alta cheia de mistério?
Alonga a vista
e fura a parede de pedra que barra o horizonte.
Que vês?
Que sente tua alma?
Que fogo te abrasa?
Oh, mas diz
diz irmão
o que existe atrás daquele muro.
Di-lo em voz alta para os outros ouvirem
que eu já estou farto de o saber…


Albino Magaia

20.11.08

Mensagem da Machava




I

tudo ganhou novos ângulos novas luzes
é mais volátil é mais livre o voo das aves

flores lilases nos gostos mais simples

o amor é tão fácil como o sorriso das crianças
o amor é tão puro como o sémen das chamas

ah sinto-me estrada fertilizando
milhões de passos ao nosso encontro

II

reparem camaradas na minha ausência
como ela se povoa de novas estradas

as palavras são mais precisas reinventadas

servem todas uma a uma
as distâncias que nos separam

e apesar das grades dos cães-polícias
sinto-me cada vez mais perto de vós.


Rui Nogar

17.11.08

MAR


Imenso e plano como um campo raso
em tuas águas se condena sem julgamento
e só te ouves a ti próprio.

O teu orgulho tem o poder de um deus
que perdeu o encanto que não redime já.


Jall Sinth Hussein

15.11.08


As coisas importantes


As coisas importantes só olhas uma vez
mas sua imagem se repete muitas vezes dentro de ti
como um eco.

As coisas importantes que estão dentro de ti
e se repetem constantemente
já não estão presas ao que olhaste atento
mas no silêncio que tens dentro
se libertaram e tornaram incertas.

As coisas importantes no teu dentro
só já a ti pertencem
e nada do que está fora de ti as lembra agora.

As coisas importantes metes numa caixa
que com paciência vais abrindo aos poucos
para esqueceres as muralhas de outro tempo.


Jall Sinth Hussein

9.11.08

Respigos

Ilha de Moçambique, praia


Descidos os degraus da fantasia
de lá dos píncaros do dirigir
olhar distante a desbravar os sonhos
um vale de pudores a desfingir

de cada patamar os grãos de mágoa
escoam a estender-se num remanso
uma praia de pedras a marcar
saber de experiência em que descanso

esse descanso vai valer coragem
gelar temores conservar a calma
nos nervos a boiar em mil mensagens

Há ironias no amansar da alma:
o embarcar na cor d'outra miragem
o fresco ressoar de velhas palmas

O caos que variou a nossa margem
e abriu-a em curvas para o mar ingente
trouxe-nos mil abraços e chantagem
e cacos de vidro na areia ardente

São tantas enseadas que interagem
tão funda a introspecção e o olhar dolente
que a guerra quando se abre na paisagem
capricha no ferir que se consente
É neste variar de realidades
no calar de desgostos e verdades
que a gente amadurece o seu olhar

E no saber mestiço de vontades
os ódios se travestem de irmandade
e as armas se transferem p'ro bazar

Há uma nave de ontem encalhada
no recife da nossa independência
retém-se na saudade decantada
que a História apressa com impaciência

As pedras enegrecem na toada
que o vento lança com sua incidência
um riquexó prostrado na calçada
esvai-se na tortura da abstinência

Nos ares moles do amplo amanhecer
nas paredes de ócios a escorrer
jamais ressoam mandos de alvorada

Há muita cerimónia por fazer
nos quartos sombrios do entardecer
para tirar do encalhe a nau cambada
Adormecido nos blocos das ameias
que denteiam a linha do horizonte
o tempo espera erguer-se um novo trono
que a era dos odores de desdém
nas raízes de uma imensa mangueira
se retêm

Ninguém sonda o horizonte
ninguém meneia a cabeça
porque o transe é um ficar
ficar de costas para a terra
a repetir o mar
todas as noites
as manhãs inteiras
As pedras olham-nos
nas brisas a varrer detritos
com uma música a elas me ligando
com elas me deixando em harmonia
A parada dos dias só nos vem
da terra
numa vela a varar o fosso azul:
guarda-a um cântico com braços leves
deste novo ócio a desenhar
labirintos de gente acantonada
a Sul

Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta de pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas

Dói sempre a indiferença
Face ao pedido de palavra
Das ruínas.
Mas doíam também as diferenças
Com que elas dividiam
Nossas sinas


Júlio Carrilho

7.11.08


Deixar tudo e partir


deixar tudo e partir

e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir

e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte


Guita Jr.

5.11.08


Nós os de rosto demorado como o dos velhos
nós com o peso de um deus amordaçado sobre os ombros
nós que olhamos as coisas e as choramos
e que somos semelhantes a uma promessa perdida
não dobraremos perante a mais pequena pressa.


Jall Sinth Hussein


4.11.08


Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.

Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.

E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.

Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.


Eduardo White