28.5.08


Se eu pudesse guardar os teus sentidos


Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...

Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...

Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...

Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.


Reinaldo Ferreira



Desde que existo que te espero


Desde que existo que te espero
no vazio leito da minha solidão
a duas vozes
- duas vozes que disseram
tudo o que havia para dizer
e só por falta de coragem
nunca disseram não.

Por isso, vem a qualquer hora,
meu amor.
Vem, como se o nosso encontro
tivesse sido combinado
num outro encontro
antigo e verdadeiro
apesar de só imaginado.


Nuno Bermudes


27.5.08


Desde que o mundo

A terra está ficando toda de sangue
toda de sangue

e mil olhos nos olham de lá do fundo

Cada corola que rompe vem cheia de sangue
cheia de sangue
e traz no centro um olho duro

As faces, as faces, as faces quietas
que eram de carne e são de terra
e os dentes, os dentes, os dentes dispersos
por entre de dentro no meio das pedras

E orelhas, orelhas, deitadas escutando
escutando esperando escutando esperando
os passos e o pulso e as vozes e o fumo
e o vento e a chuva e o rodar do mundo

E comendo a fome de sangue da terra

entre ossos e pele
entre ossos e pele

gusanos, gusanos, gusanos, gusanos
repartindo tudo


Glória de Sant'Anna


Sementeira


Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.

Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.

Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.

E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.

Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.

Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!

José Craveirinha

26.5.08


Búfalo


Um manso boi em estado solidário
Temam-lhe a revolta
de estar ferido
ou ser abandonado
Então torna-se um homem


Leite de Vasconcelos



Interferência necessária

Na peregrina vigília do repouso
enquanto o sono rebelde não vem
retenho a realidade que visita de pé
e abro os olhos armados contra a escuridão, ouso
saber que na planta sã não entra muchém.
E adormeço com o sono acalentado porque é.

Orlando Mendes

25.5.08


O poeta


O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.


Mia Couto

20.5.08


O Rosto

O rosto e o tempo
Cruzam-se num espelho
Rachado. E dialogam.
É uma conversa de surdos.
O rosto e o tempo divergem
Na mesma vertigem do absurdo.
Ambos não se reconhecem.
(Ah, tão misterioso este rosto,
Tão plácido este tempo,
Tão cruel este espelho).


Armando Artur

19.5.08


Pena


Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

José Craveirinha

Nossa Voz

Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados...

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques da guerra
nossa voz gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando.

Noémia de Sousa


18.5.08


Prenúncios


Sombrios foram os prenúncios.
Terrível a certeza.

Depois
a metáfora das flores.
Mais nada!
Mais nada, não.

José Craveirinha


Natureza morta


A árvore tomba do alto, do alto
se abate vencida na fulva poeira,
quebrados seus ramos que teciam sombras,
moribundas já suas longas veias.

O gume do vento a cortou da vida
com seu rude golpe, com seu golpe largo.
E com ela toda que jaz (sem sentido),
transporta indefesa a angústia dos pássaros.

Sobre a terra dura donde germinou,
ali está perdida sem culpa evidente.
Que volte a ser árvore, que volte a ser sombra,
é o tempo que sabe, quem sabe é o tempo.

Mas a angústia densa do grito dos pássaros, essa ainda se ouve.

Glória de Sant'Anna




Exílio


O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita


Alberto Lacerda


Programa


Não faço o que quero
faço o que posso.
E o que posso passa
pelo passo da dificuldade.

Palavras tenho poucas,
duras, despidas estacas,
complicando a minha escolha.

Ermas e perfiladas
ergo-as ao sol na vertical
e são monótonas e dão sombra.

Com elas levanto quatro nuas
paredes, um tecto em forma
de prece. Dificilmente
construo uma casa fácil

Fácil é fazer difícil,
difícil fazer o fácil.


