27.2.08

Húmus de Amanhã



Não quero que vejas
nem sintas
a dor que me amargura;
Não quero que vejas
nem vertas
as lágrimas do meu pranto.
Deixa que eu chore
as mágoas e as desilusões;
deixa que eu deambule;
deixa que eu pise
a calidez do chão desta terra
e o regue até com o meu suor;
deixa que me toste
sob este sol inóspito
que me dardeja o lombo sempre arqueado...
Este penar
é o resgate da esperança
que em ti alço!
Este penar
é a certeza do amanhã que vislumbro
na tua ainda incipiente idade!
Não quero que vejas
nem sintas
meu tormento
ele é o húmus do Homem Novo



Juvenal Bucuane


Poema para Eurídice Negra


Dos teus seios negros
nasceram os rios do povo negro

Eurídice,

e o sol e o fogo
foram sol e fogo
nos teus olhos de África

Eurídice.

na virgindade do teu sexo,
puro como as minhas florestas,
morreram milhões de escravos,

Eurídice,

Mas tu és amor,
na imensidade do Índico
possuindo Moçambique,
és o sonho,
na tranquilidade do Níger
acariciando o Sudão amado,
minha África-Eurídice
que o tam-tam de guerra
ainda não acordou
Levanta-te e vem,
que soam as marimbas e o tambor
do nosso povo!
Quando eu construí as pirâmides,
só te vi a ti,

Eurídice,

O Cruzeiro do Sul
foi nosso palácio
quando reinei
no meu império do Mali;
depois vieram os navios,
e arrancaram-me o teu coração,
e a minha voz
ficou rouca
nos trompetes que te procuraram;
mas agora

Eurídice,

os nossos corpo
voltaram-se a encontrar,
as mangas
ficaram douradas
e as buganvílias floriram,
as acácias
vestiram o negro
do teu corpo nu.
E o Zambeze
que atravessou toda a África,
o Zambeze
que acariciou todo o corpo

de Eurídice,

o Zambeze
uniu-se ao Congo
e ao Niger
e ao Nilo
e a toda a África-Eurídice.

Vem Eurídice,

vem,
vamos correr pela savana
e dar as nossas almas à chuva
para elas crescerem,
rolaremos
na esperança verde do capim;

Eurídice,

são doces os frutos
das nossas árvores,
e as flores da nossa terra
vivem em perfume no ar,
nos nossos céus
há mais estrelas,
nos nossos olhos
há mais luz,
nos nossos pulsos livres
há mais sonho...

Vem Eurídice, vem!


Sérgio Vieira

Tempo das glicínias


Rejuvenescia o granito
do muro tão antigo
sob a luz das glicínias!

Adoçava a austeridade
do granito a suavidade
da cor das glicínias.

Eram frescura e colorido
a primavera e as flores.
Banhavam de luz e de ternura
as glicínias do velho muro.

Era o tempo das glicínias,
era o tempo da primavera,
era a primavera da tua vida,
o seu insuspeitado começo.


Fernando Couto



A voz da terra


Cada filho deste país liberto
é trigo amadurecido
sob a garra do sol

e tal o grão se triturado
do pó se ergue explodindo
miolo-voz:
liberdade

Catanas candentes
lhes tatuaram a História
na carne da memória:
Eu, escravizada
prostituída e humilhada
até a raiva ser voz
e a voz Kalash

E sementes de fogo
gerarem a flor
da minha liberdade...

Cada filho deste país liberto
é trigo ondulando livre
no meu corpo ao vento

e seus lábios de ternura
me percorrem em suas canções de Amor:

pura melodia
velando amadurecida
sob a garra do sol

Cada filho deste país liberto
trigo debulhado
a chicote do vento

onde o inimigo ouse
ainda
me cravar opressora presa

tal grão triturado
do pó se ergue explodindo
de Kalash nas mãos
miolo-liberdade


Clotilde da Silva



Quererei alienar
Vazar os espaços da língua
Que ainda restam para contar
Sobre abruptas noites
Em que contemplarei e renascência
Dos corpos simétricos
de suor

Catalogarei em vida
Os espectros umbigos
Atravessados de legumes e preços
No estudante partidário do pão
Do pão baleado pelo sinaleiro

Quererei buscar
Na memória
O cidadão híbrido
Do tempo
Que ninguém semeia.


