24.8.08




Já tão cansada desta vida pergunto-me como será a outra?
mais tranquila, mais segura?
dormente a minha parece estar,
olho a volta onde estou?
que mundo será este?
se não tivesse vivido o que vivi e o que sofri,
quem seria eu?
onde iria buscar toda esta vontade de correr,
os meus dedos que querem escrever, e tanto,
sou louca ou infantil?
ou por momentos deixo correr o meu pensamento,
e mostro ao mundo, o que me consome aos poucos,
a muitos aflige aos que dizem ser eu criança, insegura, imatura!
o que tanto escrevo?
deprimo-me,
deixem-me ...
deixem-me viver no meu mundo,
tornar falas todas as palavras ,
deixem-me no meu mundo doce e infantil, mas meu.


Sónia Sultuane


Segundo poema da alienação


Dai-me o que de mim resta
para que, incompleto,
me perca na contemplação
do tempo por encontrar
da viagem por percorrer
Dai-me a estrela ardente
a picada sem destino
a luz mortiça
desvendando o alfabeto
convoquem todas as crianças
e encham-se de rostos
as janelas das escolas
Devolvam-me ao corpo ferido
de onde se escoou o sangue
de um companheiro fardado
Em redor da sombra
ergam-se paredes de claridade
estilhace-se em mil pedaços
o meu nome, minha palavra
para que na transpiração dos corpos
o poema produza
e se reconstrua
como veia que reencontra o corpo.


Mia Couto

20.8.08


Velho Colono


Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E, nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rindo tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.


Rui Knopfli

19.8.08

Venceremos


A última coisa que vi foi nada.
Logo a seguir às labaredas foi nada o que vi então
Com um grande silêncio espantíssimo por cima de nada
E um cheiro queimado de carne
Que vinha de dentro do peito para a boca.

Agora estou só nos ouvidos e na língua vagarosa
Eu que só pensava dentro dos olhos penso mal na língua
E o mundo inteiro é muito pouco agora
E tudo quanto está chegando aos meus ouvidos é pouco.

Não poderei fazer mais a mesma tarefa
Mas a Luta continua pois é independente de um homem só
E haverá outra tarefa para dois ouvidos e uma língua.
Venceremos.


Mutimati Barnabé João



17.8.08




Tenho as entranhas em dor,
a alma oprimida, dilacerada,
o pensamento em quase tudo perdido,
como estou?
será que estou?
estranho!
As entranhas convulsam,
na dor que tenho, essa onde será mesmo que está?
onde será mesmo que dói?
o pensamento longe, o coração a simular-se, desligado de mim,
a alma quer partir,
quer alcançar algo,
só ela é que sabe bem o quê e o porquê,
chamo-a mas ela é mais forte, quer partir,
ao encontro de algo perdido,
páro o pensamento, mas já o tenho bem longe,
estranho...
será que volta?


Sónia Sultuane



14.8.08

Sexo

Ilha - Gentes e costumes XXXXIX

Da tarde que se apressa
emerge o sexo
cantando exótico ao luar sincero
um apelo irresistível apregoa
molhes de juventude
aonde qualquer idade desembarca
com palavras curvas
com esmero


Júlio Carrilho


Que de nós dois


Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.


Reinaldo Ferreira


11.8.08

Povo no mato


Entre Kaúle e Mapapaia vi um elefante abrindo o trilho
Mais depressa que a máquina de destronca
Este elefante estava no trilho da sua conveniência
Mas não estava na linha correcta da Frente de Libertação.

Quando o Povo mandar na sua terra
Vai haver Instrução Política para elefante abrir trilhos correctos
O Povo vai ensinar o elefante a utilizar esta força toda
O Povo vai aprender que o elefante não é só marfim e carne
E digo o elefante, a goma, o búfalo, a zebra, o leão mesmo
E digo o bicho pequeno, porco-espinho e rato e gafanhoto.
O Povo vai utilizar com a cabeça o animal bravo
De muitas maneiras diferentes e todas boas
E nenhuma para estragar mais, todas para pôr melhor.

