29.6.08


T. S. Eliot The Shadows Of Rainbow

(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)


1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.

Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.

E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)

2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.

And do not think of the fruit of action

3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"

Into another intensity; o fim é sempre evolução.


Heliodoro Baptista


A chamada inspiração


Gotas quase poeira de cacimba
caindo sobre as palmas das mãos
como em floresta desvirginada
e exposta nua de memórias
ao sol da primeira lavra.

Não queima nem lacera nem alivia.

Percute a descoberta palavra
para ser primitivo rastilho
do poema vivo candente.
E cresce na voz que temos
nas veias desde sempre.


Orlando Mendes





Nocturno


Dentro dos finos dedos das árvores quietas
a noite dorme um longo sono transparente

junto das tépidas aves de olhos ausentes
da clara madrugada que ainda não surgiu.

O esparso e denso azul silêncio ressente-se
e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe,

(e contornaria os muros pálidos e inertes
sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).

Tudo se contém no contorno fixo do seu limite.

Só o mar se desdobra e reflecte inquietamente
a vigília inútil e cansada das estrelas.

Glória de Sant'Anna


3 dimensões

(para a Carol e o Nuno)

Na cabina
o deus da máquina
de boné e ganga
tem na mão o segredo das bielas.

Na carruagem
o deus da primeira classe
arquitecta projectos no ar condicionado.

E no ramal
- pés espalmados no aço dos carris -
rebenta pulmões o deus
negro da zorra.

José Craveirinha


28.6.08


Dum grande poeta


Dum grande poeta deu-se o nome
a uma rua suburbana

nem tanto quis em vida

das «solidões lacustres»
que seu facho ainda alumia
dos nítidos e urbanos
dias ermos
escreveu e morreu

um dia
trocou o amor já anunciado das mulheres
e o tráfico das emoções nos espectáculos
pela paz indissolúvel

os demais resistiram
estão em bronze nas sessões camarárias
nos jardins de infância
nos largos das cidades marítimas

a ele deu-se uma rua suburbana

sua lisa fronte maldita
não se cobre da pátina das inscrições no mármore

de regresso a casa
com a lua mortiça ponderável nas nucas
fulge limpidamente
nas memórias mais graves
dos melhores de nós.


Sebastião Alba


Desencontro


Não ter morada

Habitar

Como um beijo

Entre os lábios

Fingir-se ausente

E suspirar

(o meu corpo

não se reconhece na espera)

percorrer com um só gesto

o teu corpo

e beber toda a ternura

para refazer

o rosto em que desapareces

o abraço em que desobedeces


Mia Couto


Para rir com olhos tristes


Estão sentados
com olhos claros
e frente a frente
mostrando através dos lábios
e de súbito
agudas pontas de alfinetes

Tombam as palavras
em branda frase
fluentes
e entre cada
tão súbtil ao pensamento
gumes de espada

E mãos paradas
ou antes
pegando gráceis
no cristal frágil tonalizado
pelo vinho puro
ainda marcado do sol nas
folhas da ingénua vide

E olhando em volta
(perfis e faces e frontes altas
sorrisos ágeis, pupilas frias)
não volto as costas
à hora exígua

só me pergunto que faço aqui


Glória de Sant'Anna

O ponto



Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.


Reinaldo Ferreira


A descoberta da rosa


Dez anos de poesia, fora a gaveta
e descubro que, a não ser ocasionalmente
e em ar de troça, jamais me debrucei
deveras sobre o tema da rosa. De resto
eram para mim, creio, marginais as flores.
Vícios de formação e juventude,
uma tão intensa preocupação do humano
que olvidei a discreta angústia da rosa.
Outros, não o ignoro, nela tiveram seu princípio
para a deixarem depois esquecida entre as páginas
de um qualquer velho livro, tão cheios eles,
de ternura e simpatia fraternas, coisas
que já eludem este coração envilecido.
Salvo o devido respeito por tudo quanto é útil
e estimável na terra, faltam-me o tempo
e o ânimo para as empreitadas mais ingentes.
E o pouco que me sobra tenciono aplicá-lo
em tarefas humildes como o cultivo
destes versos, algum súbito amor inadíavel
e a lenta e minuciosa descoberta da rosa.