Jorge Matine


O Cântico da Mãe


Homens,

esses meninos
foram colhidos fundo no meu ventre

gritaram para a luz
sujos de sangue e sebo

face e corpo moldei-os
ao longo dos meus dedos

pus sol em suas mãos
e flores em seu cabelo

articulei seu lábio
e sondei sua fronte

virei seu rosto ao espaço
seu olhar ao mais longe

(Por entre cada pétala era tempo
de tecer o aroma das màluas
de tocar uma a uma cada nuvem
e de entrançar a chuva
era tempo
de medir a raiz pela pergunta
de escutar a semente mais profunda
em luta com o muchem pela terra húmida
do chicuvi
do todo azul madinde todo azul
do chèrule
do fumo esbranquiçado dos brazidos
sobre a castanha verde curva escura...)

Homens,

esses meninos
são do silêncio puro do meu ventre

sou sua cicatriz
e primeira palavra

(e se é tempo de ser gume e de ser espada,
estilhaço, ferro, lança, bronze e ouro)

amaldiçôo aquele que não mos traga

como lumes na sombra
sujos de sangue e belos
mãos rasgadas e firmes
e cinzas no cabelo
de pé, crucificados
de olhar seguro ao longe
e no lábio a palavra
que os fez de ouro e de bronze


Glória de Sant'Anna


Dia 7


No dia 7
Morreu uma camarada que vai ficar insepulta
Que vai tornar o ar perfumado e morreu
Que vai dar sempre flor de coragem e está morta
Que era da família nossa e ninguém vai chorar
Que os camaradas sabiam importante mas ela não
E vai ficar insepulta porque é um grande cadáver
E não há terra suficiente para cavar esta sepultura.

É assim mesmo
Quando alguém cresce até ao tamanho do Povo
Fica por enterrar porque é muito grande.
O Herói não tem sepultura.


Mutimati Barnabé João


Exílio


Longe embora cidade paráclita
a língua se nos cola ao céu da boca
se vier o olvido.

Banhas-te connosco em águas de desterro
flutuas sempre por nossa boca
nas praias da memória.

Nos dias mais soalheiros da diáspora
és tu quem materna vem dizer «estou aqui»
à emoção que nos habita.

Marulham outras águas aqui
mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo
o nome que nos corre à boca.

São lembranças que viajam para ti
mãe estuante que nos deste o leite e o mel
hoje por tão longe dissipados.


Fonseca Amaral



Poemas da ciência de voar


Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.


Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.


Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro.


...


Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.


Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.


Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.


Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

Eduardo White


História


Diz a História que descendo
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não propriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.


Orlando Mendes


Amanhã é Longe Demais


Fragmentos
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis

Doces melancolias

Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos

Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.

Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras

Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.


Jorge Viegas



Primavera


Estamos sentados.
E nefelibatas bebemos coca-cola
nas públicas cadeiras da praça.

E
sobre as envenenadas acácias
andorinhas geometrizam o azul do céu
e despercebidos passarinhos africanos
cantam nos verdes braços vegetais
de um parque da cidade moçambicana
onde jovens discutem as pernas de Brigitte Bardot
e abúlicas mãos tamborilam
no tampo da mesa fúteis dedos.