Rui Knopfli


Ser mwani


Velho de Jembesse II


Não é que ser mulato me abra portas:
é preciso que se tenha aprendido a beber
esse saber da praia
qualquer que seja a dor que se transporta
A Guerra aqui não se reproduz. Sofre-se.
A escravatura aqui não se aprimora. Degrada-se:
na sabedoria dos escravos
na subtileza do servir dos servos
na paciência dos barcos adornados
Tudo sucumbe no equilíbrio sustentável
da intriga
viscosamente escrutinada nas sub-ilhas de murmúrios
dos quintais fechados


Júlio Carrilho

17.5.08


Eles foram lá


Vovó
amanhã não precisa
ir ao hospital.

Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.

Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açúcar e arroz
da cooperativa
...
Foram.


José Craveirinha

15.5.08


Dana


Pelo trajecto sangrento das acácias,

da Mafalala às areias da Polana,
ou à maré morta da Catembe;

do Ho Ling à Casa Elefante,
da Casa Viegas ao Prédio Pott;
da opulenta sombra do cajueiro
à nobre majestade do eucalipto,

ainda resiste, na memória, uma cidade.
Por tardes de longa canícula,
sentada em seu regaço, a menina
dos cabelos cor de cobre regista-lhe,
com paciente labor, na brancura
do A3, a minúcia do perfil
que esbatido aos poucos, lentamente,

no deserto da memória vai morrendo.
Dele, em tempo, só restará o sal
teimoso que, a algum verso,
há-de emprestar o travo amargo
e o que, no rigor afectuoso dos seu traço,
da insanável ferida oculta,
é, obstinadamente, a visível cicatriz.

Rui Knopfli
Boato do velho Ussene


Esposa e filhos do velho Ussene
são genuinos espíritos
de fábula.

Por agora o boato apenas põe o velho Ussene
refém-camionista sequestrado
no meio da mata.

Ou
falsa africanitude ou pura africanice
enquanto este feitiço não souber
onde está ou não está o velho Ussene
Mas quando?
A mulher e os filhos vão magicando
a boa nova do velho Ussene
mãos no volante
a saltar dos boatos
e a chegar a casa.


José Craveirinha


12.5.08


Outra beleza


Uns exibem insólitos perfis
de outra beleza
maquilhada
no mato.

ou
do viés
ou de frente
perfeitos modelos de caveira
desfilam sem nariz.

José Craveirinha


Água e mágoa



A beleza,
a mim, me dói.

O belo se quer Deus.
E o corpo
é um antecipado adeus.

Mia Couto


11.5.08


Poema sem hora certa


É a quarenta quilómetros no meio do mato

Aqui estou
e aqui páro

O sol cai a prumo verde e ouro misturado

sobre mim
e os outros claro

É de novo o tempo de anos e anos
e de novo carrego nos ombros o silêncio tanto
riscado de trilos sem mácula modulados como
crispado de uma súbita pausa

Caminho pelo riacho seco de lages com quartzo
e o tacão afunda-se no matope raso
e aqui páro

e os meus olhos sobem à última ramada
pela árvore que me é ao lado
e uma seiva comum insuspeitada
rodeia-me de borboletas brancas
que me tocam a face

O hálito da terra morna
segreda por todo o lado
e do ombro do negro de m'cota
soltam-se fios de água

Eu sorrio de súbito ao anúncio
de uma possível lágrima
e as crianças encostadas à pedra talhada
repartem comigo um riso rápido

Os outros criam indispensáveis imagens
intercalando palavras ao sábio cântico dos pássaros
e eu reparo
que a última borboleta branca me há deixado

É a quarenta quilómetros no meio do mato
que hoje estou sepultada


Glória de Sant'Anna


Facocero


Bem tentaram
dar-lhe parentes nas Ardenas
e caçá-lo como javali
Não foi assimilado
Sempre preferiu
não ser caçado

Leite de Vasconcelos



Aí, o mar



As palavras que desenhei na areia
O mar as levou em lembrança
Os meus segredos de criança
O mar os contou à sereia.

As conchas do mar também ficaram
Com os meus segredos do anoitecer
Tudo o que os meus avós me sussurraram
Ainda estava por tecer.

