28.3.10

Um poema anti-lírico




Olga:

Hoje
não há mais poesia em mim.

O sol,
o céu de nuvens claras,
mantêm juntos promessas falseadas.
Um avião sem raça
caiu longe,
onde florestas riem das debulhadoras,
dos "buldozers"
e o arado é palavra sem sentido.

Os trinta e tantos passageiros
já não são.

E aqui perto
— tu sabes —
aquele nosso colega
ficou sob as rodas dum machimbombo,
colorido de reclames.
Ah! Olga,
porque,
em face disto tudo
esta vontade constante de gritar
pêlos vivos?

Ah! Hoje,
não há mais poesia
em mim,
nem na natureza colorida.
Não pela queda
do avião
ou do homem solitário.

Na Coreia,
os milhares não são mais números,
mas cadáveres,
marcados por bombas,
baionetas,
granadas
e não sei mais quê.

Multidões,
digladiam-se,
algures,
de petróleo nas veias.

E lá,
onde homens abriram a braço um canal,
estudantes trocaram os livros
por pedras
e viram personagens bíblicas
frente ao pecador.

Ah! Olga
hoje não há mais poesia em mim,
que te vou deixar.

Mas os caminhos
de todos os cantos,
chamam-me.
Como ficar parado
junto a ti,
Olga,
sabendo que mais além
a nossa paz
é comprada,
com sangue que não é nosso?

Hoje, Olga,
não há mais poesia em mim,
porque te quero
e não te posso ter.

Hoje
não há mais poesia,
mas esta certeza
da necessidade de lutar
junto aos que lutam...

Ruy Guerra