22.1.08

Quando eu morrer




Quando eu morrer
que nem uma lágrima se perca na poeira de Moçambique
Terra quente que receberá meus restos
E os corromperá pela eternidade fora.
Que o sol não deixe de brilhar quando eu morrer
Mas resplandeça com muito mais brilho
Para meu irmão que estará vivendo.
quando eu morrer
Que nem poetas cantem minha morte e vida difícil
Mas chorem dor de quem em meu lugar estará vivendo.

Eu sei...
Eu sei que quando desaparecer
Minha terra será sempre a mesma:
Terra triste que grita em vão
Terra negra de sorriso negro
Terra meiga de verde esperança.

Minha terra é de dor tristeza e amor:
Tem palhotas que escondem a mais vergonhosa miséria
Tem mulheres que sorriem para não chorar
Tem corações que amam para não odiar
Tem olhos que atraiçoam dor do coração.
Desde Munhuana até Xinhambanine
Desde Lingamo até Malhangalene
É miséria o que se respira
É miséria chão que se pisa
É miséria caniço à roda
É miséria o que se tem que pensar.
Mas se é miséria que abunda na minha terra
Que nem ela chore minha morte
Pois precisa de forças para lutar contra a miséria.

Que ninguém chore por compaixão
Que ninguém finja chorar de dor
Que ninguém chore de dor verdadeira
Porque quando morrer
Quero que todos dancem de esperança
Ao ritmo do batuque do povo.

Albino Magaia

Albino Fragoso Francisco Magaia nasceu em 1947, em Lourenço Marques (Maputo). Activista cultural e político desde os anos 60. É jornalista e escritor com colaboração em diversas publicações.