Rui Knopfli




Olhos Enxutos


Olhos enxutos
na dor de luto
é suplício exclusivo
de quem mais sofre
quanto menos chora.

José Craveirinha


23.6.08


Guerra



Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
.......................................
Ah, cidades!
Favos de pedra
macias amortecedores de bombas.

José Craveirinha



22.6.08


Da cumplicidade memorial
ou o receio de plagiar


quando aconteço me dando em poemas
julgo-me adúltero já doutros poetas

as mesmas palavras com que me venço
são aquelas que a qualquer se rendem

e o ritmo em que me sego e me colho
vem já do berço da comum sementeira

sei lá quantos outros em mim respiram
quantos eus por aí germinam

e já nem sequer me intimidam
nos versos antes de mim mesmo devassados
outras cancelas já velhas de inspiração

quero-me até cada vez mais comungado
na subtil reconquista de nós próprios

só me repugna e me atormenta
a íntima heresia involuntária

de me ver traído crucificado
num milímetro que seja
de cumplicidade memorial

e desde já perante vós me penitencio
oh poetas e amantes
que meus versos decantarão
para que saibam agora todos
nos limites deste poema ainda
que nada falece da minha lavra
que minhas ideias e meus escritos
mais vos pertencem que a mim próprio

e ainda vos digo ora também
que lúcido e pleno me devolvo
nesta humilde entrega total

para que libertem os meus poemas
em milhões de outros poetas


Rui Nogar


19.6.08


Do meu país


Do meu País as aves se ausentaram
e com elas se foi a vida, a alegria.
E os poetas, nos versos que cantaram,
foram pássaros de morte e de melancolia.


Jorge Viegas



S’Agapo


Penélope,
nascida e criada no Alto-Maé,
filha do Kristos da cantina,
neta do Aristóteles da padaria,
vizinha de Karimo o monhé
da esquina,
irmã da helénica Sophia,
vai tecendo
e destecendo
- até ao pôr-do-sol –
tua renda de lençol
- pálida sombra do mito –
enquanto esperas
teu primo Ulisses,
o noivo aflito,
lá do Chibuto,
para as lautas bodas
no Ateneu.

Pois eu,
sem os direitos do grego astuto,
vou gritar no Largo Albasini
- ágora perfeito para tais intentos –
os meus profundos sentimentos
e lamentos.

Que os conheçam
a Polícia
a Milícia
os motoristas
as floristas
os maviques
os caciques
dos buicks
os poetas meus amigos
os colonos, dos antigos,
a casuarina
da esquina
e o cajueiro
do terreiro
- que é quintal
cá para a gente.

Penélope,
vou gritar,
sem cessar,
sem ática contenção,
até enrouquecer
de fazer dó:
S’AGAPO
S’AGAPO
S’AGAPO.


Fonseca Amaral



Juiz


Caracol de toga e de registo
o mais prudente
intérprete de Cristo
Atira só a derradeira pedra


Leite de Vasconcelos



Lição de Biologia


No reino animal
não há cores necessárias
mas animais do reino
utilizam cores convenientes.
É velho o mimetismo
sabido de animais sem raciocínio
que atacam uns e outros se defendem
nunca (curiosamente) por a cor ser aquela
ou outra diferente
mas porque se defende ou apetece
a carne submersa em qualquer cor.
Resulta disto o simples corolário
de ser conveniente a certos apetites
usar o mimetismo e abocanhar
em nome duma pele
a pelo e o resto de quem passa perto.
Jogos de luz de pronto se diriam
estes que na luz entretecem
cumplicidades de cores
não fossem os hábitos sombrios
destes predadores.
Tantos mais que se conhece
serem daltónicas as suas fomes
pois notícia não há de que algum
rejeite por almoço
um animal da sua mesma cor.
Diferencia-os o diâmetro das fauces
o grau do apetite é rigorosamente infindo.
E isto os mata
que não há digestões
para fazer o quilo de tais fomes.
Inevitavelmente, os sáurios empaturram
e, de comerem sempre,
ficam duma cor definitiva em todos os mortais.


