20.2.08

Buganvílias para a menina de Benguela

(para a sua esposa, Alda Lara)

Trago em meus braços ramadas de buganvílias vermelhas para a última morada da que foi a Menina de Benguela e se está tornando a Menina de Angola.
Bem sei que os ramos de buganvílias têm espinhos, que laceram a carne fundo.

Mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo, poderei deixar de trazer estas buganvílias vermelhas, de que tanto gostavas...

Vermelhas como o sangue que os nossos corações têm chorado...

Vermelhas como o sangue que a inveja (até depois da morte a inveja não te deixa) está fazendo brotar da nossa tristeza...

Menina de Benguela toda sonho e ternura...
Sonho que uma manhã tropical cortou cerce, como uma flor arrancada violentamente de uma haste...
Aceita estas buganvílias vermelhas, que te trago num momento de desespero e de revolta.
Revolta contra o destino...
Revolta contra a vida...

Revolta contra a inveja...

Não mais poderei estar ausente, quando a tua lembrança clamar por uma presença nas primeiras linhas...

Seria cobardia fugir.

E eu não quero ser cobarde.
Aqui estou, pois, com este ramo de buganvílias e de coração sangrado pelos espinhos.

Mas estou!
E o que é preciso é estar.

Que as buganvílias se tornem no símbolo do teu querer e do teu sonho...
Que os espinhos me lacerem, quanto mais as aperto contra o peito.

Mas que importa?...

Que importa o desespero, a raiva, se somos?...

Se trazemos até ti este punhado de buganvílias, de que tu tanto gostavas?

E eu aqui estou...

Que nesta noite de tristura o vivo das flores seja uma nota de coragem.

Agora, mais do que nunca, a coragem é necessária.
A coragem de sermos...
A coragem de estarmos...
A coragem de trazermos nos braços, rasgados pelos espinhos, um braçado de buganvílias...
Buganvílias para ti...
Buganvílias para a Menina de Benguela, para a Menina de Angola, toda sonho, coragem e ternura...

Aqui te deixo a Esperança nas flores que te trago...

A Esperança que nunca faltou no teu coração...

Adeus, Menina de Benguela...

Menina de Angola...

Adeus...

Até sempre!...

Orlando de Albuquerque