Mas um grupo de estivadores
vem do cais vestindo
sarapilheiras
e passa a três metros e meio
das cómodas cadeiras da praça
enquanto
cocacolizados
odes cantam nos ramos os bilo-bilana
e na surdina das tímidas meias-palavras
e subentendidos silêncios
ansiosos todos esperamos
indolentes as flores
da nossa comum Primavera


José Craveirinha



Confidências


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto



Se este poema fosse


Se este poema fosse mais do que simples
Sonho de criança...
Se nada lhe faltasse para ser total realidade
Em vez de apenas esperança...
Se este poema fosse a imagem crua da verdade,
Eu nada mais pediria à vida
E passaria a cantar a beleza garrida
Das aves e das flores
E esqueceria os homens e as suas dores...
– se este poema fosse mais do que mero
sonho de criança.

Ai meu sonho...
Ai minha terra moçambicana erguida –
Com uma nova consciência, digna e amadurecida...
A minha terra cortada em sua extensão
Por todas essas realizações que a civilização
Inventa para tomar a vida humana mais feliz...
Luz e progresso para cada povoação perdida
No sertão imenso, escolas para crianças,
Para cada doente, e assistência da ciência consoladora,
Para cada braço de homem, uma lida
Honrada e compensadora,
Para cada dúvida uma explicação,
E para os homens, Paz e Fraternidade!

Ah, se este poema fosse realidade
E não apenas esperança!
Ah, se o fosse o destino da nova humanidade
A cantar então a beleza das flores,
Das aves, do céu, de tudo que é futilidade –
Porque a dor humana então não existiria,
Nem, a infelicidade, nem a insatisfação,
Na nova vida plena de harmonia!


Noémia de Sousa


Trecho da Praia


Como por um ralo atrás da pupila,
vêem-se agir:
nada divide o caranguejo, dividindo
os lodos em seu sulco,
e também suas pinças se amotinam
à passagem, com sombra,
duma ave marinha...

E antes da chegada ascendente do mar,
ou que alguém module a voz
pela que da nuvem soou
no paraíso, amam-se na areia.
Enquanto do largo
o halo dum navio nocturno
se expande e irisa em seu redor.


Sebastião Alba


Estamos juntos



Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.

José Craveirinha


Imagem


No firme azul do desdobrado céu
Decantarei a mínima magia
Das sensações mais puras, melodia
Da minha infância, onde era apenas Eu.

Da realidade nua desce um véu
Que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria,
Que prende esta janela ao claro céu.

Despido o ouropel desvalioso,
Já não apenas servo, mas o Rei
Da luz da minha lâmpada nomeia.

Assim procuro o centro misterioso
Do mundo que hoje habito, onde serei
Concêntrica expressão da vida inteira.


Alberto Lacerda



Quando deponho sobre os teus dedos

Quando deponho sobre os teus dedos de frio
uma mão de grinalda e de sonhos
vejo o amanhã inscrito nos teus olhos.


Armando Artur


Irmão europeu


Não confundas
Meu irmão europeu,
A palavra europeu
Com a cor da pele.

Não confundas
Meu irmão europeu,
A palavra africano
Com a cor da pele.

Meu irmão europeu,
No século XXI, estamos
E europeu ser
Na cor da pele está não.

Meu irmão europeu
No século XXI, estamos
E africano ser
Na cor da pele está não.

Meu irmão europeu
Só se pode sentir
A pele da cor que vestires
E não a cor da pele
Que não sentires.

Ser ou não ser
Não é a questão,
Pois a pele da cor
Está do lado do coração
E a outra, está na aparência.

E, somente dói
Ausente de paixão
E nossa alma corrói,
Sem Amor nem compaixão.

Mas, meu irmão europeu,
Um dia compreenderás,
A minha indignação
Quando como eu, vestires
As peles de todas as cores!

José Craveirinha

25.2.08


A ave pintada



A ave pintada veio
dos teus olhos de cristal
igual a todas as aves
esguias dentro das árvores

ou atiradas no azul
pelo anseio incontido
de quebrar todos os fios
presos aos certos caminhos

onde as nossas asas cumprem
erradamente o destino
de não sermos soltas aves
dentro de todas as árvores.


