30.7.08


Não ponho esperança em mais nada


Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha
Com Granada e o Escurial.
Porque esta esperança que ponho
Em ver-te sair um dia
Da verdade para o sonho,
É como ser-se feitor
Dalguma herdade cansada:
À terra, dá-se o melhor,
A terra não nos dá nada.


Reinaldo Ferreira



29.7.08

Operação da guerra de libertação


Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai servir derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vai ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?

Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força Esta árvore cai mesmo.
Por onde passa o Exército de Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.
E fácil ver quem passou aqui.


Mutimati Barnabé João


Operação da guerra de libertação


Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai servir derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vai ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?

Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força Esta árvore cai mesmo.
Por onde passa o Exército de Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.
E fácil ver quem passou aqui.


Mutimati Barnabé João


27.7.08




Chorei os homens,
mas nenhum, as minhas lágrimas viu,
nenhum as viu correr dentro de mim,
chorei os homens,
com lágrimas já tão cansadas, esperei...enfim...,
que algum as vi-se e as pudesse secar,
que algum as pudesse ouvir,
ouvir somente dizer que foi por amor,
que chorei lágrimas doídas.


Sónia Sultuane



Moçambique


Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar


Alberto de Lacerda




Quisera um dia


Quisera um dia
a terra
o hábito de ser carne
membro boca olho
ou areia molhada
que o mar reclama
e eis que súbita
a pele grávida
a margem flácida
se desaba cada segundo
onde um grão amassa um filho.


Eduardo White


22.7.08


Para sul


Na noite em que passámos o Rio Rovuma
Apontei para Sul com o nariz, com o coração, com os pés
Fiquei completamente orientado para Sul
Com esta terrível doença de febre da coragem
Que só nos deixa, camaradas, fugir para Sul.

Na noite em que passámos o Rio Rovuma
Fiquei completamente torcido para a frente
Com a minha vida como um trilho direito
Com esta terrível doença da alegria da garganta
Que só nos deixa, camaradas, cantar para Sul.

Na noite em que passámos o Rio Rovuma
O Sul estava sempre na minha frente teimoso
E como uma árvore de messassa que fosse andando
Senti o musgo e os bichos crescerem nas minhas costas
Podia vê-los crescer nas tuas costas camarada da frente
Também com esta terrível doença da impaciência nas costas
Que só nos deixa, camaradas, livres de ir para Sul
O nariz, o coração e os pés apontando.

Levo a arma atravessada na bandoleira e vou para Sul.
A Razão que nos leva para Sul, camaradas
E que é a nossa arma melhor engatilhada apontando
Para todos os lados ao mesmo tempo.


Mutimati Barnabé João


21.7.08


Testamento


Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que não me repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.


Rui Knopfli


A voz do pedreiro


O basalto é uma ave negra de silêncio
é uma ave que anoiteceu num sono inextinguível

No meu gesto ergo o símbolo um martelo suspenso
e num ápice rasgo o manto das horas descansadas
assim inicio o ciclo das manhãs operárias

Do ventre das rochas que fecundo nascem
casas cadeias e palácios
que da pedra conhecida
meus olhos depois desconhecem
mas da pedra que semeio o que colhi?

a minha casa de madeira e vento
o meu bairro escuro sossobrado no sono de caniço

Vai sendo a pedra esculpida pelo homem
pedra alada
Vai sendo o homem esculpido pela pedra
mão petrificada

Dizes-me: és o operário dos pássaros congelados
eu amo-te como se ainda esculpisse
como se nos meus braços
viajasse ainda um martelo suspenso
o gesto com que inicio a madrugada
como se fosse ternura
esta desajeitada forma
com que te desfolho
como se fosse o meu corpo
um domingo derramado
na cidade inquieta do teu corpo

Vai-se o homem trocando pela pedra
em cada pedra maus suada
ucircula agora
o nosso sangue proletário

E construtor anónimo de cidades
construtor destas mãos
que se vestem de poeira e rugas
produtor de cidades
onde o meu nome esquecido soterrado
se erguerá do negro corpo de basalto
Eu serei a voz das pedras
Eu serei a voz dos homens no basalto


Mia Couto


20.7.08



O que importa se te vais,
se ficaras sempre dentro de mim,
o que importa se este oceano que é a vida seja longo,
se mais longo consegue ser o meu amor por ti,
o que importa se esse oceano um dia te tenha roubado,
se um dia uma gota em mim tenha deixado,
a minha sede tenha matado,
bebi algo puro e belo,
que importa se esse oceano me haja abandonado,
e a minha gota houvesse levado,
mas se esse gosto em mim tenha ficado cravado.

