4.5.08

Native song n.° 1

Aqui,
o tamanho dum amendoim
é a medida do Universo.


Todo o meu sonho disperso
entre os homens e a terra,
o humano do meu olhar
e a dor que o teu encerra.
Todo o meu sonho disperso
entre meu anseio de posse
e a tosse que te corrói;
o que distingue morte e vida
a alegria e a luz em meu corpo
e a noite em tua alma perdida.

Mas aqui, Richard,
os sonhos aqui mirraram.


Não é verdade, Richard.
Não é verdade, Irmãos.
Os sonhos aqui cresceram,
porque o suor das mãos
quer dizer trabalho.
Aqui, José mulato
nos ritmos de sambas e brasis,
Castro Alves dos lados do mato,
ah, Zixaxa e Mafalala
ah, Xipamanine e Munhuana,
vai sonhando novos universos
liricamente desfolhando girassóis
ou mastigando castanhas de caju.
Aqui os sonhos cresceram
porque os poemas verticais
foram lidos, não se perderam.
Noémia escreveu poemas vigorosos
que religiosamente se leram.
Bertina em cores vivas e quentes
pintou a história da angústia
de um povo cuja história
se vai forjando em sofrimento.
Aqui os sonhos de quem passa
não se tornam bolas de sabão.
Para quem já sabe ler, desgraça,
os sonhos são uma lição
que só lhes causa embaraço.

Os negros que fumam ópio
e bebem canhos ou bagaços,
esses, Irmãos, não sonham;
embriagam-se apenas, e o ódio
que neles nasce sabe a álcool
e não tem sequer fundamento;
mas os que fazem blocos de cimento,
os que vivem nas construções,
os que cantam no cais,
os que perfuram as minas do Rand,
os que vendem peixe no bazar,
os que batem chapas nas oficinas,
os que são diligentes serventes,
esses e só esses devem contar
para os grandes sonhos de luar,
em que as danças acordam anseios.

Anseios de sonhar com outro luar,
com Mary Anderson e Nova Orleans,
Com Chicago, Nova York e Nova Orleans.

Aqui, Richard ou Gualter
a medida do Universo
não é o tamanho do amendoim,
nem a medida certa ou incerta,
Irmãos, dos versos que escrevi.
A medida do Universo, aqui
é a largueza dos sonhos de cada um.
Não importa a profundidade da cor.
Interessa apenas que o sonho
seja uma porta para uma humanidade
mais bela e menos ruim
mais viva tolerante e profunda
com princípio meio e fim.


Virgílio de Lemos