Glória de Sant'Anna


24.2.08


Negro



Dorme a menina
enquanto o escravo vela.
E enquanto ela sonha
ele espreita a vida no limiar da janela.

Como seus irmãos
que cruzam a estrada
e arrastam grilhetas
ele sente esmagada
suas mãos e sua alma.
Como seus irmãos
aprendeu a esconder
a dor da sua dor.
Aprendeu a sofrer
e a sorrir sem rancor.

Seus olhos vão postos
na dona menina
que sonha e sorri
e pensam na cor
que deus deu à pele
da dona menina
e é causa da dor
da dor infinita
dos negros escravos
que são seus irmãos
e arrastam na estrada
pesadas nas mãos
mil saudades loucas
feitas de tragédia.

Dorme a menina
Enquanto o escravo vela.
E enquanto ela sonha
ele espreita a vida
no limiar da janela!...

Virgílio de Lemos


Banalidade




Vou cavar uma tumba
coser uma cruz de madeira
semear um punhado de flores

Para aquele cachorro vadio atropelado na rua

Que eu perdi a força
para abrir covas
aos homens mortos que semeiam a cidade e os campos


Ruy Guerra

Menina dos olhos tristes


Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Por que a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste o amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A lua, que é viajante,
É que nos pode informar,
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar,
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.


Reinaldo Ferreira


video


Poema


Mãe!
Não me digas
que sempre foi assim
que, sempre, o medo
foi a nossa herança.

Mãe!
Eu quero partir
as tábuas dessa lei.


Vítor Evaristo

Rosa no asfalto


O carro deslizou lentamente
no asfalto negro molhado de chuva…
De dentro dele
a mão menina deixou cair,
silenciosamente,
uma rosa branca, entreaberta…

Uma rosa branca
perdida
no asfalto negro molhado de chuva…


Orlando de Albuquerque

Impressionismo


Menina negra foi a enterrar

em caixão branquinho
enfeitado com uma cruz vermelha.

O branco falava da virgindade

e o vermelho do sangue d'Aquela
cujo sangue também coagulou.


O sol entornava amarelo

e o verde-verde dos ciprestes

não falava de esperança.


Naquele falso bailado de cores

menina negra foi a enterrar.

Fonseca Amaral


Falemos de miosótis


Visto que
Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada


Alberto Lacerda


Quadras da minha solidão


Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...


Clotilde Nunes Silva


Felizes os homens


Felizes os homens
que cantam o amor.

A eles a vontade do inexplicável
e a forma dúbia dos oceanos.


Eduardo White

21.2.08

Torresmos à machimbombo queimado



À partida o machimbombo parecia
um ónibus lotado de gente
em viagem.

Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes da terminal.

Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.