Sónia Sultuane



Peregrino


Ó alma errante, onde brilha o fulgor
Das perguntas que a terra silencia,
O que buscas? A que estranho vigor
De visão tu aspiras noite e dia?

Porque me trazes o manto rasgado,
E me rasgas a mim, que tu geraste?
Amas ou não este humano traslado,
Arremedo divino, flor só haste?

Porque nos perseguimos sem nos vermos,
De terra em terra, na esperança, no esforço?
Aonde a luz dos invisíveis ermos
Brilhando inteira na luz de um só corpo?

Onde pressentirás o teu começo?
Então descansarás. Nada mais peço.


Alberto de Lacerda




(Ao Rui Nogar)


Escrevo-te, melancólico,
estas palavras reverberadas
nas folhas das palmeiras.
A tua ausência ganha,
em mim, a forma dum poema
subitamente inacabado.
O nojo e o frio do teu silêncio
apaga a lógica poética
em que me fundo.
A bordo do teu nome vazio
escrevo-te estes versos
com a azul absurdo deste dia.


Armando Artur


19.7.08


Maxilar Triste


Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.


Rui Knopfli

Identidade




Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta
sou pólen sem insecto
e areia sustentando
o sexo das árvores

Existo, assim, onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
receando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço.


Mia Couto


Vigilância

Este missionário está muito claro por dentro
Anda muito bem como um homem na mata
E tem um sorriso de quem está tudo perfeitamente
E chegou agora de estar no serviço de Jesus da Nazaré
Que é um sócio católico romano e compadre.
Está tudo perfeitamente claro fora deste missionário
Com sol ou com chuva ou com noite
Está tudo perfeitamente claro
Claro!

Só o que está um pouco na confusão
E este verniz raspado com o meu nome completo
Nesta carteira escolar da 4.a classe adiantada
E eu aqui incomodado com a arma entalada na porta
Não me lembrar de ter estado dentro da pessoa
Que escreveu o meu nome completo no verniz
Nem me lembrar de ter estado fora.

Há com certeza um pormenor que me subtraiu
E que explica haver tantos dentes neste missionário.
Vou sair no cuidado sem virar costas
Acho muito escuro nesta clareza
São muitos dentes todos na mesma pessoa.


Mutimati Barnabé João


14.7.08


Do mar o incriado nasce


A ilha existe não porque a achasses
mas porque a nomeias coração do vento
capaz deste segredo vontade grega
de amar o que a alma intui e cria.

E de tal modo ela seria e é desejo
que tudo esqueço para vê-la nua
devir do sentido no seu sentido vago
louco amor agreste que a utopia apela.

Na ausência de limites para o que sonhas
vacilante avanço ágil mas sem asas
sem medida luz do fragmentado verbo.

Rio e choro sendo a máscara e o rosto
Nomeado língua capaz do que não sei
Suspenso o tempo do mar o incriado nasce.


Duarte Galvão / Virgílio de Lemos

13.7.08


Não encontraste a rua


Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.

Mas a cidade é esta
E não outra

Não encontraste o rosto

O anel caiu
Ninguém sabe aonde.



Alberto Lacerda




Tu


Tu
doce acre
linfo possuído
que a terra grita.
Amo-te assim
neste lado do barco.


Eduardo White


Alegoria


Em Inhaminga, meu amor,
estão as armas apontadas para o céu
mas só há pássaros.

E como as armas pensam no canudo do seu cérebro
que as aves são inofensivos passarinhos
estes aproveitam a confusão
dos pára-quedistas já cansados.

Por isso cada pássaro que voa pelo céu
(luminoso como uma palavra boa)
deixa cair melancolicamente
o seu depósito de agradecimento
sobre as armas
e a estupidez dos generais.

Vorazmente, meu amor,
o destino da terra passa
e cria-se entre o ventre das armas
e o círculo da esquadrilha voadora
o futuro desta terra
que alarga e fermenta.

Tudo isto em Inhaminga,
com o tamanho deste país,
meu amor.


