12.6.08

E a cruz crescente?...

Jambesse III


Não é da gente certa a vila desenhada
é de salamaleques e de casarões
só nos quintais fervilham vozes coloridas
de sarcasmo de interrogações
Não são de gente aberta
esses jardins guardados
na geometria estrita das pedras caiadas
apenas corvos passeiam sobre eles seu negrume
seu vôo vasto e livre
isento de volume
Não são brancos os dentes
que a alvura do sorriso negro nos ensina
são apenas portos de sinceridade
um contraponto neutro de evasão
do forte colorido de paixões contidas
nesse cerco de água
preto vermelho
e açafrão

A cruz aqui apenas tem esse significado
o de nos cruzarmos com o mundo
para não morrer


Tantos de nós a aguardar um Deus vindo de longe, como se as religiões, que põem todo o seu afã em conquistar-nos, estivessem a partilhar-nos com o acordo da nossa ironia.
Que diferença faz a sombra da torre sineira por consolo, ou a delicadeza curva do crescente fino a coroar-nos?
Somos de qualquer crença que nos lave as mágoas as pilhagens, a desvalorização e o opróbrio, os roubos locais e internacionais.
Entre o padre do oeste e o maulana oriental há essa paz, do almofadado saber da nossa convivência, desarmando cismas nas ofertas recíprocas que nos enviamos nos dias da festa do outro.


Júlio Carrilho