O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original

José Craveirinha

Kanimambo


Kanimambo
Kanimambo

Kanimambo
Kanimambo, kanimambo, kanimambo

Kanimambo
Só contigo
Eu consigo
Entender o amor

Kanimambo, Kanimambo, Kanimambo,

Kanimambo
Preso aos laços
Dos teus braços
A vida é melhor

É por isso
Quando me sorris
Que o feitiço
Me faz tão feliz

E me obriga a que eu diga
Kanimambo

Como o negro diz
Obrigado
Muchas Gracias
Merci bien
Tudo é Kanimambo

Danke Schon
Gracia tanta
Many Thanks
Tudo é Kanimambo

Kanimambo

Kanimambo, kanimambo, kanimambo

Kanimambo
Se mais linda
Fosse ainda
A expressão de ti

Kanimambo, Kanimambo, Kanimambo

Kanimambo
Não diria
Como eu queria
O que és para mim

Não sei bem
A razão porquê
Sei que dei
E que não sei quê

E que ao ver-te
Sou credor
De dizer-te
Kanimambo

Obrigado
Muchas Gracias
Merci bien
Tudo é Kanimambo

Danke Schon
Gracia tanta
Many Thanks
Tudo é Kanimambo

Obrigado
Muchas Gracias
Merci bien
Tudo é Kanimambo

Danke Schon
Gracia tanta
Many Thanks
Tudo é Kanimambo


Rui Knopfli


Agora não professo


Agora não professo
nem sussurro ao vento
os segredos que reinvento,
remo na transumância dos dias.
O sonho, esse discípulo
da noite dissipada,
inspira-me à peregrinação.
Agora não tenho fronteiras,
mas quando o exílio da memória
me retém o espelho dos dias
ao sentido original das coisas
regresso, porque é necessário
ser contemporâneo do tempo.
Agora, sim, professo:
viver e abraçar os rumores
do presente.


Armando Artur



Tempo Adormecido


Um dia o sonho
Despertou suavemente...

Flores coloridas
Dão um brilho perfumado
Ao voo encantado dos sentidos...

Ondas sonolentas
Salpicam memórias
Pintando quadros iluminados...

Brilhos celestiais
Envolvem sensualidades
Sorvendo carinhos transparentes...

Melodias encantadas
Escorrem delicadamente
Por entre aromas apaixonados...

Abrem-se as janelas do infinito
Absorvemos o esplendor do tempo adormecido
E lentamente descobrimos o amor
Diluído na imensidão dos jardins do universo.


Jorge Viegas


20.2.08

Poema

Pés descalços

pisam caminhos de areia


Pés descalços

pisam sujos caminhos de areia


Pés cansados negros e descalços

pisam tristes sujos caminhos de areia


Pés negros

pisam tristes caminhos da vida

Ilídio Rocha


Insurreição


Vós, ó fantoches da vida embalados na onda sinuosa da alegria, Enquanto milhões e milhões de pretos morrem de desalento fustigados pela chuva diabólica da miséria,

Que julgais que a minha voz há de secar um dia finalmente no leito pedregoso dos meus lábios,

Escutai o som metálico do látego violento das minhas palavras libertas de grilhões nos pés!

Pode a brisa deixar de ouvir meu rude canto,

Pode o vento esconder-se nas furnas da solidão eterna quando eu erguer a voz aureolada de lágrimas ao infinito,

Podem os regatos parar bruscamente a serenata nervosa e pura das suas águas,

Podem as montanhas ruir estrondosamente a sufocar meu grito,

Podem até os Céus deixarem de descer à Terra para ouvirem o badalar sonoro da minha angústia,

Que eu cantarei ainda!... Que eu cantarei em ritmo desenfreado de avalanche de mundos em labaredas!...

Vós, ó sombras apagadas para sempre nesta hora de ranger os dentes e de imprecações recalcadas,

Podeis aprisionar todos os pássaros de voz de fogo na férrea gaiola do esquecimento,

Podeis até amordaçar cruelmente as bocas dos grandes ideais,

Que eu cantarei ainda... porque o meu canto rebentará a golpes de silêncio as próprias fronteiras da morte! ...


Albuquerque Freire

Canção da Angónia


Visto a camisa lavada
e vou para o contrato.
Quem de nós,
quem de nós irá voltar?
Vinte e quatro luas,
sem ver as mulheres,
sem ver a minha terra,
sem ver o meu boi.
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
Visto a camisa lavada
e vou para o contrato,
trabalhar lá longe.
Vou para além da montanha,
para lá do mato,
onde some o rio.
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
Quem de nós irá morrer?
Veste a camisa lavada,
e hora de ir ao contrato.
Entra, irmão, no vagão,
vamos andar noite e dia.
Quem de nós.
Quem de nós irá voltar?
Quem de nós,
quem de nós irá morrer?
Quem de nós,
Quem de nós irá voltar
e ver as mulheres,
e ver nossas terras
e ver nossos bois?
Quem de nós irá morrer?
Quem de nós?
Quem de nós?