Os estilhaços da minha infância
Ficaram emulsionados na forca da água
Os versos feitos em minhas mágoas
Também ficaram em turbulência.

O mar levou o meu amor
A filha do gra-marinheiro
Pois ela partiu primeiro
Sem escutar o meu clamor.

Hélder Muteia


Uniforme de poeta


Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.

Rui Knopfli


8.5.08

MOÇAMBIQUE 75 – PRAÇA MOUZINHO DE ALBUQUERQUE

Mouzinholm










Era um dia solitário e pequeno
dia confidencial e toscamente feito
dia de homenagem nas traseiras

o instante parecia feito para recuar.

Quando homens sem nome
apearam Mouzinho
vi a natureza confusa das coisas
o mundo de pressa e emenda que me levava ignorado.

Eu não – que não estava ali –
mas com uns olhos limpos que podiam ser os meus.


Jall Sinth Hussein

6.5.08


Carta para Mayisha e Irati Michel



Talvez um dia, meus filhos, a vida
vos faça sentar nesta cadeira
e furtivamente se detenham
na textura branca da parede
a decifrar algo que só pertence
ao domínio do inexplicável. Então
talvez pensem naqueles que vos precederam.
Por mais que nos ignorem
decerto saberão quem fomos.
Porque mesmo esquecido o apelido
ou perdido o nosso obituário
os olhos dos vossos filhos denunciarão
tudo o que o olvido jamais poderá rasurar:
- o perpétuo estigma dos pais.


Nelson Saúte



Ainda e sempre Hiroshima



crianças colhiam rosas
do alcatrão amolecido pelo sol

rosas de antes de agosto
seis
mil novecentos e quarenta e cinco

eram então fáceis e naturais
a escultura

o ar livre

o sol e as crianças


foi quando a paisagem
oito horas e quinze minutos
bruscamente violentada
oito horas e quinze minutos
transfundiu-se.....em vergonha
em memória

em ódio

que não se apaga jamais

ah.....irmãos.....que nos resta
que nos pode restar ainda
duma paisagem adubada
com excrementos de granada

em .......Hiroshima
houve crianças colhendo rosas
do alcatrão amolecido pelo sol



Rui Nogar



Aprendiz na oficina da poesia


Não rimes,
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.

Espera antes
a sua vinda.

Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.

Deixa, pois
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.

Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.

Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.

Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.

O poema está aí.
Rui Knopfli





Todo o poeta quando preso
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.

O chefe da polícia
de defesa da segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.

E nem desconfia.


José Craveirinha



Saborosas Tanjarinas d'Inhambane


Serão palmas induvidosas todas as palmas
que palmeiam os discursos dos chefes?
Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?
Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios.
E nas repletas "bichas"? São ou não bizarros
os sigilosos susssurros?

Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores.
Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário.
Não bastam nos gabinetes os incompetentes?
Ainda mais alcatifas e ares condicionados?

Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas.
Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas
prosperamente deficitárias ou por causa das secas
ou porque veio no jornal que choveu de mais
ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso
ou talvez porque um polícia de trânsito não multou Vasco da Gama
ao infringir os códigos na rota das especiarias de Calicute.

E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios?
Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos?
Uma população que não fala não é um risco?
Aonde se oculta o diapasão da sua voz?

E quanto ao mutismo dos fazedores de versos?
Não sai poesia será que saem dos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa?
Quem é o mais super na metereologia das infaustas notícias?
Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa?

II

Na berma das avenidas asfaltizadas olhemos perplexados
os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói?
Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras
e de rastos estudar no chão?
E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos
que a trabalhar só desfabricam?
E o que é que se passa com engordecido responsável director
sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das europas?
Ou então no espólio das noites de vigilância e de saco cheio
vale mais a carência nacional que ter um pide
vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir?

III

Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens
tragam as saborosas tanjarinas d'Inhambane ao custo das ciladas
mas que descarreguem primeiro nos hospitais
nas creches e nas escolas que o futuro do País
também fica mais doce na doçura das tanjarinas d'Inhambane
e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas d'amor e não de preços.