Leite de Vasconcelos



Exposição


As negras das lagoas
fazem exposição
de quadros nús e tristes
com os próprios corpos as artistas
pintam no fundo da parede de caniço

É uma exposição permanente
e uma galeria de quadros humanos
que se vendem na galeria livre
uma galeria mais que pública
inaugurada pelo primeiro que chegou

Os quadros adquiridos
são pagos no quarto da negra
depois de oferecer a sua carne
e o adquiridor nunca leva o seu quadro
fica para o outro Paraquedista


Malangatana Ngwenya Valente



Mandimba Metónia Vila Cabral


Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água

Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia

Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos. Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos

Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia


Alberto de Lacerda



A língua é o exílio do que sonhas



O imaginário
tem o rosto feminino,
do mar
a ilha é a sua voz
que explode.
Tu és o irreal
que paira sobre os outros
as coisas.
A força da ausência
O que sonhamos e
nos foge entre
dedos: a areia.
Tu és a réplica
do oculto
a ilha a beleza
cruel o pleno
nas dores do vazio.


Virgílio de Lemos



Stabat Mater Africa


De pé mãe-África
Séculos e Séculos
Sempre vigilante
De pé stabat Mater África

Tu, mãe-África, sempre de pé
Coragem nunca te faltou
Séculos e Séculos de pé

Ao teu colo tudo me deste
O amor me gerou dentro de ti
Os teus peitos de rijos a flácidos
As tuas mãos de macias a calejadas
Quentes
Ásperas
São duas páginas de ouro
Tu Mater, meu ouro, meu diamante


Lívio de Morais

Vida vivida


Temos
de ter tempo
pra acompanhar
o lançamento
dum livro
visitar
uma exposição
fotográfica
ou de pintura
visitar um museu
ou revisitar a fortaleza
ou mesmo receber
a brisa do mar na praia
ou se calhar passear
lentamente num jardim
isso faz bem a vida
e ao coração
garanto-te, meu bem
e não há desculpas
pra não poder efectivar...

Domi Chirongo

Nainetina laurentina cesariniana I


Na noite
Todos os cujos
Gatos marujos
Da raça eleita
São pardos
E vão à deita
Co’as sensitivas
Evasluídas.

Diria o Lorca:
-Voga en el aire una risa de nardos...
Diria o ministro da Forca:
-Enforquem esses bastardos!


Grabato Dias



Poema de José Craveirinha num dia em que estava todo de negro

Para Hitler - um Craveirinha judeu dedica



Olhem José Craveirinha que vai
vestido de negro passando
com longas pestanas descidas sobre os trágicos mundos
dos nostálgicos olhos profundos.

Olhem José Craveirinha que leva o autêntico cerne
não de platonismo de lagoa de reflexos de platina
não de um canto de cigarra farta no ramo de uma acácia urbana
não de uns flectidos braços de mulher na lânguida madrugada
não de uma semente estéril num chão de pedras
não de um silvo de fábrica na manhã do bairro
não de nada disso
nas do signo romântico das aves que cantam
na fatal paisagem de um continente
e nos poemas subversivos que o poeta não inventou.

Olhem José Craveirinha que vai
vestido de negro passando
no luto calmo de si mesmo.

Leva amor no brilho mágico dos olhos negros
amor de seus filhos e seus irmãos
de sua esposa e da mulher amada
e de tanto quererem levá-lo
leva África nos lábios duros.
Oh, leva África nos lábios duros
de tanto quererem levá-lo.

Olhem José Craveirinha que vai
vestido da sina geométrica das quatro paredes
(Quantas noites podes ficar de pé, José Craveirinha?)
lisas e direitas como um féretro de cimento
onde o querem desumanizar.

Negros são os seus olhos
(quantas noites podem ficar encandeados os teus olhos, José Craveirinha?)
dois carvões de presságios
da dor que vier fecunda a acontecer.

Ninguém chore ainda
ninguém lhe mande coroas de rosas
ninguém lhe dedique elegias
lápidas gravadas
e um dia músicas de "parabellum".
E ninguém tenha saudades enquanto não morrer
da morte esperada que lhes derem.
(Oh, quantas horas podes ficar com essas alianças nos metacarpos apertados, José Craveirinha?)

