4.4.08


Corpo de Bruma


Em pé no terraço da fortaleza, ele prescuta
o horizonte, como se esperasse alguém, forma
que se desenhasse, murmúrio que se escutasse.
Ele tem a percepção de um estado outro, um sonho

capaz de fundir o real e a ficção, sorriso
imperceptível, olhar sobre o rosto de beleza
e a beleza do gesto secular, corpo de bruma,
vida que palpitasse nos seus braços. Abandono.

Certa do silêncio da memória, a nau avança.
Um vulto incandescente acena, familiares vozes
que se perdem no ardor das vagas contra o tempo.

As estrelas brilham. Muda, a fulgurância das chamas
incendeia o coração, como se possível fosse
reviver um amor, anjo que a morte nos devolve.


Virgílio de Lemos