Mas os auspiciosos maduros cajus purpurinos
já não nos dão os gostosos tincarôsse porquê?
Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes?
E ilegalidade só é ilegalidade nos outros? Hiena só é quizumba no mato?
Então juro que tanjarinas d'Inhambane é tanjarina d'Inhambane!

Eu adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos
das magníficas tanjarinas d'Inhambane. Adoro mesmo!
E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d'Inhambane?
Se não gostam, então, os que abjuram os sagrados frutos da terra-mãe
que façam lá um pai e uma mãe; Que façam tios e sobrinhos;
Que façam lá irmãos e irmãs; Que façam lá amigos e amigas;
Que façam lá colegas e camaradas;
E com a incompreensão façam lá nascer a ternura
o amor e a paz se são capazes!

IV

Pois é! As orientações de alguns directores desorientam os juízos
(deles também) mas quem é que disse que não tenho pena
dos seus conjuntos safaris embrulhando-os fresquinhos
e sem problemas de suores originários deste instabilizado clima tropical?

Quem é que disse que não lamento vê-los penosamente saindo dos "Ladas"
com as suas poses e as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer
abrir-se a porta e assentados esperarem que o motorista irrevogavelmemtne
dê a a volta ao mundo do fatalismo e cumpra hereditariamente essa tarefa?
Mas quem é que disse que não tenho pena?
Mas quem foi que disse que não sinto esse drama?

V

Depressa você Madalena vai bichar lenha, deixa bicha de carapau.
Tu vovó sai da bicha de capulana vai bichar pão.
E Toninho com Quiristina vai os dois bichar água.
Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo.
Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez ... NADA!
Aontem tomar chá não tomou ... foi no serviço.
Aoje não toma? Vai tomar amanhã.
Não toma amanhã toma outro dia.
Ou quando encontra toma de noite.
E quando não encontra de noite então dorme.
Mas quando sonhar amendoim já tomou chá, já comeu.

VI

Sim. A gente faz favor quer cascar com unha do dedo grande
as tanjarinas d'Inhambane.
Olha lá! Você estás cansado da tua terra? Salta arame ... vaaaaaiiii...
Você não gostas bandeira? Leva documento ... FAMBA!!!
Antigamente 'panhava mais fome mas não ficava aqui?
Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva?
Antigamente sapato não corrente de ferro? Agora quer "Adidas", não é?
Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu?
Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal
só p'ra dizer que pão não presta. Comia qual pão antigamente?
Antigamente encontrava passaporte? Agora se não 'panha passaporte
logo fica muito triste, fica muito zangado. Faz barulho.
Antigamente não era só caderneta?
Sim! Agora come carapau. Não é peixe? Batata-doce e mandioca
agora não é comida? Porquê?
Nossa barriga alembra bife com batata frita e azeitona. Alembra bacalhau mais grelos, mais aquele azeite d'oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado.
Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? Era nossa casa? Qual casa?
Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p'ra noss cu pró cu dos outros?
Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras numa sentina? A gente tinha balde mais o quê?

VII

É verdade; chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir.
É verdade a gente come couve com couve, carapau com carapau, farinha com farinha. Mas senta na mesa. Família toda senta.
Senta em casa no prédio. Amigo também senta. Senta ou não senta?
Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui? Ir aonde? Capaz!
Mudar moçambicano ficar o quÊ? Mudar a cara ficar qual cara?
Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.
Homem quando é homem é só um coração. Não é dois.

VIII

Agora mesmo que não tem senha de gasolina não faz mal
Não há crise. Candonga tem.
Mas quem disse aquelas saborosas tanjarinas d'Inhambane não vem mais?
É preciso? A gente vai fazer estratégia de mestre Lenine
e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás
moçambicanissimamente objectivas
concretissimamente bem moçambicanas.