Gouvea de Lemos



Se me quiseres conhecer



Estuda com olhos de bem ver
Esse pedaço de pau preto
Que um desconhecido irmão maconde
De mãos inspiradas
Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida
boca rasgada em ferida de angustia,
mãos enorme, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis
pelos duros chicotes da escravatura...
torturada e magnífica
altiva e mística,
África da cabeça aos pés,
- Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
Vem debruçar-te sobre a minha alma de África,
Nos gemidos dos negros no cais
Nos batuques frenéticos do muchopes
Na rebeldia dos machanganas
Na estranha melodia se evolando
Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,
Se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne
Onde a revolta de África congelou
Seu grito inchado de esperança.


Noémia de Sousa


Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.

Gesto, claro, é maneira de dizer,

Pois o que importa é o resto

Que esse gesto tem de ter.

Tem que ter sinceridade

Sem parecer premeditado;

E tem que ser convincente,

Mas de maneira diferente

Do discurso preparado.

Sem me alargar, não resisto

À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,

Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas

Por não saber começar,

Que tentações de falar!

Porque enfim, como adivinhas,

Esse gesto eu sei qual é.

Reinaldo Ferreira

Buganvílias para a menina de Benguela

(para a sua esposa, Alda Lara)

Trago em meus braços ramadas de buganvílias vermelhas para a última morada da que foi a Menina de Benguela e se está tornando a Menina de Angola.
Bem sei que os ramos de buganvílias têm espinhos, que laceram a carne fundo.

Mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo, poderei deixar de trazer estas buganvílias vermelhas, de que tanto gostavas...

Vermelhas como o sangue que os nossos corações têm chorado...

Vermelhas como o sangue que a inveja (até depois da morte a inveja não te deixa) está fazendo brotar da nossa tristeza...

Menina de Benguela toda sonho e ternura...
Sonho que uma manhã tropical cortou cerce, como uma flor arrancada violentamente de uma haste...
Aceita estas buganvílias vermelhas, que te trago num momento de desespero e de revolta.
Revolta contra o destino...
Revolta contra a vida...

Revolta contra a inveja...

Não mais poderei estar ausente, quando a tua lembrança clamar por uma presença nas primeiras linhas...

Seria cobardia fugir.

E eu não quero ser cobarde.
Aqui estou, pois, com este ramo de buganvílias e de coração sangrado pelos espinhos.

Mas estou!
E o que é preciso é estar.

Que as buganvílias se tornem no símbolo do teu querer e do teu sonho...
Que os espinhos me lacerem, quanto mais as aperto contra o peito.

Mas que importa?...

Que importa o desespero, a raiva, se somos?...

Se trazemos até ti este punhado de buganvílias, de que tu tanto gostavas?

E eu aqui estou...

Que nesta noite de tristura o vivo das flores seja uma nota de coragem.

Agora, mais do que nunca, a coragem é necessária.
A coragem de sermos...
A coragem de estarmos...
A coragem de trazermos nos braços, rasgados pelos espinhos, um braçado de buganvílias...
Buganvílias para ti...
Buganvílias para a Menina de Benguela, para a Menina de Angola, toda sonho, coragem e ternura...

Aqui te deixo a Esperança nas flores que te trago...

A Esperança que nunca faltou no teu coração...

Adeus, Menina de Benguela...

Menina de Angola...

Adeus...

Até sempre!...

Orlando de Albuquerque

Canção Negreira




Amo-te

com as raízes de uma canção negreira

na madrugada dos meus olhos pardos.


E derrotas de fome

nas minhas mãos de bronze

florescem languidamente na velha

e nervosa cadência marinheira

do cais donde os meus avós negros

embarcaram para hemisférios da escravidão.


Mas se as madrugadas

das minhas órbitas violentadas

despertam as raízes do tempo antigo ...

mulher de olhos fadados de amor verde-claro

ventre sedoso de veludo

lábios de mampsincha madura

e soluções de espasmo latejando no quarto

enche de beijos as sirenas do meu sangue

que meninos das mesmas raízes

e das mesmas dolorosas madrugadas

esperam a sua vez.


José Craveirinha