11.5.08


Poema sem hora certa


É a quarenta quilómetros no meio do mato

Aqui estou
e aqui páro

O sol cai a prumo verde e ouro misturado

sobre mim
e os outros claro

É de novo o tempo de anos e anos
e de novo carrego nos ombros o silêncio tanto
riscado de trilos sem mácula modulados como
crispado de uma súbita pausa

Caminho pelo riacho seco de lages com quartzo
e o tacão afunda-se no matope raso
e aqui páro

e os meus olhos sobem à última ramada
pela árvore que me é ao lado
e uma seiva comum insuspeitada
rodeia-me de borboletas brancas
que me tocam a face

O hálito da terra morna
segreda por todo o lado
e do ombro do negro de m'cota
soltam-se fios de água

Eu sorrio de súbito ao anúncio
de uma possível lágrima
e as crianças encostadas à pedra talhada
repartem comigo um riso rápido

Os outros criam indispensáveis imagens
intercalando palavras ao sábio cântico dos pássaros
e eu reparo
que a última borboleta branca me há deixado

É a quarenta quilómetros no meio do mato
que hoje estou sepultada


Glória de Sant'Anna