31.3.08



Silêncio


Silêncio aberto
de plenitude
como uma ilha
num lago fundo

Silêncio exacto
cheio de música
vindo de nada
contendo tudo.

É este agora
deste momento
em que estando
me ausento.


Glória de Sant'Anna



Atributos Divinos


O pudor é um atributo divino
O impudor selvagem também
E o riso aberto e o choro alto
E a lágrima recolhida nas mãos solitárias da noite
E o sorrir para si próprio que ninguém mais entende

Tudo isso são atributos divinos
São as estações do ano
Próprias do amor


Alberto de Lacerda


Infinitas fiadeiras


A aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!


Mia Couto


Poema


Esta última lágrima
era de oiro

Aqui estou
como uma pétala solta

O vento me levará
ao último azul

E serei horizonte

Glória de Sant’Anna

30.3.08


Aldeia Queimada


Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.

É
de cinzas
o vestígio das palhotas.

José Craveirinha

28.3.08


Para um idílio clandestino


Deixa-me que te beije
ao de leve o rosto na manhã nova
e meus dedos acariciem
nervosos a curva meiga do teu seio.

Meu amor:
o senso fragmenta-me a sensibilidade
e o que seu sinto-o
larva plena do que há-de vir.

Tu e eu
envolvidos nesta aventura
esperamos o comprometido instante
nalguma parte de nós.

Vai. Não te esqueças.
Nesta manhã do Infulene
ao quilómetro dez da liberdade
o sobrenatural acontece:
É assim.
Eu preso.
E tu minha mulher
depois da visita partes à vontade
mas não livre.


José Craveirinha



Nossa irmã lua


Uma irmãzinha meiga que nos cubra
a todos com a quentura terna e gostosa
do seu carinho...
que entorne toda a sua claridade
sobre as nossas tristes cabeças vergadas
e, como um feitiço forte e misterioso,
nos afugente as raivas fundas e dolorosas
de revoltados,
com a sua morna carícia de veludo...
sua enorme mão,
luminosamente branca, consegue-nos tudo.
E sob o seu feitiço potente, serenamos.
E pouco a pouco, momento a momento,
Sossegando vamos...
Fechando nossos olhos pacientes de esperar,
Já podemos vogar no mar
Parado dos nossos sonhos cansados...
E até podemos cantar!
Até podemos cantar o nosso lamento...
De olhos para dentro, para dentro de nós,
Sentimo-nos novamente humanos,
Somos nós novamente,
E não brutos e cegos animais aguilhoados...
Sim. Nós cantamos amorosamente
A lua amiga que é nossa irmã.
– Embora nos repitam que não,
nós o sentimos fundo no coração...
(que bem vemos
que no seu largo rosto de leite há sorrisos brandos de doçura
para nós, seus irmãos...)
só não compreendemos
como é que, sendo tão branca a nossa irmã,
nos possa ser tão completamente crista,
se nós somos tão negros, tão negros,
como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...


Noémia de Sousa



Dedicatória


Aos poetas que pensam e dizem versos
mas não os sabem escrever
e por isso anónimos lhes chamam.
Nas rochas corroídas pelo sal de outros mares
navegados para implantar espada cruz e poder
nas rochas onde o luar desnuda o silêncio
pulsando canções da noite assim povoada
e que o sol inflama e semeia
sobre as efémeras gostas de cacimba
renovadas com cintilações das estrelas,
aí eu gravarei seus nomes.
E os amantes pressentindo
os hão-de perguntar e saudar.

Orlando Mendes



Lua Nova


“Quenguêlêquêze!... “Quenguêlêquêze!... (Lua Nova)

Surgia a lua nova,
E a grande nova]
— Quenguêlêquêze!...— ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,

Loucamente,
Perturbadoramente...

Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...

E ao som de palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas impias inimigas
— obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.

“Quenguêlêquêze!... Quenguêlêquêze!...”

Uma mulher de vez em quando vinha,
Coleava a espinha,
Gingava as ancas voluptuosamente,
E diante do homem, frente a frente,
Punham-se os dois a simular segredos...
— Nos arvoredos
Ia um murmúrio eólico
Que dava à cena, à luz da lua, um que diabólico...
“Quêze!.Quenguêlêquêze!...”

... Entanto uma mulher saíra sorrateira
Com outra mais velhinha;
Dirigiu-se na sombra à montureira,
Com uma criancinha.
Fazia escuro e havia
Ali um cheiro estranho
A cinzas ensopadas,
Sobras de peixe e fezes de rebanho
Misturadas...O vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para fora o ar abafadiço,
Um ar de podridão...
E as mulheres entravam com um tição:
E enquanto a mais idosa
Pegava na criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe: “Olha, é a lua”,
A outra, erguendo a mão,
Lançou direito à lua a acha luminosa.
— O estrepitar de palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo... foi crescendo...
Lentamente...
Como se fora em brando e afogado leito
Deitaram a criança, revolando-a,
Ali na imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o peito...

Então, o pai chegou,
Cercou-a de desvelos,
De manso a conduziu p´los cotovelos,
Tomou-a nos seus braços e cantou
Esta canção ardente:

“Meu filho, eu estou contente!
Agora já na temo que ninguém
Mofe de ti na rua,
E diga, quando errares, que tua mãe
Te não mostrou a lua!

Agora tens abertos os ouvidos
Para tudo compreender;
Teu peito afoitará, impávido, os rugidos
Das feras, sem tremer...
Meu filho, estou contente!
Tu és agora um ser inteligente,
E assim hás-de crescer, hás-de ser homem forte

Até que já cansado
Um dia muito velho
De filhos, rodeado,
Sentido já dobrar–se o teu joelho
Virá buscar-te a Morte...
Meu filho, eu estou contente!
Agora, sim, sou pai!...”

Na aldeia, lentamente,
O estrepitar das palmas foi morrendo...
E a lua foi crescendo...
— Crescendo
Como um ai...


Rui de Noronha



Princípio do dia


Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.


(Amanhã volto a experimentar).


Rui Knopfli



Nampiali


Verde carmim azul e violeta
e nós
marchando no planalto

Em baixo
o vale
e as machambas de Nachinhooo

Mais longe
nas encostas do Nampiali

as árvores
verde carmim azul e violeta
enchem os nossos olhos

É já o pôr do sol

Vamos marchando
e as vozes vão cantando

«somos soldados da FRELIMOOO…»

Verde carmim azul e violeta
e nós
marchando no planalto
Luindo sempre para além

verde carmim azul e violeta

Aqui os portugueses foram

Aqui os portugueses não voltarão

Agora nascem os campos de produção

«Deciiididos
Nós lutaremos…»

Nós
marchando no planalto
seguindo para além

e sempre nos nossos olhos
as cores suaves e doces
de verde carmim azul e violeta
na paisagem quente
da terra livre de Moçambique


Marcelino dos Santos



Paisagem com poema em segundo plano


I

«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».
Através das palavras, as que sobraram
dos outros e se encurvam à luz
edificámos a casa, flores alucinantes
e a canganhiça do fogo eterno
que há no amor.
Com esta não invoco um nome
e o meu país, acocorado, volta-se de perfil
com suas mulheres magras e sombrias e trágicas
pegando fogo aos sexos extenuados
As quizumbas deixam de ladrar
quando o medo cessa e da paisagem em movimento
(os rios inúteis? o crepúsculo das vontades?
os cascos do remorso? as crianças sublevadas?)
nomeia-se, se embebe tipograficamente
a humildade dos vultos em fila
ante o impossível milagre dos pães.
Como no circo
há quem não bata palmas.
«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio»
mas lembro, soletro devagar:
nocturno e geralmente inacessível
um homem percorre todos os lugares
e volta-se escuramente
para dentro de si
- que é a única prisão disponível
para o tamanho da sua luz.
As estrelas baixam ao nível do chão
e guardam-no para a eternidade
que há em cada sono.