Vai usar a boa armadilha antiga que não espanta a caça
Vai respeitar a cria e a fêmea cheia
Vai dizer ao animal bravo grande e pequeno:
Xô bicho camarada, vai para a fila da Produção com cabeça.

Há unia Verdade Simples aqui:
O animal bravo nasceu e vive nesta terra dele e nossa
O Homem do Campo não é bicho do mato. E Rural.
O Animal Bravo é Moçambicano. Respeito. Este é o Povo do Mato.


Mutimati Barnabé João



10.8.08


A fome que te tenho, descontrolada,
de te ter, o de te possuir,
o meu corpo, fogo... ardendo, queimando,
torna-se num imenso doloroso, num profundo,
os meus olhos vagueiam, olho-te,
o meu pensamento voa,
os lábios incham, a face dói,
a língua esculpida na tua, toca-te, engole-te,
o meu corpo procura-te para o arrepiar,
do sangue fervendo,
esta fome insaciável,
o leve,
o leve deste papel onde agora te sinto
sem o peso que é isso.

Sangue meu, meu sangue, ferve, ebule,
o meu corpo arrepiado, o meu ventre contorna-se,
o suor corre suavemente,
a minha boca seca,
as palavras, essas, perdem-se pelo espaço,
esse torna-se tão pequeno,
não consigo respirar,
o corpo esta pregado,
não sei saber qual o passo a seguir,
não posso mais,
o pensamento pasmo e susto,
o desejo grande, profundo,
a vontade de chorar, a vontade de fugir,
de não repartir o mesmo espaço,
essa química de todos os sentidos,
fundidas em desespero completo,
perdi-me...



Sónia Sultuane



Lourenço Marques Revisited


A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda

A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos


Alberto de Lacerda



4.8.08

O Vento na Produção


O vento é de ninguém e não custa dinheiro
O vento tem muita força, tem direcção só, não tem cabeça
O vento está à espera da cabeça do Povo para pensar.

Com uma faca e um machado o Povo vai fazer já
Mil e mil e mil armadilhas no vento
Vai apanhar o vento todo e dar-lhe Instrução de Treino
Vai pôr o vento na Produção
Vai convencer o vento a fazer força útil
Não vai prender o vento para o matar fechado
Vai ensinar o vento na canção da Liberdade Vigilante.

O camarada pescador sabe do vento todo
Faz a sua pequena armadilha a todos os ventos
Com um pau prumo e outro deitado que anda à roda
E entre os dois põe a vela de pano de esteira ou plástico
Para apanhar o vento malandro naquela rede tapada.

O camarada camponês vai aprender esta lição
Vai arranjar uma mecânica de pau e machado
Vai pôr quatro paus andando à roda
Do pau prumo deitado de face ao vento.
Com quatro velas de quatro sacas para encher de vento
Vai levar o vento e fazer força em redondo
Vai levar a força redonda até ao pilão de pedra
Vai pôr a força redonda em força aos saltos iguais

Vai pôr os saltos na bomba de água, no gerador
Vai pôr o vento a girar no gera Alegria.

Vamos aprender do Vento e de todos.
Vamos pôr o Vento na Produção.


Mutimati Barnabé João

3.8.08


Como queria ser aquela que não fui!
a de meus sonhos, pura, vencedora,
e que a beleza ainda a ostenta,
não esta permanente convalescente,
aquela que sonha e espera,
o encantado, o palácio fantasiado,
e não esta que tem o encanto quebrado como, cacos,
como queria ser a outra dos meus sonhos,
alegre, misteriosamente bela,
e não a que vagueia lentamente e triste,
mas que vive,
e a beleza que a arde tão dentro,
como queria ser a outra,
a dos meus sonhos mais viva ternamente.

Esses momentos já não chegam,
já não completam,
anseio o teu corpo, e ser para teus lábios,
anseio a tua voz, o teu cheiro,
como se no vazio ficasse uma dor,
já não sei!
tento fugir a esse sentimento,
porque lembro-me que há um tempo atrás,
senti o mesmo e sofri,
diz-me tu porque me fazes sentir assim!
diz-me tu!


Sónia Sultuane

Poema da minha alienação


Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.


Mia Couto



Outros Sons


Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas

Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço


Alberto Lacerda