8.3.08

Testamento para os meus filhos


Mayisha e Irati:
este o magro pecúlio que vos deixo
- livros, papéis, sonhos.
Poemas para as mulheres
que amei. Hinos de amor à vossa mãe.
Filhos, só vocês dois.
Depois de mim herdarão o nome
e a tarefa de perpetuar o que progenitor
encetou. Fica para trás uma vida.
Ilusões, cansaços, combates.
Infrutífero desespero de viver
num país apátrida.
Deixo-vos estes desígnios
de coisa nenhuma. Algum pecúlio
um coração, bondade e alguma fé
doméstica. Amanhã estes homens
e mulheres que se festejam
na algazarra das vozes e na luz
de artifício nada terão para vos dizer.
Oiçam então a voz do progenitor
que não sucumbe às vozes
nesta madrugada primeira
do vigésimo primeiro século.
Estas vozes digo-vos estarão
apagadas pela cinza do tempo
e do esquecimento.
Vosso pai afagar-vos-á
com a mesma ternura enquanto vivia
e levar-vos-á a passear pelas ruas da memória
com a mesma ilusão que vos alberga
nesta pequena casa que também vos deixa.
Para trás ficará um tempo
mas não ficarão os homens que destroçaram
a minha geração, meus filhos.
Não ficarão os sonhos e ilusões
nem a lembrança inconsútil da barbárie.
Espero que resista a honra deste homem
que está por detrás destes versos e que um dia
curvados sobre a sua tumba
vocês digam sem vergonha: Pai


Nelson Saúte