29.12.08




Esses momentos já não chegam,
já não completam,
anseio o teu corpo, e ser para os teus lábios,
anseio a tua voz, o teu cheiro,
como se no vazio ficasse uma dor,
já não sei!
tento fugir a esse sentimento,
porque lembro-me que há um tempo atrás,
senti o mesmo e sofri,
diz-em tu porque me fazes sentir assim!
diz-me tu!

Sónia Sultuane


Pós da história



Caiu serenamente o bravo Quêto
Os lábios a sorrir, direito o busto
Manhude que o seguiu mostrou ser preto
Morrendo como Quêto a rir sem custo.

Fez-se silêncio lúgubre, completo,
no craal do vátua célebre e vetusto.
E o Gungunhana, em pé, sereno o aspecto,
Fitava os dois, o olhar heróico, augusto.

Então Impincazamo, a mãe do vátua,
Triunfando da altivez humana e fátua,
Aos pés do vencedor caiu chorando.

Oh dor de mãe sublime que se humilha!
Que o crime se não esquece à luz que brilha
Ó mães, nas vossas lágrimas gritando?


Rui de Noronha

28.12.08



As estrelas hoje saíram
fora do seu leito azul
e vieram brilhar nas margens
dos meus olhos terrosos.

Com fúria de granizo
uma fumaça de luar
me embacia os olhos
num nevoeiro de borrasca ventosa…

Eu suporto frios intensos
e o branco polar
também pode ser pomba

Fechei minhas pálpebras
e as cisternas dos meus olhos
armazenaram mais águas.
e eles permaneceram límpidos,
sem uma lágrima,
com as raízes mergulhadas
no húmus milenário que me
alimenta.

Que me perdoem as flores,
mas eu hoje amei-as assim mesmo:
perdidas na cor e no balido dos
charcos, dançando ao vento
lágrimas vivas
confundidas com pinhais.


José Pastor



26.12.08

Marginal


Saborear-te a boca devagar,
como a um fruto raro e sumarento,
e cada rijo seio te apertar,
num misto de prazer e sofrimento.

Depois, beijar-te o ventre e deslizar
por ele, num tão macio movimento
que de ave mais parecesse um adejar
do que um afago húmido e lento.

E só, então, te possuir. amor,
teu corpo penetrando ferozmente,
nos braços te apertando com ardor,

até, no estrebuchar do frenesi,
imaginares que, em fogo, uma torrente
de lava, em ondas, desaguara em ti.

Nuno Bermudes

A torto e a direito


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Sussurram tempos e contrariedades,
caem dias a torto e a direito.
Fica quem tudo a eito leva,
e não quem de todo a nada chega.
Escondo-me atrás de mim
e vejo-me tinto no copo,
do olhar do mundo afastado.
Olho-me e ouço as cousas ficarem
no fluir de um sussurro, no osso
de um momento, teus lábios
fugidios na ponta da noite além
onde me aconchego e escondo,
torto em sábios dias aí tecidos,
aqui direito em nós de luz.



Adriano Alcântara

21.12.08

Subúrbios by night


Lá no beco da ti’Juliana
logo logo tem a cantina do Dias mulungo
e há uma árvore que sabe das coisas
ela viu tudo, tudo.

A luz do jeep cinzento
as fardas pretas e os bastões
viu as botas ouviu os gritos
ela viu tudo, tudo

lá no beco da ti’Juliana
onde o caniço está partido
eles bateram, bateram, bateram
no fim das luzes ficou um corpo caído
mais o caniço, tudo partido

nem o Dias nem ninguém
abriu uma janela, uma porta, um grito
a ti’Juliana dormia sem sono
a árvore viu tudo tudo.

Foi lá no beco escondido,
as fardas pretas arrombaram o caniço;
as botas pisaram, os bastões bateram
e a árvore viu tudo tudo

De manhã passos de criança
sob a árvore que sabe das coisas
misturaram areia ao sangue caído
lá, onde o caniço está partido

os pés correram as mãos brincaram
lá onde o caniço está partido
onde está a árvore que sabe das coisas
ela que viu tudo, tudo

Um dia crescerão e
eles sabem tudo, eles sabem tudo


José Alberto Sitoe

12.12.08

Tese e antítese


Nunca mais
E arrasto comigo pelo braço da esperança
As horas marejadas as pedras do desgosto
A fome de amor
A cavernosa rouca diamantina
Fome de amor

Nunca mais e sobre os altos silêncios
No tumulto insensato
À beira do abismo
Ressuscito
Os rostos bem amados
Traiçoeiros
Dou-lhes andas
Dou-lhes palhaços
A infância que não tive
E que perdi
A paz que não é minha

Nunca mais

Agora só há abismos não há rostos

Passem duendes príncipes Antinos
Mas de largo

Alberto Lacerda


9.12.08

tombazana, mamana, cocuana

(à memória de Josina Muthemba Machel, falecida em 7 de Abril de 1971)


sete de abril é teu dia
dia da mulher moçambicana

seja esbelta tombazana
ou mamana de airosa capulana,
hajam cãs de cocuana
sete de abril é o teu dia,
dia da mulher moçambicana

todas és Josina, é teu dia
dia da pioneira na emancipação
da Mulher na mata renascida
que foi obreira na libertação

mulher africana, por graça moçambicana
aquela que é dupla grávida, antes e depois de parir:
no antes tráz na barriga o Futuro,
carrega-o às costas quando ele aprende a sorrir

sete de abril é teu dia
dia de lembrar ao mundo
que haja vento, sol ou chuva
batas ou não o pilão
no campo, na mata ou na cidade
há um sorriso que baila e cresce
porque sete de abril é teu dia
dia da mulher que fez a revolução

José Alberto Sitoe



não chove

Ilha Surrounds-Lumbo I


Não chove há muitos dias.
Meus límpidos caminhos de água recuaram
por entre as ramagens verdes da baixa-mar.
Mas os poços ainda estão cheios
de preguiça e espelhos de água velha.
É esta magia subterrânea que nos alimenta.

Nas ancas coleantes das virgens
não se alegra a lua pardacenta.
Salpicada de sarro e salitre,
a igreja
ganhou musgo suave a desenhá-la.
Está tão pequena
como o sacristão que eu teatrava
a subir os degraus rangentes da torre sineira
altiva e triunfante
por sobre o zinco e a telha
desafiando com o seu vermelho
o verde carregado de uma específica amendoeira.
A pedra talhada da vida arrepiou-se,
desmontando-se sorrateira e acactona-se
para lá do cemitério.
Arrependida.
As encostas douradas do areal
esboroam-se no toque da maré.
Outra nova maré de entusiasmo já caiu.
Como mancha loura num tapete negro.


Júlio Carrilho

7.12.08

Natal

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Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida,
Nesta vertigem de altura
Que me absorve e depura
De tanta queda caída,
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre da Tua mãe.
Bendita a Tua candura.
Bendita a minha também.

Mas se me perco e Te perco,
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido,
À hora em que Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura
Bendita a minha também.

Reinaldo Ferreira

6.12.08

Munhuana Blues


Lá nos arrabaldes da minha infância
a casa da Munhuana me não resiste apenas
também guardo ciosamente na memória
as histórias da minha avó Angelina
e mantenho o medo
da ameaçadora visita do Guiguisseca
anunciada na varanda da loja do Muchina
enquanto os miúdos do meu bairro
todos eles craques
desmentiam o talento do Eusébio.
Ali no Bairro Indígena eu ainda sou
aquele rapaz de calção e sapatilhas
- compradas numa daquelas lojas
dos monhés do Xipamanine –
correndo a toda a largura a rua do Zambeze
no dia em que prometeram
uma visita ao Jardim Zoológico.
O baldio que ficava à frente da minha casa
foi vítima de urbanização clandestina
e no lugar onde as meninas se despontavam
para os meus sonhos febris de vate desassumido
e vendiam badjias e matoritoris
reincide-se na ofensa à memória.
Naquele tempo minha avó reverberava o mito
esvoaçando as saias das moças nos bailes
e as calças bocas de sino dos rapazes do Chamanculo.
Foi ali que começou esta minha mania de amar o Brasil
nas vozes do Carnaval da avenida de Angola.
O samba da Mafalala também tinha batuques
e a folia Índica desta minha Bahia
marrabentando os acordes da tua viola.
Também cantei e bailei como esta noite
neste meu desavisado regresso ao Xipamanine
não só por culpa dos avatares do velho gramofone
e os discos de 45 rotações mas por imposição
da vocação da minha avó Angelina
que jamais enfrentou um palco.
Fica para contar aos meus filhos os talentos
dos que nos precederam. Minha avó agora não canta.
Na sua casa ex-madeira e zinco de precária alvenaria
ela deita-se no chão
de cimento queimado e conversa com os ancestrais
quase todos eles à sua espera em Ressano Garcia.
Tudo isto agora e sempre nesta noite de sábado
eu filho legítimo das bangas na geração dos anos 80
a dançar até amanhecer quando no dia seguinte
tinha folga na minha indesmentida profissão
de formador de bicha nas lojas do Povo
ou no talho da Eduardo Mondlane que abria as portas
já com a carne do Botswana esgotada.
Mesmo assim as nossas festas
com cervejas à pressão e coca-colas
compradas a muito custo
pelos nossos meticalizados bolsos
incompetentes para adquirirem as montras vazias
das cooperativas de consumo parecem ficção
aos olhos desta juventude.
Não muito longe do largo João Albasine
nestes anos todos de ausência da Munhuana
exilado lá para os lados da zona alta da cidade
quem regressa é aquele menino que eu fui
muito antes de conhecer o Alto-Maé dos chinas
quando a Polana era só e apenas
um vago e improvável aceno do futuro
e a Sommerchield adjectivava a quimera.
Agora meu velho João Domingos retorno
à minha infância entregue ao prodígio desta noite
de extenuado sábado nesta pista de dança
e no espanto deste incauto duelo com os velhos mitos.

Nelson Saúte

4.12.08

Canto do nosso amor sem fronteira


Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós
só de ver puxar nós também puxamos
nas transpiradas ruelas antigas
da ilha de Moçambique.

Oh, beijemo-nos, amor
teus cabelos sussurrantes
na esplêndida nudez morena do meu peito
que são nossos os céus sulcados de xiricos e aviões
e nossos irmãos os povos de outros paralelos
até mesmo os pobres «boers» solitários
na cruzada de amor em que me abraças numa rua
principal da cidade de Pretória descontraidamente
como se fosse no bairro de Xipamanine.

Mas bem fundo das almas
e dos corpos tatuados de esperança
o clítoris das montanhas nos sexos das nuvens
pátria do nosso desespero mais desesperado
pátria dos pés descalços na brancura do algodão
pátria de beijos e promessas de mais beijos
é o nosso genuíno grito mais gritado
a levantar no cosmos a beleza do nome
não renegável de Moçambique.


José Craveirinha

BASMA (77)


Não faças que vives
mergulha na capulana
com todas as cores



Jall Sinth Hussein
jallcapa.jpg


Sê como o morcego
vira o mundo ao contrário
não queiras ser cego


Jall Sinth Hussein


Amor Verde


Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom

Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.


Malangatana

3.12.08

Basma (51)



Tu ficaste só
quando tua mãe te deixou
em redor do mundo


Jall Sinth Hussein

2.12.08

Porta de água

Abandono

Quarenta e tal quilómetros quadrados
de modorras viradas para a praia
escoam dos solares escancarados
a deixar os mortos a olhar
luzentes cristas de água de cambraia

Não sei ainda se isto é alegria
deixada até ao estoiro da miséria
mas a calma tecida dia-a-dia
tem o vagar da pressa que se quer
no endógeno assumir-se de matéria

Ah porta minha que me deste as águas
para buscar as faces da verdade
hoje descontraída em tuas mágoas:
não tens a quem explicar o teu saber
que a nudez distorce sem maldade.

Teremos que esperar que se decante
no teu líquido palco o som dos remos
se afinem silhuetas de ar cortante
para depois por ruas sem licença
abrirmos planos que só nós podemos

Júlio Carrilho


BASMA (72)


Ilha de Muipíti
olho de terra no mar
alheio ao seu corpo


Jall Sinth Hussein




O verde é muito verde
A luz mais clara
Do que nunca
As recordações são do tamanho
Do coração transbordante
O calor é Apolo
perpendicular à terra

Os pássaros
os esquilos
Atravessam a imaginação numa diagonal sem fim

Alberto Lacerda



Filho que fosse



Filho que fosse
a metade justa
da oferenda


Eduardo White



29.11.08


Sem Título



O pêndulo entre a doçura e o sangue
balança entre a criação
e a morte.
E os monstros marinhos despertam
e povoam ter corpo interior
de dragões...
Na noite confundidas com as estrelas
cintilam palavras
que aguardam teus vorazes dentes
e teus beijos perversos.

Virgílio de Lemos

27.11.08

Não faz mal



Não faz mal.

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.



Eduardo White



24.11.08


Casquinha


Ilha de Bazaruto


Um vulto emerso na casquinha
tem asas de pau a equilibrar o tronco
como cintura numa dança de água
vasado tronco de árvore a nadar
Se um sobressalto de ar lhe enfuna o
pensamento
a concha de tecido apressa-o
na onda a respigar

Júlio Carrilho

23.11.08

Na praia da Catembe

CATEMBE - areal da praia_resize.jpg


Diz Carlos:
Que existe meu irmão
atrás daquele muro de pedra
que se avista da velha praia da Catembe?
Que existe
escondido dos olhos dos barcos que chegam
tão secreto que se deva ocultar
atrás daquela parede alta cheia de mistério?
Alonga a vista
e fura a parede de pedra que barra o horizonte.
Que vês?
Que sente tua alma?
Que fogo te abrasa?
Oh, mas diz
diz irmão
o que existe atrás daquele muro.
Di-lo em voz alta para os outros ouvirem
que eu já estou farto de o saber…


Albino Magaia

20.11.08

Mensagem da Machava




I

tudo ganhou novos ângulos novas luzes
é mais volátil é mais livre o voo das aves

flores lilases nos gostos mais simples

o amor é tão fácil como o sorriso das crianças
o amor é tão puro como o sémen das chamas

ah sinto-me estrada fertilizando
milhões de passos ao nosso encontro

II

reparem camaradas na minha ausência
como ela se povoa de novas estradas

as palavras são mais precisas reinventadas

servem todas uma a uma
as distâncias que nos separam

e apesar das grades dos cães-polícias
sinto-me cada vez mais perto de vós.


Rui Nogar

17.11.08

MAR


Imenso e plano como um campo raso
em tuas águas se condena sem julgamento
e só te ouves a ti próprio.

O teu orgulho tem o poder de um deus
que perdeu o encanto que não redime já.


Jall Sinth Hussein

15.11.08


As coisas importantes


As coisas importantes só olhas uma vez
mas sua imagem se repete muitas vezes dentro de ti
como um eco.

As coisas importantes que estão dentro de ti
e se repetem constantemente
já não estão presas ao que olhaste atento
mas no silêncio que tens dentro
se libertaram e tornaram incertas.

As coisas importantes no teu dentro
só já a ti pertencem
e nada do que está fora de ti as lembra agora.

As coisas importantes metes numa caixa
que com paciência vais abrindo aos poucos
para esqueceres as muralhas de outro tempo.


Jall Sinth Hussein

9.11.08

Respigos

Ilha de Moçambique, praia


Descidos os degraus da fantasia
de lá dos píncaros do dirigir
olhar distante a desbravar os sonhos
um vale de pudores a desfingir

de cada patamar os grãos de mágoa
escoam a estender-se num remanso
uma praia de pedras a marcar
saber de experiência em que descanso

esse descanso vai valer coragem
gelar temores conservar a calma
nos nervos a boiar em mil mensagens

Há ironias no amansar da alma:
o embarcar na cor d'outra miragem
o fresco ressoar de velhas palmas

O caos que variou a nossa margem
e abriu-a em curvas para o mar ingente
trouxe-nos mil abraços e chantagem
e cacos de vidro na areia ardente

São tantas enseadas que interagem
tão funda a introspecção e o olhar dolente
que a guerra quando se abre na paisagem
capricha no ferir que se consente
É neste variar de realidades
no calar de desgostos e verdades
que a gente amadurece o seu olhar

E no saber mestiço de vontades
os ódios se travestem de irmandade
e as armas se transferem p'ro bazar

Há uma nave de ontem encalhada
no recife da nossa independência
retém-se na saudade decantada
que a História apressa com impaciência

As pedras enegrecem na toada
que o vento lança com sua incidência
um riquexó prostrado na calçada
esvai-se na tortura da abstinência

Nos ares moles do amplo amanhecer
nas paredes de ócios a escorrer
jamais ressoam mandos de alvorada

Há muita cerimónia por fazer
nos quartos sombrios do entardecer
para tirar do encalhe a nau cambada
Adormecido nos blocos das ameias
que denteiam a linha do horizonte
o tempo espera erguer-se um novo trono
que a era dos odores de desdém
nas raízes de uma imensa mangueira
se retêm