II

Tudo veio de muito longe
(murmuram-no as mulheres expostas
acariciando o púbis chamuscado)
para todo este território
onde as formas rápidas e convulsas
explicam as cabeças submergidas
na vertigem fabulosa
das parábolas.
Da infância à adolescência
os meninos souberam-no pelo Índico
na concha cheia de suas mãos puras e arrebatadas:
a dimensão do real é sempre discutível
como o adivinharam há muito
as aves canoras inundando
a inteligência da terra.
Fluo e refluo no tempo e na sua sombra
e dissimulo-me no capim, nos corais, no jardim urbano,
nas orelhas apreensivas, na crispação de alguns cristais
e sobretudo nos músculos das palavras ausentes
a crescer no formidável espaço do poema
- o amor inundará tudo
até ao sabugo das unhas.
Das letras, em algumas noites,
são esses os sinais que recebemos.



III

É isso: morre-se ou vive-se na ambiguidade
mas o amor empolga como nunca
antes em qualquer nervo desta galáxia.
Então pensamos:
por cima de toda a folha
há a luz, este surpreendimento
a suor de animais insaciados que se veste de nós
e de nós se assombra (ou inquieta, subverte?)
a urbana convivência
tecida em silogismos
e recamada de ódios.
As coisas, ah as outras coisas
surgem pela própria ausência.
E assim
há gente que ama a fome
pois sempre aprendeu dos novos fabulários:
a burla nasce quando a dúvida
acontece o simples e delicado povoado
onde o coração emite
as seculares ondas de repulsas.
As palavras amadurecem, transcendem-nos.
Como os dias. Este trajecto imemorial.
Os vãos escuros das escadas. Os estádios ao sol.
As vazias mesas. Uma criança estremunhada na noite.
O império dos sentidos. Uma braçada de folhas de mandioca.
Das mulheres feridas, a teimosia. Na pele, os mil olhos.
E insuspeita, delicadamente
a sombra reflexiva
(há séculos? desde ontem?)
de um escriba na audição
do poema que não fará.
Porque, hoje como nunca,
«tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».


Heliodoro Baptista




Desligado


Era bom se
amanhecesse
neste sossego
presente
sem pensar
no futuro
nem mesmo
no castigo
que o livro
evoca
era bom
se obedecesse
minha alma
sem ter que
obedecer
as estrelas
as árvores
e as raízes
era bom se
meu coração
cantasse
a canção
de liberdade
sem ter que recorrer
aos ancestrais,
ancestrais
escondidos
no embondeiro
ou talvez
neste ar impuro...
era bom
que olhasses
p’ra mim
como humano
não escolhido
mas também
humano de bem
como o infinito!


Domi Chirongo



Se me perguntares


Se me perguntares
Quem sou eu
Cavada de bexiga de maldade
Com um sorriso sinistro
Nada te direi
Nada te direi
Mostrarte-ei as cicatrizes de séculos
Que sulcam as minhas costas negras
Olhar-te-ei com olhos de ódio
Vermelhos de sangue vertido durante séculos
Mostrar-te-ei minha palhota de capim
A cair sem reparação
Levar-te-ei às plantações
Onde sol a sol
Me encontro dobrado sobre o solo
Enquanto trabalho árduo
Mastiga meu tempo
Levar-te-ei aos campos cheios de gente
Onde gente respira miséria em toda a hora
Nada te direi
Mostrar-te-ei somente isto
E depois
Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo
Tombados por metralhadoras traiçoeiras,
Palhotas queimadas por gente tua
Nada te direi
E saberá porque luto.


Armando Guebuza



Na zona do inimigo


as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

“permanecer no interior do país
cumprindo tarefas que vos daremos

guardar o santo e senha
que de Dar-es-Salaam vos irá
revelar a cada um
as fronteiras da humilhação
e depois a luta e a conquista
de novas zonas libertadas”

as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

e aguardaremos ansiosamente
o mensageiro que já tardava


Rui Nogar


26.3.08


Moçambiquicida


Das incursões bem sucedidas aos povoados
sobressaem na paisagem as patrícias
sacarinas capulanas de fumaça
e uma fervura de cinco
tabuadas e uns onze
- ou talvez só dez -
cadernos e um giz
espólio das escolas destruídas.

Sobrevivos moçambiquicidas
imolam-se mesclados
no infuturo.


José Craveirinha



Ponta da Ilha



Nem o solo em que assenta o estuque
de nossos casebres foi poupado.
Olhai em redor e podeis vê-lo
convertido na sólida pedra de vossos bastiões,
nos opulentos muros da máquina de guerra
que, pacientemente, fostes erguendo
por nosso trabalho, suor e amargura.
Daqui mal lobrigamos o mar.
Sentimo-lo apenas no odor e na viração
que tremula ao topo das palmeiras.
Perfazem o horizonte raso deste microcosmos
em que a fome, apesar de tudo, sorri.
telhados de macute que se repetem
sempre iguais, ruelas de terra batida
entrelaçadas em labirinto rústico,
o peixe, sobre a teia de lacalaca,
curtindo ao sol de um longo meio dia,
as crianças que brincam seminuas
na poeira cinza, o cão esquelético
preguiçando à sombra e a galinha
tonta que cisca na distância.
À nossa volta sobram os templos e os deuses.


Rui Knopfli


Rigor


Quando passa e aí devotamente se demora
o erudito na volúpia dos contornos subtis
para televisionar durante uma hora
o que se pratica e mais o que se diz
não pense que dispensamos o rigor da geometria
e da linguagem que nos faz a fala.
Sabemos como se desenha e pronuncia
cada sílaba de palavra nova
porque o escrúpulo gramatical é a verdade que o prova
assim um corpo no amor outro possui e dá-se
e a mulher pariu um filho e o embala.
Sim usamos régua, esquadro e compasso
e o vocábulo e a sintaxe
para medir a minúcia de cada traço
e formar o sentido exacto de cada frase
não leccionados. E se for preciso que se arrase
o antigamente caiado e agora decrépito muro
onde mão privilegiada escreveu
em nome da metrópole cerebral
«decreto: quem sabe e dita sou.»
Hoje temos o mar e o nosso próprio sal.


Orlando Mendes



Antecipadamente escorregadia


Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio

Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais

O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado

Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada

Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão


Jorge Viegas



Sagrado coração dos meus anseios


1
Não faças de mim o que não sou nem
quero ser
não serei peixe nem ave nem
asa ou vento
nem gritos de quizumbas ao desdém
da lua
naus da fantasia, nem cega luz
da solidão nem
mais, nem...

2.
Serei antes o que sou, mulher
de mil segredos
mil mistérios no mar sem
fundo vulcão secreto
e frágil
de mim para mim.

3.
Não serei nem mar-terra nem
submersos desvelos nem
caos e cosmos
com tripas de fora versos
de dedilhar
pretextos de silabar.

4.
Tudo em mim é mais o mar que vivo
a experimentar
corpo oculto, outro em mim
a desejar
sonhos de agarrar
com as mãos
sagrado coração deste
meu mar
de fazer
desfazer
coisas
vulcão para mim
corpo de ausências
em mim
de amar
morrer
inteira
sem torcer.

Virgílio de Lemos



Onde estou


Não

Não me procureis
onde não existo

Eu vivo
curvado sobre a terra
seguindo o caminho inscrito
pelo chicote
nas minhas costas nuas

Eu vivo
nos portos
alimentando as fornalhas
movendo as máquinas
pelo caminho dos homens

Eu vivo
no corpo de minha mãe
vendendo a minha carne
o meu sexo
não é para amar

Eu vivo
perdido nas ruas
de uma civilização
que me esmaga
com ódio
sem pena

E se é a minha voz que se ouve
e se sou eu que canto ainda
é porque não posso morrer
Mas só a lua escuta a minha dor

Não

não me procureis
nos grandes salões
onde não estou
onde não posso estar

Aqui na América

Sim
eu estou também
eu estou

Mas Lincoln
foi assassinado
e eu
eu
eu
todos os dias sou linchado

O comboio especial
rolando vertiginosamente na estrada
é ouro
é sangue
que eu verti através dos séculos

Porquê
pois
procurar-me na Glória de Beethoven

se eu estou aqui

erguendo-me
nos milhões de ais
que se elevam dos porões
em todos os cais

se eu estou aqui
bem vivo
na voz de Robeson e Hughes
Césaire e Guillén

Godido e Black Boy renascidos
nas entranhas da terra
transformando com o meu corpo
os alicerces da vida

se eu estou aqui

soma consciente e firme
dos homens
que compuseram o poema

da vida contra a morte

do fim da noite
e do começo do dia.

Marcelino dos Santos



Saudade


Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

21.3.08

Na brisa

Mulher Makua XI

Os lenços esculpidos na cabeça
de formas leves a abrigar o rosto
desvendam cores para que não esmoreça
a luz que morre atrás do dia posto

O coro agarra firme mas sem pressa
o olhar da multidão a que me encosto
os corpos e a toada uma só peça
as vozes lentas a dobrar-me o gosto

Ah brisa feminina a alongar traços
de conchas várias a nascer dos braços
que a ilha pelos séculos coou

Do mundo se juntaram mil pedaços
cor e tecidos neste porto escasso
que a ponte de mariscos adensou

Júlio Carrilho

20.3.08


Adamastor


ao chicote do vento

o mar rosna

rosna e espuma
e se levanta

ao longo das areias
numa fúria
que o conduz trazido do profundo
onde as barcas
e os mortos afogados
se diluem

e rosna
e baba
sob o chicote e o vento
até ao cabo
onde outro mar o chama

e aí se enlaçam e se batem
numa dança da força
que a água azul lhes dá

Glória de Sant'Anna

19.3.08


O Escriba Acocorado

Sentado na pedra de ti próprio,

não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.

Rui Knopfli


Quando nascemos entramos

Quando nascemos entramos

no nome pela voz dos pais:
- Dinis Albano...
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto
a cabeça, dissuadido.
Na voz de uma mulher
os nomes são
interiores a nós.
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergássemos.)
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
- tu?!... - correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos cultos,
nem sabemos da sua
cessação.

Sebastião Alba


Em Dezembro as acácias


com as tuas flores rubras farei brincos

pulseiras e colares

para dar ás sereias
que na alta maré cheia
em noites brancas de lua

saem da água
para cantar

Glória de Sant'Anna

18.3.08


Pesca


Os pescadores levam as redes
até à margem que os suspende
e olham o sol e as manchas da água
e entendem.

Imergem todos e estendem a rede
tecida estreita e apertada
e cada cabeça sobre a espuma
é como o destroço de um barco.

Aguardam, aguardam em grupos que fazem
marcas geométricas ao cimo do mar
e o tempo desliza ante seus olhos
o peixe que espreita e a areia molhada.

Mas voltam sem nada: fugiu o cardume.
enrolam a rede tecida apertada
e marcham na praia sulcando uma esperança
de que só o rasto é que se desfaz.

Glória de Sant'Anna


Persistência


Nesta civilização
o que descubro é
o ódio no coração do mundo.

Mas persisto
porque da seara da vida
ao hábito de procurar
o amor dos homens
restam sempre os grãos ao fundo.

José Craveirinha



Alma e Caco


A garrafa na lama
lembra uma alma no mundo:

sua clara transparência
se revê apenas
quando ela se houver quebrado


Mia Couto

17.3.08


Inventário


Rosas inglesas rosa-pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça do ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man's Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.

Rui Knopfli


A descoberta da poesia


Tantos anos a porfiar nas madrugadas
uma juventude em versos e atitudes líricas.

Tantos gestos graves e enfáticas palavras
que ameaçaram desorganizar o caos no mundo.

Tantos livros e poetas inscritos na memória
que sublimaram o cansaço dos dias e noites embriagadas.

Tantas pálpebras queimadas à parca luz de uma escrita
incessante mas de generosa e complacente inconsequência.

Tanta ilusão para descobrir afinal
que a poesia não se escreve, vive-se.


Nelson Saúte

O que vocês não sabem nem imaginam


Ao Abdul Magide, ao Pilinhas, ao Ungulani, ao Rui, ao Zé Camadjoma e outros


Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prender o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
e é com ele que amo
escrevo versos
e faço filhos.



