20.2.08

Pergunta-me


Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza

se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via

na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo
a folha rasgada

na minha mão descrente

Qualquer coisa pergunta-me
qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto