7.4.08


Estado da Língua


E nesta evocação direi orgia
de silabados nomes
estalo da língua contra
o palatal sou erotismo
na vulcânica geografia
dos montes sinuosas cristas
desfraldadas consoantes
velas panos e vogais
vendavais cometas e
a quietude morna do tempo.

Nomes musicais conchas
búzios ecos que se impelem
se estreitam cetáceamente
pernas braços dedos
vulvas de estremecimentos
moçambicanamente mamas
mamilos magia
em ponta e na ponta
das línguas.

Matemwé Kirimba Kissanga monção
nos inventários de Meroé desejo e voz
crepuscular e mineral da errância
rituais da invenção Mecúfi
Mocujo e Pemba noites viajantes
esteiras e raízes aéreas
frangipanis baneanes
kifulo-me ouamiso-me iboizo-me e
sendo mil sou eu
no império dos sentidos
na mais pura tradição
submarina da malícia
da ironia mil e uma
noites d'Ali do mais feliz
dos mendigos estalo
da língua no palatal e
para quem sabe e pode
testiculares estrelas
sopros e saxos e
silabados nomes.


Duarte Galvão