Ninguém sonda o horizonte
ninguém meneia a cabeça
porque o transe é um ficar
ficar de costas para a terra
a repetir o mar
todas as noites
as manhãs inteiras
As pedras olham-nos
nas brisas a varrer detritos
com uma música a elas me ligando
com elas me deixando em harmonia
A parada dos dias só nos vem
da terra
numa vela a varar o fosso azul:
guarda-a um cântico com braços leves
deste novo ócio a desenhar
labirintos de gente acantonada
a Sul

Estranha forma de engolir subúrbios
de dar sobranceria à urbe nobre
não só com cal não só com traça forte
para afastar o olhar do bairro pobre

As gentes simples que fazem lembranças
que as fundem finas as tecem em prata
pintaram seus sorrisos de brancura
cercando-se de beijos de mulata

Se ateiam lares no fundo rochoso
regados de suor antepassado
na superfície incerta de pedreira
impera o tufo pelo maticado

É este o Sul que eu abro nos meus livros
nas ilhas ou nas terras adornadas
que teimam em subir com o mar desperto
e garrir-se de cor e gargalhadas

Dói sempre a indiferença
Face ao pedido de palavra
Das ruínas.
Mas doíam também as diferenças
Com que elas dividiam
Nossas sinas


Júlio Carrilho

7.11.08


Deixar tudo e partir


deixar tudo e partir

e
sem rota nem bússola
sem mapa nem nada
sem álibi nem compaixão rasgar o vento
como se rasga o lábio
na sofreguidão so último minuto de partir

e
em cada relâmpago na noite incendiado
ter o caminho talvez para o norte
quem sabe para a morte


Guita Jr.

5.11.08


Nós os de rosto demorado como o dos velhos
nós com o peso de um deus amordaçado sobre os ombros
nós que olhamos as coisas e as choramos
e que somos semelhantes a uma promessa perdida
não dobraremos perante a mais pequena pressa.


Jall Sinth Hussein


4.11.08


Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.

Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.

E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.

Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.


Eduardo White



24.10.08


No confrade ranger de dentes



vagueio pelas predilecções mais próximas
ocorre-me neptuno e não transito
para além do simples significante
assim sendo mais próximo estou de saturno
mesmo sem acesso a todos os seus deuses
como os meninos do Gilé

antes de se abrir o sol pela manhã
mergulho incólume na brisa matutina
e torna-se-me dever saborear a comédia da morte
e nas garras negras de cada flagrante devo
desmentir a dor por turnos e constante
a todos os meninos do Gilé

o conformismo ou a dignidade violentada
anulam as provas que seriam para depois
e sem tumulto três de cada um de nós
vão em serapilheira desnudos a enterrar
sem nada que se ore nem canções nativas
pelos meninos do Gilé

agora sem credo zomola patarão
extingue-me também esta pele e ossos
a mente não permite que me dissolva no espaço
o tempo apagará o remorso teu c’uma salva
de palmas e kanimambos muitos – não
dos também teus anónimos meninos do Gilé


Guita Jr.

21.10.08

ILHA DE MOÇAMBIQUE 1972



As ruas desertas cheias de vento
como um deus as paredes enormes do forte assistindo a tudo
a areia longa e lisa e a timidez do mar
a língua perdida como ruínas
na mão o cavalo-marinho e os sonhos
o tempo sem chegada e sem partida
assim haveria de ser mais tarde a minha vida


Jall Sinth Hussein

19.10.08

Tangerinas em redor de minha vida



Tangerinas em redor de minha vida:
geografia antiga
os hábitos frescos a infância como um rio
a mão poisada sobre muros sem tocar
breves as horas
e a leveza de cada tarde
nenhuma cicatriz no corpo
nenhuma solenidade.
Tangerinas como uma lenda até ao dia de hoje
- distância que às vezes ignoro.
Liberdade tão sagrada e tão nobre
como um gesto mudo e pobre.
Moçambique e meu bairro pequeno
aquelas coisas que voltam toda a vida
entre anos e deveres.
Tangerinas em redor dos meus lugares.


Jall Sinth Hussein


17.10.08


A Palavra



A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.

A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.

A palavra madura é espectáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.

A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.

A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.

