14.2.08

Evocação


Lembras-te, Lina,
Do beijo roubado entre girassóis
Ou de quando íamos
De mãos dadas, meninos,
Ouvir as barcarolas
Do marinheiro negro da praia?

Mamana Cellina
Não mais voltou à esquina da rua
Com suas badgias picantes e castanhas de caju
E o negro coxo que jogava futebol
Morreu numa noite de bebedeira.

Lembras-te, Lina,
do moleque Fabião que nos trazia do mato
Maçalas e amendoim?
É agora um velho alquebrado
À porta da palhota
Embrulhado numa réstea de sol.

Os nossos companheiros de outrora
Se dispersaram também:
Os meninos brancos trabalham nos escritórios
Zé mulato sonha Brasis e ritmos de samba
E o Gungunhana
Vende frutas numa banca do bazar.

Lembras-te, Lina,
De quando quedávamos amarrados
Ao sortilégio que nascia
Duma marimba gemendo na noite
Ou de quando ouvíamos atentos
Negro Fabião bêbado, a cantar?

Do bairro novo que aqui nasceu
Fugiram as timbilas chopes
E moleque Fabião não tem mais
Força para cantar…

Lembras-te, Lina?


Fonseca Amaral