22.1.08

Canção de Namuno a Chiloa



Ai, Chiloa, o milheiral perdido!
O chá, o arroz e até ao amendoim,
As bananeiras tragadas pelo rio,

Que também nos veio roubar vaca matu.

Ai, Chiloa, o rio tem Chicuembe.

Porque nem mesmo as orações dos crentes,

Aqueles teus irmãos lá da missão,

Conseguiram salvar as plantações.

Ai, Chiloa, o rio veio-nos despir

E nos levou os montes de sisal

Que raposa Monhé, ladrão do sangue

Dos plantadores nossos bons irmãos,
Nos pagaria a peso do algodão!
Ai, Chiloa, antes me levasse o rio
Na lama das suas águas pardacentas
E um veleiro gigante me abarcasse
Com rumo à cidade do sol e amor!
Ai, Chiloa, iria sem uma mainata
Ou trabalhar de noite na estiva
Dos enormes cargueiros estrangeiros
Que ao longe, no mar, vemos cruzar!
Hei-de ver mais de mil carros iguais
Ao do teu padre Cruz, lá da missão.
Hei-de ver meus amigos magaíças
E pedir-lhes tabaco do Transval!
Ai, Chiloa, mas eu não quero ir!
Não posso aqui deixar-te tão sozinha!
Espero que as águas fujam para longe
E o sol de novo brilhe mais ardente!
Vou deixar fugir esta tristeza,
Que mora nos teus olhos e nos meus.
Vou deixar morre esta amargura
Que em nossos corpos entranhada vive.
Pegarás na enxada e cavarás
Com mais denodo ainda nossos campos.
O milheiral dar-nos-á mais milho!
Teremos mais arroz e mais sisal!
Ai, Chiloa, a cheia engoliu tudo
Menos a persistência dos teus braços,
A carícia doce de teus olhos,
E o esforço futuro dos teus filhos.


Virgílio de Lemos

Virgílio Diogo de Lemos nasceu em Lourenço Marques, a 29 de Novembro de 1929. Filho de pai goês e mãe moçambicana.
Fez parte, juntamente com Noémia de Sousa, José Craveirinha, Fonseca Amaral, Rui Knopfli, do grupo que nos finais dos anos 40 estabeleceu as bases da moderna literatura moçambi
cana. Utilizou os pseudónimos de Duarte Galvão, Bruno dos Reis e Lee Li Yang.