27.2.08

Poema para Eurídice Negra


Dos teus seios negros
nasceram os rios do povo negro

Eurídice,

e o sol e o fogo
foram sol e fogo
nos teus olhos de África

Eurídice.

na virgindade do teu sexo,
puro como as minhas florestas,
morreram milhões de escravos,

Eurídice,

Mas tu és amor,
na imensidade do Índico
possuindo Moçambique,
és o sonho,
na tranquilidade do Níger
acariciando o Sudão amado,
minha África-Eurídice
que o tam-tam de guerra
ainda não acordou
Levanta-te e vem,
que soam as marimbas e o tambor
do nosso povo!
Quando eu construí as pirâmides,
só te vi a ti,

Eurídice,

O Cruzeiro do Sul
foi nosso palácio
quando reinei
no meu império do Mali;
depois vieram os navios,
e arrancaram-me o teu coração,
e a minha voz
ficou rouca
nos trompetes que te procuraram;
mas agora

Eurídice,

os nossos corpo
voltaram-se a encontrar,
as mangas
ficaram douradas
e as buganvílias floriram,
as acácias
vestiram o negro
do teu corpo nu.
E o Zambeze
que atravessou toda a África,
o Zambeze
que acariciou todo o corpo

de Eurídice,

o Zambeze
uniu-se ao Congo
e ao Niger
e ao Nilo
e a toda a África-Eurídice.

Vem Eurídice,

vem,
vamos correr pela savana
e dar as nossas almas à chuva
para elas crescerem,
rolaremos
na esperança verde do capim;

Eurídice,

são doces os frutos
das nossas árvores,
e as flores da nossa terra
vivem em perfume no ar,
nos nossos céus
há mais estrelas,
nos nossos olhos
há mais luz,
nos nossos pulsos livres
há mais sonho...

Vem Eurídice, vem!


Sérgio Vieira