Eduardo White

16.10.08

Descolonizámos o Land-Rover

Land Rover- The Go Anywher Vehicle Magnet

Já não é carro cobrador de impostos
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo.
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.
- Descolonizámos o Land-Rover
Com nossos produtos
Comprámos combustível que consome
Com nossa inteligência
Consertámos avarias que surgem
Com nossa luta
Transformámos em amigo este inimigo.
Nós, descolonizadores
Libertámos o Land-Rover
Porque também ficou independente, afinal
Transformaram-se os objectivos que servia
E hoje é militante mecânico
Um desviado reeducado
Uma prostituta reconvertida em nossa companheira.
Descolonizámo-la e com ela casámos
E não haverá divórcio.
De Tete a Cabo Delgado
Do Niassa a Gaza
Da sede provincial ao círculo
Este jeep saúda quando passa
O caterpillar, seu irmão
Outro descolonizado fazedor de estradas
E cruza-se com o Berliet atarefado
Ex-pisador de minas
Eles aprenderam com a G-3
Menina vanguardista na mudança de rumo
A primeira a saber e a gostar
A diferença antagónica
Entre a carícia libertadora das nossas mãos
e o aperto sufocante e opressor do inimigo que servia.
As mãos dos operários que o fabricam
são iguais às mãos dos operários da nossa terra.
Essas mãos inglesas que o criam
Um dia saberão que ajudaram a fazer a revolução
e vão levantar o punho fechado da solidariedade.
Ruge este militante nas picadas da Zambézia
Galga as difíceis estradas de Sofala
Passa pelos pomares de Manica
Pelo milho de Gaza
Pelas palmeiras de Inhambane
Na cidade do Maputo descansa.
Transporta pelo país os olhos dos estrangeiros amigos
que querem conhecer de perto a nossa Revolução
- Descolonizámos uma arma do inimigo
Descolonizámos o Land-Rover!
Aquelas quatro rodas de um motor potente
Aquela cabine dos mecanismos de comando
Aquelas linhas da carroçaria irmanadas ao medo
Já não afugentam o povo:
Homens, Mulheres e Crianças do campo
fazendo sinal ao condutor, pedem boleia.
Nós descolonizámos o Land-Rover
Por isso o povo já não foge.

Albino Magaia

14.10.08


Inquietação


Pela noite clara
busco a palavra
cujo limite
seja verdade.

Por esta hora
procuro a causa
do que é tão válido
que ninguém sabe.

Mas a resposta
mantem-se oculta.
A noite é morta
e inúmera.

Glória de Sant'Anna



EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.


Reinaldo Ferreira

12.10.08

Marrabenta para Fanny Mpfumo

ao Zé Flávio Teixeira

Fanny Mpfumo cantava I love you so
eu era menino e nem sabia o que era tindjombo:
- ó a va sati valomo! –
mas já dizia hodi nos quintais contíguos
do meu Bairro Indígena.
Unga tlhupheque nkata que ouvia na rádio
por sobre o móvel da sala
na casa da minha avó
nomeava todas as mulheres que derrubavam
à passagem os meus inocentes e desprevenidos anos
ali na varanda do Muchina.
O king ya marrabenta era suposto
conviver conosco todos os dias.
Também ouvíamos Elisa gomara saia
nos tempos em que os Djambo 70 conjuravam
e o destino dos meus pais não era só
os míticos bailes da cidade de caniço.
O mufana que eu era também gostava
maningue do Gonzana e de todo o conjunto João Domingos
Massoriana no palato daqueles tempos.
Algumas vezes ouvia o João Wate
e outros que a memória não acautelou.
O Alexandre Langa foi mais tarde
que me empolgou – Rosa Maria.
Tínhamos atravessado
para lá do asfalto e alcandorados estávamos
na Polana onde inaugurávamos a nossa condição
de habitantes de fogos suspensos,
alcançados mais tarde em obscuras escadas
disputadas por bidões de água
acartados do jardim Tunduro.
Minha avó falava naqueles velhos anos
do Artur Garrido, conterrâneo lá de Ressano Garcia.
Mais tarde vi Fanny Mpfumo no Scala
- não muitos anos depois no Estrela Vermelha –
marrabentando uma guitarra eléctrica
no frémito do seu amor por Georgina waka Nwamba.

