28.5.10

Monomocaia!


Quem foi que na noite longa
pôs a longa voz do vento
uivando por sobre o mato?
Quem foi que nas águas mansas
da baía de aguarela
pôs raivas, gritos e espuma?
Quem foi que nos leques doces
das recortadas palmeiras
pôs bailados de loucura?
Quem foi que nos olhos grandes
dos negrinhos cor da noite
vazou mundos de terror?
Quem foi que nos vidros frágeis
das janelas sem mistério
pôs o mistério da morte?
Quem foi que rasgou a noite
num grito feito de gritos
e apagou no traçado
dos carreiros que há na selva,
a marca humilde dos pés
dos negros que os palmilhavam?
Vem!
Horrendamente enorme,
grotesco e brutal,
informe,
vem!
Vem vestido da noite, cor de breu,
galgando sobre a terra e pelo céu.
Vem galopando e uiva e rodopia
e ri às gargalhadas, assobia,
enterra os dedos bruscos, sensuais,
na grenha esfarrapada das palmeiras.
Senhor e rei dos loucos vendavais,
a si próprio se morde, em seu açoite,
rasgando-se aos pedaços, numa orgia,
bailando entre os rochedos cor da noite.

E enquanto vem e sopra e uiva e canta,
dizem os negros, tontos de pavor,
que é o Demónio, fero, alucinado,
em busca de qualquer estranha donzela
que viu na praia, nua, à luz da lua,
e no peito lhe pôs confuso o amor.

Dizem os negros que é Satão,
irado, gritando pelas ruas, a espumar,
espreitando pelas portas, à janela,
mordendo a terra e revolvendo o mar,
buscando em desespero a virgem nua
que viu na praia, num batuque à lua.

Passa no seu corcel da cor da morte
levando de vencida o sonho, a esperança,
a súplica, a pureza, a oração,
passa ébrio de sangue e corre, avança,
fantástico, sem bússola, sem norte.
Crescem as ondas a golfarem espuma
e o mar rasteja, a arrebatar os barcos
- enquanto pelas ruas, uma a uma,
galopa, rola, salta e assobia,
revoltos os cabelos na loucura,
torvo o olhar, na boca a baba fria,
cheirando a mato, a feras e a praia,
a gargalhar num eco que perdura,
Satã envolto na Monomocaia!

Guilherme de Melo