19.2.08


Proposição


Falo de outro país singular,
do perfume aloirado
e desse sabor a pão matinal.

Falo, na distância,
de distâncias quietas
recortadas no zumbido oloroso
de casuarinas azuis.

Falo de paisagens tenras
e sombrias, simétricas,
como parques e losangos.

Trago notícias de outro clima
pairando em luz e pólen,
em suaves ardências de especiaria.

Falo de outras vozes estranhas,
de murmúrios e ruídos indiscerníveis,
dos pequenos ardis do silêncio.

Falo de corpos ágeis
e elegantes como gráficos
que se armam sem impaciência.

Falo de um céu onde estrelas
serenas navegam presságios
e do refúgio em uma outra
dimensão inusitada.

Falo da beleza das coisas
simples e elementares:
a água, o pão e o vinho.

Iludindo o espanto de viver
falo de estar vivo
e desse outro inventado país,

singularmente habitado, fora
da possibilidade de habitação.

Rui Knopfli