Eduardo White



Poema décimo terceiro


Megama régulo grande
anda por cima do tempo
tem longas palavras duras
que lança por muita gente

seus gados pastam por longe
ao lugar onde o sol desce
conta por muitas machamba
seus filhos suas mulheres

caminha muitos caminhos
que tocam os horizontes
dos pensamentos tecidos
em volta da sua fronte

Megama é régulo grande
de todo o mato ao redor

É escolhido Megama para a luz da tarde
que se infiltra na sala
para ser na luz da tarde solene e aplaudido
e oferecer o peito a uma medalha

de fidelidade

não por ser rico e grande na árvore
dos régulos de que parte
mas por uma firme palavra

de fidelidade

Megama é régulo grande
agora em toda a parte

(a fidelidade
está entre o sonho e a verdade
e não se nutre de palavras:
é grave

mas frágil
e usa a veste
da hora a hora de um dia enorme

vigília
é seu outro nome

esperança
sua qualidade

coragem
sua estrutura imutável)

ai, Megama régulo grande
repetido entre os ecos do Chiure
quebrou sua medalha
quando o primeiro grito do n'pure se soltava
para um prenúncio de chuva nas altas árvores

o medo rastejava
atrás de Megama grande porque havia ameaça
e gumes brilhavam entre a folhagem
dos diversos caminhos de seus passos

e ele (ai) fios brancos no cabelo crescendo
como flores de algodão
palavras de duas faces no lábio
e em seu coração (ai) quem pode
saber em quantos cristais sangrentos
se solta o que se chama alma
e é princípio e fim do homem

Megama régulo grande
quebrou sua medalha

Depois na fortaleza de cinco pontas
copiada de uma estrela no céu de luto
Megama ficou igual a tudo tudo
que fermenta, se decompõe e deteriora
na cúmplice penumbra morna

e mudo
lentamente perdendo sua figura
curvando-se para ser sugado antes da hora
para a terra sem lápide rasa e nua

ele tombou para sempre num tempo sem memória


Glória de Sant'Anna


16.3.08


Poema de amor


Ai, eu te digo que a noite é inútil
para o instante que me contém
- só vejo as estrelas que se desfazem
pelo céu adeante.

E ai, eu te digo que as longas palavras
me são todas distantes
- só escuto o silêncio que por elas fica
pela vida adeante.

Estrelas e silêncios é o que me detém
ainda um momento
por isso te pareço já tão ausente
em qualquer tempo.

Dá-me a tua mão - e saberás
qual é a harmonia
que me destrói e me refaz
na exacta medida.

Glória de Sant'Anna


O aviador



O ruído dos motores é uma forma
de silêncio compacto. Em sua crista
se isola o piloto pairando suspenso

no murmúrio dos céus. Seu ponto de vista
é o das grandes aves e seu olhar
abarca os imensos espaços silentes,

os tons verdes da paisagem, o bordo
das montanhas e o lado de lá
do horizonte. No coração tubular

da máquina, o piloto é,
a seu modo, um poeta.


Rui Knopfli



O Cavalo do Mouzinho


Ironicamente, o herói colonial defendeu
e ajudou a fixar as fronteiras do país
que havia de converter-se em pátria alheia.
Décadas volvidas, caía uma chuva miudinha,
segundo consta, apearam-lhe a estátua

do alto plinto. Caía uma chuva miudinha,
mas o Sr. alberto Massavanhane garante,
solene e com ar grave, talvez com um nó
na garganta, que não, não era só chuva
e que, mesmo de bronze, até o cavalo chorava.

Rui Knopfli

Região


Os pinheiros têm o verde pelo ar
e a caruma desce-me nos pés
até ao passo seguinte.

O vento enrodilha os gorgeios
de um pássaro nos ramos,
e faz tremer o sol
até ao outro lado erguido das montanhas...

Eu estou contigo na solidão:
e tudo aqui é grande porque estás aqui.


Glória de Sant'Anna


Marinha


A negra curvada dentro do mar
colhe conchas (e mágoas).

Seu filho no dorso virado ao céu
adormece (e que sabe?)

Ela mergulha os pés
no tecido das algas;

ele sustido se embala
por sobre a mansa água.

Os dois cumprem o instante
que lhes cabe,

dentro do sol morno
da manhã exacta.

O resto à sul volta
nada vale.


Glória de Sant'Anna



O que mais dói na miséria
é a ignorância que ela tem
de si mesma. Confrontados
com a ausência de tudo, os homens
abstêm-se do sonho, desarmando-se
do desejo de serem outros.

Mia Couto