2.4.08

Disparates seus no Índico



Depois de tão longo silêncio pedes-me notícias.
Que dizer, conjecturo, por notícias,
a quem os anos distanciaram irreparavelmente?
Que, adiposo e surdo, o verão é como
os da nossa infância, mas que o suportamos
pior, agora que se acentuam as rugas da testa,
embora o aligeirar das roupas nas raparigas
ainda acorde em nós o mesmo latejar de virilhas.
Que, pelos arrastados e emolientes fins de tarde,
sob o que sobra do hálito infernal,
ainda emparceiro com o Zé Craveirinha,
o branco e o mulato, verso e anverso
do mesmo quotidiano - diria o Carlos
- na ronda crepuscular do cio, falando eu,
irrequieto e gauche, pelos cotovelos, enquanto
ele, calado, roda na paisagem o olhar
sorna de crocodilo agachado no canavial.
Que, na argamassa complicada da cidade,
redobram os esculcas para as nossas cautelas
redobradas. Que o tempo se demora
em nossos gestos e nas palavras ciciadas.
E que o redimem as pernas altas e morenas
das adolescentes nos passeios e esplanadas.
Que, para além disso, se faz, intermitente
e sem convicção, a mesma política rarefeita de afogados,
se urdem programas e papéis esperançosos,
que os mais válidos têm sempre a coragem
de nunca assinar, pois nunca se lhes afiguram
bastante progressivos (e está salva a honra do convento!).
E que assim se desencadeia, de ordinário,
o ordeiro desagravo de muçulmanas comunidades,
asiáticas associações de benemerência
e de outras congéneres e afins. Que este
prolongamento doirado e nebuloso que excede
o extinto fulgor das caravelas é um muro
de silêncio e torna nossos gritos em grotescas
caricaturas do som. Que um cancro de areia
e letargo nos corrói, implacável, músculos e tendões
e uma paralisia sufocante se nos instila
pelo tenso cordame dos nervos em vibração.
Que se luta e morre à margem da nossa renúncia
e que a paixão é inescrutável na aparente serenidade dos rostos.
Que, todavia, há sempre bobos e piruetas à mesa do rei,
sobre que tombam o cristal das gargalhadas e mots d'esprit.
Que a minha solidão e a de meus amigos
(a parte negativa e incorrupta deste mundo),
incómoda como dor de dentes, é um bem inestimável.

Que, preservando a ardência árabe dos olhos,
já conservo a fralda da camisa dentro das calças
e tornei-me esquisito nas gravatas, nos sapatos,
nos botões de punho, nas marcas de uísque e de conhaque.
Que mantenho imperecível a fidelidade ao Amor
escamoteando-a, contudo, à cousa amada.
Que, a propósito, o racismo é agora encapotado
e confortável, residindo nos sorrisos múrmuros
e nos olhares cúmplices que se trocam em público.
Que, enfim, sob a máscara de sono e hipocrisia,
a natureza se refaz no ciclo indiferente das estações
e que, sobre nós, fina, grave e imperceptível,
cai uma poeira antiga de esquecimento.

Rui Knopfli