IX

Agora alerta camarada Control. Vem aí camião com tanjarinas d'Inhambane.
Tira dedo do gatilho e faz uma aceno d'alegria ao estóico motorista.
Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça
ele está guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar.
Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila.
Camarada Control: Vila é vila não é cidade.
Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito.
Camarada Control: Distrito é distrito não é província.
Camarada Control: Província é província não é nação.
Camarada Control: Control é control não é Governo.
Camarada Control: Território nacional é lá no primeiro
grão d'areia em Cabo Delgado até no último milímetro da Ponto D'Ouro.
Camarada Control: Abre teu mais fraterno sorriso no meio da estrada
e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique
nossas preciosas tanjarinas d'Inhambane.
Agora escasca uma tanjarina e prova um gomo.
É doce ou não é doce camarada Control?

Pronto!
Muito obrigado Camarada Control!
E viva as saborosas tanjarinas d'Inhambane...
VIVA!!!



José Craveirinha



5.5.08


Biofagia


é vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

Mia Couto


4.5.08


Outono I


o poente derrama
oiro por toda a parte

caindo sobre o chão
e as aves

retida sob o manto
das faúlhas brilhantes

eu canto

apenas canto
a luz da tarde


Glória de Sant'Anna



África



Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros...
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.


José Craveirinha




Menus


Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.

Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula das quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.

José Craveirinha


Não sei se é uma medalha


Alguma vez
um cigarro aceso sentirá o delicioso
sabor de te fumar de repente
o ombro direito?

Pois
sobre isso eu juro
que tudo é pura mentira.

Juro
que nunca um cigarro LM
apagou a sua idiossincrásica boca de lume
no calor escuro da minha omoplata.

E também juro
que nunca plagiei um cinzeiro moçambicano
sentado a cheirar o bafo da própria cinza
com o subchefe de brigada Acácio
um deus fantasmagórico envolto
na especial nuvem de tabaco
mistura de Virgínia com pele.

E também confesso
que se esta invenção tivesse acontecido
muito provavelmente seria em mil novecentos
e sessenta e seis à tarde numa certa Vila Algarve
enquanto pela duodécima vez
eu abanava a cabeça
e dizia - Não sei!

Por acaso
a mancha desta mentira está.
Não sei se é uma medalha.
Mas não sai mais.

José Craveirinha



Nunca é tarde


Quando no cais só fica ancorada
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.

Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.

Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.

Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.


António Tomé



Pretérito Social


Mentes
civilizadas de ideais diluídos
Na muralha do vil metal dourado
Criaram o banquete perfumado
Para alimentar os sentidos fluidos.

Apareceu sonhadora
Na tela pintada de azul
Onde o vento do sul
Abriu a linha reveladora.

Pinceladas de contrastes verticais
Brilham na melodia da madrugada
E no esplendor da grinalda aprumada
Reluzem lembranças superficiais.

Embriagantes desejos estilizados
De seios transparentes
Descem como sentidos mecanizados
Por entre sombras aparentes.

Simples força inventada
Alimenta o sonho da tendência
Que vê na transparência
A nudez da criação futurista.


Jorge Viegas



Versos de Hoje


Diante desta época
vejo conflitos
organizados
nesta geração
onde o Dante dela
confina-se em medos
absurdos
típico do suburbano
que nunca deliciou
a revolução criativa
diante desta época
é impossível
ser diletante
há atitudes intoleráveis
um polícia prisioneiro
do sistema
um lacaio
recordando-nos
o cipaio
da colonização
racismo prevalecendo
no nosso tempo
e ainda assim
querem que aplaudamos,
vamos elogiar a quem?
Ó conselheiros
deixem que o tempo
decida o nosso julgamento!


Domi Chirongo



Stabat Mater Africa


De pé mãe-África
Séculos e Séculos
Sempre vigilante
De pé stabat Mater África

Tu, mãe-África, sempre de pé
Coragem nunca te faltou
Séculos e Séculos de pé

Ao teu colo tudo me deste
O amor me gerou dentro de ti
Os teus peitos de rijos a flácidos
As tuas mãos de macias a calejadas
Quentes
Ásperas
São duas páginas de ouro
Tu Mater, meu ouro, meu diamante


Lívio de Morais


Native song n.° 1

Aqui,
o tamanho dum amendoim
é a medida do Universo.


