24.10.08


No confrade ranger de dentes



vagueio pelas predilecções mais próximas
ocorre-me neptuno e não transito
para além do simples significante
assim sendo mais próximo estou de saturno
mesmo sem acesso a todos os seus deuses
como os meninos do Gilé

antes de se abrir o sol pela manhã
mergulho incólume na brisa matutina
e torna-se-me dever saborear a comédia da morte
e nas garras negras de cada flagrante devo
desmentir a dor por turnos e constante
a todos os meninos do Gilé

o conformismo ou a dignidade violentada
anulam as provas que seriam para depois
e sem tumulto três de cada um de nós
vão em serapilheira desnudos a enterrar
sem nada que se ore nem canções nativas
pelos meninos do Gilé

agora sem credo zomola patarão
extingue-me também esta pele e ossos
a mente não permite que me dissolva no espaço
o tempo apagará o remorso teu c’uma salva
de palmas e kanimambos muitos – não
dos também teus anónimos meninos do Gilé


Guita Jr.

21.10.08

ILHA DE MOÇAMBIQUE 1972



As ruas desertas cheias de vento
como um deus as paredes enormes do forte assistindo a tudo
a areia longa e lisa e a timidez do mar
a língua perdida como ruínas
na mão o cavalo-marinho e os sonhos
o tempo sem chegada e sem partida
assim haveria de ser mais tarde a minha vida


Jall Sinth Hussein

19.10.08

Tangerinas em redor de minha vida



Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.


Jall Sinth Hussein


17.10.08


A Palavra



A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.

A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.

A palavra madura é espectáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.

A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.

A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.

Eduardo White

16.10.08

Descolonizámos o Land-Rover

Land Rover- The Go Anywher Vehicle Magnet

Já não é carro cobrador de impostos
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo.
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.
- Descolonizámos o Land-Rover
Com nossos produtos
Comprámos combustível que consome
Com nossa inteligência
Consertámos avarias que surgem
Com nossa luta
Transformámos em amigo este inimigo.
Nós, descolonizadores
Libertámos o Land-Rover
Porque também ficou independente, afinal
Transformaram-se os objectivos que servia
E hoje é militante mecânico
Um desviado reeducado
Uma prostituta reconvertida em nossa companheira.
Descolonizámo-la e com ela casámos
E não haverá divórcio.
De Tete a Cabo Delgado
Do Niassa a Gaza
Da sede provincial ao círculo
Este jeep saúda quando passa
O caterpillar, seu irmão
Outro descolonizado fazedor de estradas
E cruza-se com o Berliet atarefado
Ex-pisador de minas
Eles aprenderam com a G-3
Menina vanguardista na mudança de rumo
A primeira a saber e a gostar
A diferença antagónica
Entre a carícia libertadora das nossas mãos
e o aperto sufocante e opressor do inimigo que servia.
As mãos dos operários que o fabricam
são iguais às mãos dos operários da nossa terra.
Essas mãos inglesas que o criam
Um dia saberão que ajudaram a fazer a revolução
e vão levantar o punho fechado da solidariedade.
Ruge este militante nas picadas da Zambézia
Galga as difíceis estradas de Sofala
Passa pelos pomares de Manica
Pelo milho de Gaza
Pelas palmeiras de Inhambane
Na cidade do Maputo descansa.
Transporta pelo país os olhos dos estrangeiros amigos
que querem conhecer de perto a nossa Revolução
- Descolonizámos uma arma do inimigo
Descolonizámos o Land-Rover!
Aquelas quatro rodas de um motor potente
Aquela cabine dos mecanismos de comando
Aquelas linhas da carroçaria irmanadas ao medo
Já não afugentam o povo:
Homens, Mulheres e Crianças do campo
fazendo sinal ao condutor, pedem boleia.
Nós descolonizámos o Land-Rover
Por isso o povo já não foge.

Albino Magaia

14.10.08


Inquietação


Pela noite clara
busco a palavra
cujo limite
seja verdade.

Por esta hora
procuro a causa
do que é tão válido
que ninguém sabe.

Mas a resposta
mantem-se oculta.
A noite é morta
e inúmera.

Glória de Sant'Anna



EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.


Reinaldo Ferreira

12.10.08

Marrabenta para Fanny Mpfumo

ao Zé Flávio Teixeira

Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.

Nelson Saúte

4.10.08

Eu Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira

3.10.08

Maré vazante

Ilha - Gentes e costumes XXXI

Só a tensão feminina sabe avaliar
os gostos que se guardam na maré vazante
nos trilhos invisíveis
pontuando o manto multicolorido de algas
tatuando areias.

Não há temores à espreita
nem monstros que se atrevam
a impedir o brilho das cipreias.
É o maravilhoso a desvendar-se
no afastar das águas;
O pátio de recreio devolvido
alarga-se pelo areal da praia
tanto quanto diminui o marulhar das ondas
contra o paredão desarrumado
a resguardar as aulas.
Papagueantes

Os meninos recitam "a Clarinha e as pombas"
com um pesado silêncio de palmatória
em fundo.


Júlio Carrilho