Leva nos olhos escuros a imagem secreta
das mulheres que mais amou
e na polpa dos dedos José Craveirinha leva os bicos
túmidos dos seios que beijou.
Magro e subversivo
Oh, José Craveirinha que vai
na nuvem de fogo dos pensamentos poéticos
(ah, o perigo dos pensamentos poéticos de José Craveirinha)
a trinta e cinco metros vigiado
por um atento cidadão bem remunerado.

Olhem José João Craveirinha num jipe
olhem José João Craveirinha acompanhado
olhem José João Craveirinha incomunicável
olhem José João Craveirinha preso.
E a notícia correu, célere na cidade construída na margem do mar
correu sobre os prédios e as copas dos cajueiros
correu de canto a canto
correu de boca em boca
correu nas iras do vento sobre a fronde dos coqueiros
correu de lés a lés como um rio sem parar

Ah, quantas morenas teve José Craveirinha
ah, quantas loiras amou José Craveirinha

E nos versos que escreveu
quantas mulheres
árvores e pássaros austrais
homens e crianças
ventos e rios e céus cheios de sinais
José Craveirinha cantou?

Olhem José Craveirinha que vai
no fatalismo atávico dos tambores rongas
passando vestido de negro
no luto de si mesmo.
Envolvido no feitiço imutável do seu destino
Olhem José Craveirinha
Olhem José Craveirinha que vai
preencher a geometria das paredes
carinhosas na bárbara nudez de pedra.

Olhem José Craveirinha
Olhem José Craveirinha passando
Olhem José Craveirinha que vai.


José Craveirinha


Mas o que nós queremos


e o caminho é assim

Cavado na montanha
a descer e a subir

Cavado na planície
no capim e no mato espesso
e mesmo no milho mais alto do que nós

O esforço que fazemos

não é leve nem pesado

É o que é necessário

Guerreiro
cultivando a terra
transportando munições
ou medicamentos

Construindo um hospital uma escola
ou a estudar num país distante

O meu lugar
é lá onde a FRELIMO determina

A linha de combate
é lá onde a Revolução me leva

SOMOS SOLDADOS DA FRELIMO
CUMPRIR A MISSÃO DO PARTIDO
CAVAR O SOLO BÁSICO DA REVOLUÇÃO

PÔR UM FIM À EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM
CONSTRUIR A INDEPENDÊNCIA NACIONAL
COMPLETA


Marcelino dos Santos


A casa da areia


Face ao mar, orgulhosa no topo do areal,
só madeira e zinco sobre pilares de cimento
ao sabor dos quatro ventos. O quintal
das traseiras sempre uma festa, frango
no churrasco, alegria nos copos. Depois

a Isilda casaria com o Freitas,
a Ermelinda ia ficar para tia
e o Horácio dava em droga.
O Neca, o Tino e o Mando foram
à vida, cada qual para seu lado.

Na velha casa virada à baía,
além do ranger da maneira
batida pelo vento e a areia
apenas ficaram a avó Carminda
e a velha cadela «Deixa - falar».


Rui Knopfli


17.6.08


Karingana Ua Karingana



Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana! -
é que faz o poeta sentir-se
gente

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se trasforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

- Karingana!

José Craveirinha


14.6.08

Mãos sobre o farrapo


mas vamos reconstruindo o país aos impostos
uns menos puros outros mais ilícitos
outros antes porém aos encontrões com mulalas
a verterem-nos da carne o hematozoário
mais emergente que o donativo mais escasso

fazemos sauna nós mesmos sem idades
em busca da purpúrea metamorfose legal
mas é verdade que há ainda motobombas
comprometidas com o dever de necessitar
é verdade
e discursam-se mais dogmas e mitos
as alturas e a vontade submissa

agora estou a pedir cinquenta
para perpetuar o farrapo e a esmola
e para evitar falar de bares e copos
vai uma coroa de flores para os heróis
sempre nos satisfaz mais uma gorgeta
para desarraigar as vontades abdominais


Guita Jr.