Todo o meu sonho disperso
entre os homens e a terra,
o humano do meu olhar
e a dor que o teu encerra.
Todo o meu sonho disperso
entre meu anseio de posse
e a tosse que te corrói;
o que distingue morte e vida
a alegria e a luz em meu corpo
e a noite em tua alma perdida.

Mas aqui, Richard,
os sonhos aqui mirraram.


Não é verdade, Richard.
Não é verdade, Irmãos.
Os sonhos aqui cresceram,
porque o suor das mãos
quer dizer trabalho.
Aqui, José mulato
nos ritmos de sambas e brasis,
Castro Alves dos lados do mato,
ah, Zixaxa e Mafalala
ah, Xipamanine e Munhuana,
vai sonhando novos universos
liricamente desfolhando girassóis
ou mastigando castanhas de caju.
Aqui os sonhos cresceram
porque os poemas verticais
foram lidos, não se perderam.
Noémia escreveu poemas vigorosos
que religiosamente se leram.
Bertina em cores vivas e quentes
pintou a história da angústia
de um povo cuja história
se vai forjando em sofrimento.
Aqui os sonhos de quem passa
não se tornam bolas de sabão.
Para quem já sabe ler, desgraça,
os sonhos são uma lição
que só lhes causa embaraço.

Os negros que fumam ópio
e bebem canhos ou bagaços,
esses, Irmãos, não sonham;
embriagam-se apenas, e o ódio
que neles nasce sabe a álcool
e não tem sequer fundamento;
mas os que fazem blocos de cimento,
os que vivem nas construções,
os que cantam no cais,
os que perfuram as minas do Rand,
os que vendem peixe no bazar,
os que batem chapas nas oficinas,
os que são diligentes serventes,
esses e só esses devem contar
para os grandes sonhos de luar,
em que as danças acordam anseios.

Anseios de sonhar com outro luar,
com Mary Anderson e Nova Orleans,
Com Chicago, Nova York e Nova Orleans.

Aqui, Richard ou Gualter
a medida do Universo
não é o tamanho do amendoim,
nem a medida certa ou incerta,
Irmãos, dos versos que escrevi.
A medida do Universo, aqui
é a largueza dos sonhos de cada um.
Não importa a profundidade da cor.
Interessa apenas que o sonho
seja uma porta para uma humanidade
mais bela e menos ruim
mais viva tolerante e profunda
com princípio meio e fim.


Virgílio de Lemos

3.5.08


Agora o céu não é das aves


Agora o céu não é das aves,
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!

Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!

Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.


Reinaldo Ferreira



Se eu nunca disse que os teus dentes



Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São dónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo olhos, lábios, dentes.


Reinaldo Ferreira



Uma casa portuguesa


Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Reinaldo Ferreira


video


2.5.08

Outono


tanto oiro pela tarde
no poente espalhado

com "olhos deslumbrados"

submeto-me
transmuto-me

sou árvore


Glória de Sant'Anna


1.5.08


A Dama e o Jogral



Proscrito na pátria, saborosa ironia!,
a mim coube o destino de cantar-te
na toada monótona deste áspero bordão.
Vários foram os que, por elaborados
contratos ou vantajosas conveniências
de família, te esposaram em uniões
burocraticamente consumadas e te expuseram
a seu lado na pompa solene
dos cerimoniais para os três Estados.
Por seu braço desceste aos jardins,
às praças, aos garridos festins do povo,
com dignidade inerente à tua posição
presidiste, na gala de tuas melhores roupagens,
a inaugurações, actos públicos e religiosos
e, sozinha, meditaste reclinada junto
à babugem da areia. Mas a alegria
maior, a mais íntima, guardava-la sempre
para a mirada terna que nunca deixámos
de trocar. Ensina-o uma velha sabedoria:
enquanto dorme o castelão, penetra
o jogral humilde na alcova da princesa.


Rui Knopfli