Heliodoro Baptista




Tu, Baby, ao leres um dia

Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos – e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos –

Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.

Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!


Reinaldo Ferreira


9.7.08

Tambores

Kid XXX- a criança e a vida


São os tambores da noite
distantes
são as folhas das palmeiras bêbedas
constantes
são as pinceladas das brisas
sibilantes
são os lussúnguis finos
ondulantes
a panejar o apetite discreto
dos amantes


Júlio Carrilho

Sonho quebrado ainda em menina,
pesadelo vivido já em adolescente,
fantasia presente em mulher,
estes todos estados vividos numa só vida,
o sonho quebrou,
o castelo em vidro desabou,
tantos estilhaços cravados em meu corpo,
como foi possível?
meu corpo deformado, meu rosto desfigurado,
restou minha alma,
meus sonhos de criança, em meu pesadelo e na minha fantasia.


Sónia Sultuane





Cristão


....
Piedade para o cristão Piedade para ele
que tem um só deus entre tantos demónios
e piedade também para esse deus exausto
que entrou num homem porque queria morrer...


Leite de Vasconcelos




Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...


Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta...
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)...
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.

Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro... e água benta...
-Água lhe dava eu de vontade aos socos...

Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado... Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?

Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?


Rui de Noronha



As árvores no parque



As árvores no parque

A relva
Cada vez mais verde

A tua voz
Ontem

Alberto Lacerda




Urgência



Eu sou das noites
mais negras…
não sei dizer «sim»
quando quero dizer «não».
porque é longa, deveras,
esta contenda
que é necessário vencer.

eu sou das galerias
mais profundas…
não sei dizer «amanhã»
quando quero dizer «hoje».
porque sou todo urgência
urgência de chegar
urgência de partir.

eu sou dos rios
mais longínquos…
não sei percorrer
o inverso dos caminhos
porque o tempo é-me escasso
nesta caminhada sem apeadeiros.


Armando Artur



A Billie Holiday, Cantora


Era de noite e no quarto aprisionado em escuridão
apenas o luar entrara, sorrateiramente,
e fora derramar-se no chão.
Solidão. Solidão. Solidão.

E então,
tua voz, minha irmã americana,
veio do ar, do nada nascida da própria escuridão...
Estranha, profunda, quente,
vazada em solidão.

E começava assim a canção:
“Into each heart some rain must fall...”
Começava assim
e era só melancolia
do princípio ao fim,
como se teus dias fossem sem sol
e a tua alma aí, sem alegria...

Tua voz irmã, no seu trágico sentimentalismo,
descendo e subindo,
chorando para logo, ainda trémula, começar rindo,
cantando no teu arrastado inglês crioulo
esses singulares “blues”, dum fatalismo
rácico que faz doer
tua voz, não sei porque estranha magia,
arrastou para longe a minha solidão...

No quarto às escuras, eu já não estava só!
Com a tua voz, irmã americana, veio
todo o meu povo escravizado sem dó
por esse mundo fora, vivendo no medo, no receio
de tudo e de todos...
O meu povo ajudando a erguer impérios
e a ser excluído na vitória...
A viver, segregado, uma vida inglória,
de proscrito, de criminoso...

O meu povo transportando para a música, para a poesia,
os seus complexos, a sua tristeza inata, a sua insatisfação...

Billie Holiday, minha irmã americana,
continua cantando sempre, no teu jeito magoado
os “blues” eternos do nosso povo desgraçado...
Continua cantando, cantando, sempre cantando,
até que a humanidade egoísta ouça em ti a nossa voz,

e se volte enfim para nós,
mas com olhos de fraternidade e compreensão!


Noémia de Sousa



À volta das origens

Ao Rui Knopfli e ao Eugénio de Andrade


Sim, de facto, «uma só e várias línguas
eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria».

Outros vieram e estão
na curva ambulatória do terreno,
entrecortando a escrita ao sol
com a que, na bruma, lascivo lugar
dos malditos de esgares cínicos
mas persuasivos,
estrangula, subverte também
a repulsa.

Alguns reencarnam, voltam a nascer
de uma emoção que, anos atrás,
os condicionou, e isso tem sido notícia,
curiosidade incorporada
na astúcia discreta dos que triunfam
pelos propósitos trazidos
há um quarto de século.