Francisco Xavier Guita Júnior (Guita Jr.) nasceu em Inhambane a 14 de Março de 1964. Professor de Português, membro fundador e coordenador do XIPHEFO, caderno literário que surgiu em 1987 em Inhambane, onde foram publicados os primeiros poemas de Guita Jr.



12.6.08

E a cruz crescente?...

Jambesse III


Não é da gente certa a vila desenhada
é de salamaleques e de casarões
só nos quintais fervilham vozes coloridas
de sarcasmo de interrogações
Não são de gente aberta
esses jardins guardados
na geometria estrita das pedras caiadas
apenas corvos passeiam sobre eles seu negrume
seu vôo vasto e livre
isento de volume
Não são brancos os dentes
que a alvura do sorriso negro nos ensina
são apenas portos de sinceridade
um contraponto neutro de evasão
do forte colorido de paixões contidas
nesse cerco de água
preto vermelho
e açafrão

A cruz aqui apenas tem esse significado
o de nos cruzarmos com o mundo
para não morrer


Tantos de nós a aguardar um Deus vindo de longe, como se as religiões, que põem todo o seu afã em conquistar-nos, estivessem a partilhar-nos com o acordo da nossa ironia.
Que diferença faz a sombra da torre sineira por consolo, ou a delicadeza curva do crescente fino a coroar-nos?
Somos de qualquer crença que nos lave as mágoas as pilhagens, a desvalorização e o opróbrio, os roubos locais e internacionais.
Entre o padre do oeste e o maulana oriental há essa paz, do almofadado saber da nossa convivência, desarmando cismas nas ofertas recíprocas que nos enviamos nos dias da festa do outro.


Júlio Carrilho


9.6.08


Círculo de sombra

Ao Rui Knopfli


A minha alma é um círculo de sombra.
Os meus poemas são a pálida mensagem
dum homem melancólico. Se sou poeta,
decerto não o sou do tempo presente.

Escrevo poemas de amor, e os meus poemas
não conduzem os povos à contestação.
Gosto de passear nas ruas a antiga liberdade
que eu sei haver nos poetas que mais amo.

Uma liberdade que não conduz a nada,
uma liberdade que não explica nada.
Leio velhos filósofos de antigamente,

e velhos poetas, mais velhos ainda.
De quando em vez, monólogos em surdina.
A minha alma é um círculo de sombra.


Jorge Viegas



Moradas


O rosto da montanha na sombra do vale,
sua macerada inscrição confundindo as pegadas
de quem, ignoto, nem a memória inscreveu
sobre o vento.

Alguém que olha a ausência
e o mais íntimo sinal, sedosa estrela,
uma quase poeira, a viandante terra,
nómada, entre silêncio e nada.

Uma única mão de luz talonando o tempo.


Luís Carlos Patraquim


Por onde a esperança

Para o Eugénio Lisboa
que disse o primeiro verso do poema


Eu quero uma estátua virada ao mar
uma estátua que se encha de sal
quando o vento caminhe.

E que tome o tom verde das águas
e das algas que se lhe enrodilhem
junto às mãos e à face

Porque a única forma de ter uma estátua
é saber de antemão que ninguém
saberá quem ali se desfaz.


Glória de Santana

8.6.08


Poema

Para o R.G.


Na carteira, junto ao peito,
«a mais maravilhosa fotografia da nossa adolescência»:
é o mar ao fundo, as casuarinas de religioso jeito
e a nossa juvenil independência

Estranhos hoje se sentam à mesa,
bebem o vinho e mancham a toalha:
não há novidade que apague e valha
o tecido sagrado da firmeza
O ruído insidioso não conseguiu varrer
os estilhaços de vidro na memória
e a picada fina da distância, já história,
é a cidade-flor-areia,
por esquecer

Do ímpeto e da delicadeza
trazes fotografia por medalha:
é óleo puro, serena certeza,
contido em firme, bem humana talha.


