26.3.08


Onde estou


Não

Não me procureis
onde não existo

Eu vivo
curvado sobre a terra
seguindo o caminho inscrito
pelo chicote
nas minhas costas nuas

Eu vivo
nos portos
alimentando as fornalhas
movendo as máquinas
pelo caminho dos homens

Eu vivo
no corpo de minha mãe
vendendo a minha carne
o meu sexo
não é para amar

Eu vivo
perdido nas ruas
de uma civilização
que me esmaga
com ódio
sem pena

E se é a minha voz que se ouve
e se sou eu que canto ainda
é porque não posso morrer
Mas só a lua escuta a minha dor

Não

não me procureis
nos grandes salões
onde não estou
onde não posso estar

Aqui na América

Sim
eu estou também
eu estou

Mas Lincoln
foi assassinado
e eu
eu
eu
todos os dias sou linchado

O comboio especial
rolando vertiginosamente na estrada
é ouro
é sangue
que eu verti através dos séculos

Porquê
pois
procurar-me na Glória de Beethoven

se eu estou aqui

erguendo-me
nos milhões de ais
que se elevam dos porões
em todos os cais

se eu estou aqui
bem vivo
na voz de Robeson e Hughes
Césaire e Guillén

Godido e Black Boy renascidos
nas entranhas da terra
transformando com o meu corpo
os alicerces da vida

se eu estou aqui

soma consciente e firme
dos homens
que compuseram o poema

da vida contra a morte

do fim da noite
e do começo do dia.

Marcelino dos Santos