Palmeiras, casuarinas, eucaliptos,
micaias, planuras, mangueiras, enfim,
a ainda inacabada totalidade do país amado,
tudo existe, não é mitológica passagem
de forças cujo núcleo, por estranho, também,
que pareça, é uma ordem desordenada,
uma certeza de mil incertezas,
mas isenta já de prodígios,
confusa e humana.

Nós outros, como vós, os que virão,
baixos-relevos das mais remotas
e tranquilas paisagens onde o tempo urge
propostas originais,
desencadearemos talvez a infidelidade
a outros mitos que a escrita, impressiva,
esconjura nos significantes.
Suportemos, como compensação, os impulsos dos néscios.


Heliodoro Baptista

Ponte pênsil

O menino branco nasceu numa ilha do Índico
Na rota dos navios cargueiros de especiarias.
A mãe negra o embalou silenciosa
Nas horas mornas vagarosas da solidão.
Cresceu brincando com os meninos negros
As saudades dos dias de São Vapor
(A mãe branca sonhava meninos negros regenerados
Navegando felizes em barquinhos à vela
Com o seu menino de cabelos soltos na proa…)
Hoje o menino branco negoceia especiarias
E os negros carregam especiarias
Nos dias que foram de São Vapor.
(Pesadelos que se infiltram no corpo da mãe negra
Antes de fecundado seu ventre são)
Bacharéis discutem na sonolenta academia dos bons costumes
O casamento sem registo nem confissão
Anseiam pela caça aos bichos que espreitam nos limites da queimada
E sabem dum mistério que arrepia e atrai e é preciso anular.
Os turistas filmam a inédita nudez
Para documentação dos arquivos familiares
E só o vento da floresta uiva por ti menino negro
Nesta longa noite velada sem poesia…


Orlando Mendes


6.7.08


Minha Ilha


Nos paralelipípedos das mais antigas infâncias
dei também meus passos balbuciantes e seguintes.
Todos os dias pés sem idade acorrentados
trituravam o salitre poeirado pelo vento ĺndico
e a cortiça nua das solas e dos dedos
fazia o périplo da ilha sobre corais
onde no palácio o governador-geral mandava despachos
que a corte recebia incrustada de pedrarias
nas entranhas digerindo riquezas carnais.
E o salitre vinha e ardiam os pés das gerações
e nos pátios dos prédios senhoris floridos
se construíam novos lares de oriunda linhagem.
Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes
e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.
Era a rota dos gemidos e das raivas putrefactas
e dos partos que haviam de povoar as américas
com braços marcados a ferro nas lavras e colheitas.
Ruiram paredes grossas chegaram outras naus
morreram marinheiros por ordem soberana de el-rei
e obediência de seus filhos sem coroa fixando preços.
Agachavam-se as sombras com a passagem dos rickshaws
na ponta da ilha farinha não levedava pão mas fezes
e o sono evadia-se dos ossos para o metrónomo da noite
Em frente na costa que orla o interior
nascia o poeta e guerrilheiro Kalungano
que disparando balas cantaria para nós
o amor e as flores do dia de hoje litoral
em que a ilha se liga ao continente por uma ponte
e os barcos à vela macuas são donos do mar


Orlando Mendes


Pesca


Os pescadores levam as redes

até à margem que os suspende
e olham o sol e as manchas da água
e entendem.

Imergem todos e estendem a rede
tecida estreita e apertada
e cada cabeça sobre a espuma
é como o destroço de um barco.

Aguardam, aguardam em grupos que fazem
marcas geométricas ao cimo do mar
e o tempo desliza ante seus olhos
o peixe que espreita e a areia molhada.

Mas voltam sem nada: fugiu o cardume.
enrolam a rede tecida apertada
e marcham na praia sulcando uma esperança
de que só o rasto é que se desfaz.

Glória de Sant'Anna


Timbileiros


A maviosa
velha canganhiça dos timbileiros
acaba os ócios.

E toda a Zavala
bate e torna a bater agora
a cadência dos corações da turba
dançando as amotinações voluptuosas
das timbilas de ossos.

José Craveirinha



5.7.08


A Pomba para o Cheina


Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.

Sebastião Alba




A Pele


(em tempo de reestruturações económicas,
reconversões tecnológicas e outras actualizações)

Papel de embrulho
feito
software

Até entrever o fim em

Receita para uma infracção

Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...

Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida


Leite de Vasconcelos