Fonseca Amaral



A minha rua


o desmaiado sol
deixa que renasça
o fim da tarde
buganvílias reluzem nas
profecias e mitos
sol
de ausencias
submarinas estrelas
de violencias e desejo

as silhuetas de barcos
desenham tragicas
viagens,
dragões e anjos
a cores percorrem
o poente,
retratos antigos
renascem
vozes e poeiras
lanhos
no viço da raiva.

Da morte, a visao
Se veste de vida
Confundem-se de vida,
Confundem-se mares
E ilhas, amor e
Ódio

O fogo
Sobre as ondas
Resiste
O saber da lingua
Invade
O corpo inteiro
Cerro os olhos,
Mordo os labios
E o mar estremece.


Virgílio de Lemos


A Mouzinho de Albuquerque


Tinhas o germe odioso dos tiranos
O fogo sinistro da intolerância
Mas que era feito duma só palavra
Herói soberbo
Ó árvore gigantesca
Que tu próprio abateste
Em vez dos deuses
Que te contemplam a distância


Alberto de Lacerda




Amor de zinco 7


A água desce
cresce
aos poucos levanta
entra
dentro do ventre
entre
as paredes do útero:
outro
dévio da vida,
ainda
desce percorre
corre.
Devagar o óvulo
tolo
engrandece o ventre
adere
ao convívio da célula
que pula
e junto da água
desagua
do ventre outro espaço
possesso,
ouve-se o eclampse
é outra narrativa que se
aborta.


Jorge Matine




Sonho...


Hoje acordei
querendo acordar
orando na praia
linda e majestosa
praia dos amores
trocando flores
contigo
trocando beijos
beijos coloridos
lindos e perenes.

Domi Chirongo

Dana


Pelo trajecto sangrento das acácias,
da Mafalala às areias da Polana,
ou à maré morta da catembe;
do Ho Ling à Casa Elefante,
da Casa Viegas ao prédio Pott;
da opulenta sombra do cajueiro
à nobre majestade do eucalipto,
ainda resiste, na memória, uma cidade.

Por tardes de longa canícula,
sentada em seu regaço, a menina
dos cabelos cor de cobre registra-lhe,
com paciente labor, na brancura
do A-3, a minúcia do perfil
que esbatido aos poucos, lentamente,

no deserto da memória vai morrendo.
Dele, em tempo, só restará o sal
teimoso que, a algum verso,
há-de emprestar o travo amargo
e o que, no rigor afectuoso do seu traço,
da insanável ferida oculta,
é, obstinadamente, a visível cicatriz.


Rui Knopfli


6.6.08


Moçambique sai do chão



Moçambique sai do chão
E vai no porão
Caiu a sombra, tombou no chão
Fica um buraco no pé da nação

Lá vai a tábua de um caixão
O morto é a floresta de uma nação
Toda a riqueza para exportação
Não fica nada para nós, não, não
Não fica nada para nós, não, não
Já está mais que na hora, põe a mão na cabeça
E vê agora como a terra chora
A motoserra, serra, serra
Rouba o verde, numa outra guerra

Lá vai a umbila
Lá foi o jambirre
Caiu a chanfuta
Caiu pau-preto
E voa a mssassa
Voou a mbaúa
Quem canta agora
É a motoserra

Quem canta agora é a motoserra
Parando a árvore, despindo a terra
Roubando o verde, numa outra guerra
Quem toca agora é a motoserra

A música que agora toca no mato
Não é xigubo, makwaela, nem campo adubado
Não é enxada, não, não, não
Não é nem fumo de xitimela, my brother

Oh Papá, oh Titio
Corta aqui, mas depois planta ali, Oh!
Oh Papá, oh Vovô
Corta aqui, mas depois planta ali, Oh!

A música, agora, não é a canção
É o simples ronco do camião
Lá vai o tronco, lá vai a madeira
Lá vai a riqueza sem algibeira

Mia Couto

video


5.6.08


Uniforme de Poeta


Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.


Orlando Mendes


O navegador


Plena, a cidade
navega o dia. Ao lado,
o mar em que verte.
Passa lentamente,
à sombra, imposta,
do seu meridiano.
Só um vidro faísca:
há séculos emite
sinais indecifráveis.


Sebastião Alba