Nelson Saúte

4.10.08

Eu Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira

3.10.08

Maré vazante

Ilha - Gentes e costumes XXXI

Só a tensão feminina sabe avaliar
os gostos que se guardam na maré vazante
nos trilhos invisíveis
pontuando o manto multicolorido de algas
tatuando areias.

Não há temores à espreita
nem monstros que se atrevam
a impedir o brilho das cipreias.
É o maravilhoso a desvendar-se
no afastar das águas;
O pátio de recreio devolvido
alarga-se pelo areal da praia
tanto quanto diminui o marulhar das ondas
contra o paredão desarrumado
a resguardar as aulas.
Papagueantes

Os meninos recitam "a Clarinha e as pombas"
com um pesado silêncio de palmatória
em fundo.


Júlio Carrilho

28.9.08

Alvorada
(um canto de confiança)


Sobre ti,
com o sangue
e a tristeza que nasceu em nós,
desce a luz do dia que se faz.
Como morre na terra a vida,
para que outras vidas germinem ao sol,
como se entrega crepitando ao fogo
o ramo forte da árvore,
assim,
vida e calor,
grito novo de esperança,
chegas tu, no mistério do luto.
E ainda doloridas
te oferecemos as nossas mãos trabalhadoras,
vermelhos e tristes
te entregaremos os nossos olhos vigilantes,
e as nossas vidas de combatentes
mil vezes serão tuas,
no grito novo e enorme
como o flutuar da bandeira que içaste:
A luta continua


e sobre ti,
com a tristeza de manhã de Fevereiro,
com a esperança do Sol que nasce,
com a força imensa da vida
que cresce no ventre da mulher,
sobre ti,
desce a confiança do partido e do povo.
A ti,
reivindicamos a purificação e vingança
que o nosso sentido de justiça exige,
queremos um fogo ainda maior
que ao marulhar das ondas do Índico
respondam os canhões da esperança,
que o limpopo transporte convulsivas
as carcaças de pontes,
que o Zambebe se transforme em Rovuma de Maputo
e a tua mensagem
faça de nós ciclone devastando o inimigo.
E queremos
no amor que te damos,
na fé em que te envolvemos,
que nos transportes ao futuro
e faças da esperança das buganvílias
grite alegria na pátria
e o sangue se torne apenas recordação.
À Pátria que ele nos deixou
deves acrescentar a revolução que a bomba
deixou incompleta
e de nosso grito
Independência ou morte
queremos construída
a realidade do
Venceremos

Sérgio Vieira
Um Homem nunca chora


Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

José Craveirinha

25.9.08




Por exemplo, o fogo.
O fogo estabelece o seu trabalho,
a sua centígrada destreza para arder.
E não sei se notaste
que na digital matriz das suas febres
o fogo opõe-se,
insubmisso,
a morrer.

Arde como se definitivo
e quando assim sucede tende a crescer,
busca aquela leveza das altas labaredas,
a implícita tontura das fagulhas.
O fogo arde como se quisesse fugir do chão,
das suas cavernas metalúrgicas,
ascende ao impulso dos foguetões,
à infância astral, à casa solar.

O fogo entristece, por vezes.
Chora inflamável na sua fatalidade terrestre
a estranha e lenhosa prisão
que o prende e embrutece.

Quer voar,
quer a sua ancestral condição de estrela
mas na corrida espacial com que o fogo queima,
na perpétua evasão,
a gula intestina-o
à sua pressa.

Eduardo White

24.9.08

Amas e amos

Ilha - Gentes e costumes XIX


Babos, Amas, Muénhes, Nunos
dão-nos o destino à inocência
para que os muros altos nos desvendem
seus quintais ilhados
e sejam limpas e lisas
as varandas da nossa adolescência


Júlio Carrilho

23.9.08

O menino e o arco



O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.

Esses, pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado.

Glória de Sant'Anna

Pena



Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.

Mas não me chames negro.

Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.

José Craveirinha

Birras



Quando,
uma das minhas camisas se extraviava
somente Maria tinha absoluta certeza
de ter sido a reincidente
minha inata amnésia
que me fazia perder as coisas que resolvia dar.

Com sua
enigmática expressão repreensiva
lá ia Maria buscar mais roupas minhas
e também outras suas
para enfatizar meu defeito
junto do novo dono da camisa.

Com a minha Maria
mais ou menos era deste modo
que nossas duas maneiras de ser
destoavam, ainda bem


José Craveirinha